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Colunas — O Caminho do Coração

Igreja: sacramento e identidade

Há alguns dias assisti a uma rápida entrevista num destes canais de vídeos na internet com um jovem pastor. Um dos temas da conversa foi a igreja. Logo no início, o entrevistador perguntou se a igreja era um “mal necessário” e o pastor respondeu que sim, mas reconheceu a necessidade de mudar essa forma de se ver a igreja. A certa altura da entrevista, foi-lhe perguntado se ele participaria de alguma igreja, caso não fosse pastor. Respondeu que, àquela altura da vida, considerando a realidade das igrejas no Brasil, frequentaria a igreja onde já faz parte da equipe pastoral; mas, fora dela, encontraria dificuldade em participar de outra comunidade religiosa.

Acho que consigo compreender a preocupação com o cenário confuso no qual a igreja evangélica está hoje, porém gostaria de contribuir com considerações que julgo importantes. Começo lembrando do Credo Apostólico, a confissão de fé mais antiga da igreja, que diz: “Creio na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos”. A Igreja é objeto de fé, não de gosto ou opinião pessoais. 

Aqui surge outra questão também muito debatida, a da instituição religiosa. Muitos argumentam que esta igreja do Credo não seria a igreja institucionalizada de hoje. Porém, o Credo segue afirmando que cremos também na “comunhão dos santos”. Aqui o problema institucional perde força. A “comunhão dos santos” é a realidade que define a natureza da Igreja. Podemos até rejeitar a instituição, podemos afirmar que ela não é bíblica, que o reino de Deus não diz respeito às instituições, e por aí vai, porém não temos como rejeitar a “comunhão dos santos” sem comprometer a natureza do “povo da aliança”.

Grande parte desta confusão em relação à igreja está na atitude antissacramental dos evangélicos. O batismo e a Ceia do Senhor continuam sendo praticados nas igrejas, porém, para muitos evangélicos modernos, se os sacramentos fossem suprimidos dos cultos, não sentiriam a menor falta, porque tudo o que importa é a dimensão interna e subjetiva da experiência religiosa.

No entanto, os sacramentos são essenciais para a identidade da Igreja, que é a comunhão daqueles que foram batizados em Cristo e que se encontram ao redor da mesa para, juntos, celebrarem o triunfo do Senhor ressurreto.

Tanto o batismo como a Ceia apontam para algumas realidades que precedem e transcendem qualquer debate sobre a instituição. Eles apontam para o fato de que a Igreja de Jesus Cristo é uma realização divina, e não humana. Um pequeno grupo de cristãos que eu convido para virem à minha casa para, juntos, estudarmos a Bíblia e orar não constitui, por si só, uma igreja. A Igreja não é constituída por aqueles que eu seleciono e convido para estarem comigo na minha casa. É constituída por aqueles que foram chamados e salvos por Cristo, batizados em Cristo e que participam da mesa que celebra a ressurreição de Cristo. Eu tenho grupos de amigos que se reúnem na minha casa, porém isso não constitui a Igreja.

A Igreja é sacramental. Podemos não gostar disso, até mesmo achar desnecessário, contudo ao instituir o batismo e a ceia Jesus oferece a ela um princípio para a sua identidade. Por isso, João vê Jesus no meio dos sete candeeiros que são as sete igrejas do continente. Noutras palavras, Jesus é sempre visto no meio da sua Igreja. Quando Jesus dita as mensagens às sete igrejas, elas nos ajudam a entender que Jesus está no meio de sua Igreja, que toda igreja está no meio de uma cidade, que toda igreja tem aspectos positivos que precisam ser afirmados e aspectos negativos que necessitam ser corrigidos. A preocupação de Jesus não é exaltar ou rejeitar a Igreja, ele simplesmente a reconhece.

A igreja evangélica brasileira é essa igreja que conhecemos, como todas as outras, em toda a história e cultura. Uma igreja cheia de defeitos, mas também cheia de virtudes, onde a obediência a Cristo acontece em meio à rebeldia, orgulho e pecado de todos nós. O caminho que temos a seguir é confessar, juntos, com todos os santos, que “cremos na Santa Igreja Universal; como também na comunhão dos santos”.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas.

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