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Colunas — --

“Sou pobre, mas sou limpinho”

Bráulia Ribeiro

 

Cresci ouvindo provérbios que eram levados a sério. Eram frases repetidas, de modo constante, com a intenção de educar a nova geração. Algumas engraçadas: “Vergonha é roubar e não poder carregar”. Algumas em forma de verso: “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. “A gente é pobre, mas é limpinho” – nesta a ideia principal é simples. Em outras palavras, a pobreza circunstancial não é motivo de vergonha, não é para ser lamentada. Porém, a pobreza de alma, sim; a pobreza de valores, sim. “A gente é pobre, mas é honesto” é outro provérbio aparentado. Honestidade e limpeza são valores preciosos como joias que começam no espírito e refletem no estilo de vida.

 

Para ser limpinho você tem de reconhecer seu valor pessoal. Muitos sociólogos comentam que a pobreza brasileira não é miserável. Ou seja, temos pobreza no Brasil, mas pouca miséria. Qual é a diferença? A miséria é a pobreza sem dignidade, a pobreza niilista, a pobreza sem valor próprio, subserviente, desesperada, “trevosa”. Desta miséria se vê pouco. Do interior da Amazônia ao sertão nordestino, em minha jornada missionária, convivi sempre com a pobreza honrada. O caboclo amazonense considerado pelas estatísticas da ONU como parte dos 15% mais pobres da população mundial é um destes pobres limpinhos. Seu acesso à educação, ao sistema de saúde e até à saúde de emergência é limitado ou inexistente. Sua moradia é um barraco de palmeira paxiúba – construção efêmera que tem de ser refeita a cada dois anos e não tem valor imobiliário. Mora em terras que não são dele e vive do extrativismo. Porém, não há um barraco em que se entre que não tenha algo que o torne um lar. Uma toalhinha em cima do caixote de madeira no chão, folhas lustrosas de revista colocadas na parede, panelas de alumínio areadas para parecer espelho e pequenas obras de arte desenhadas com pregos.

 

No Nordeste você vê o chão de vermelhão bem encerado, a foto antiga dos parentes, do “Padim Ciço”, a flor de plástico decorando o barraco de adobe. Nós brasileiros achamos que viver vale a pena mesmo sem ilhas em Angra e jatos particulares. Não estamos dispostos a fazer tudo para enriquecer, não somos um povo desonesto, que, de modo natural, despreza a moral em favor do ganho material.

 

Nossa cultura de matriz católica é carregada do senso de certo e errado, de responsabilidade para com o nome da família e a sociedade. Chamamos verdade de verdade e mentira de mentira. “Seu nariz vai crescer, menino!” “Mentira tem perna curta.” “Mais vale um nome honrado que um tostão no bolso.”

 

Então como explicar a corrupção? Como associamos, de forma automática, política a corrupção e a consideramos um fato inevitável do “ser brasileiro”? Não é o jeitinho a legitimação da corrupção? Não somos todos Pedro Malazartes?

 

Apesar dos valores culturais que carregamos, ainda somos seres humanos com a natureza caída. Como apontou, de forma precisa, o sociólogo João Pereira Coutinho,1 não gostamos de corrupção mas amamos governos superpoderosos. “O poder corrompe e poder absoluto corrompe absolutamente.”2 Estado grande anda junto com corrupção. Quanto mais poder delegamos a servidores públicos, mais vulneráveis os tornamos à corrupção. Sempre tivemos um Estado patronal, poderoso; portanto, sempre tivemos um estado inclinado à corrupção.

 

Malazartes mente, desdobra-se para não passar fome, é verdade. Entretanto, as aventuras de Malazartes não incluem crueldades, ele não incorpora o tirano que engana. Ele dá o seu jeitinho com limites. Não se apropria do poder, ele o subverte de baixo. Macunaíma, outro anti-herói, está mais para Dionísio do que para Zeus. Pedro II e Henrique VIII são bem diferentes. Entre Malazartes, Macunaíma e Pedro II e os outros há uma grande distância. A maioria dos brasileiros ainda não percorreu essa distância. Queremos dar certo, mas “dar certo” não é mais importante do que “ser certo”.

Assim é o Brasil no qual eu cresci. Não merecemos a corrupção como alguns teimam em dizer, nem ela faz parte de nosso tecido social. Podemos, sim, com fé e bom caráter, nos livrar dela.

 

Notas

1. COUTINHO, João Pereira. As ideias conservadoras. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

2. John Dalberg-Acton

 

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família, e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?.

 

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