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Especiais — Entrevista

“O narcisismo desintegrará a sociedade ocidental”

James Houston


James Houston tem 93 anos de idade e é uma das vozes mais lúcidas entre os pensadores cristãos da atualidade sobre a sociedade ocidental e a cultura cristã. Foi professor por 24 anos na Universidade de Oxford e é um dos fundadores do prestigiado Regent College, no Canadá. Houston deveria ser mais ouvido por aqui. Em suas respostas, ele conjuga conhecimento histórico e filosófico, além de profundidade espiritual. Com a ajuda do psicólogo e teólogo Davi Chang, conversamos com Houston em sua passagem pelo Brasil, no final de 2015. Nesta entrevista, ele fala sobre o que chama de “reforma relacional”, narcisismo, teologia e a crise de identidade que passa pelo endeusamento da profissão.

 

 

O senhor tem falado bastante sobre a importância de uma reforma relacional. Numa época em que os relacionamentos são tão marcados pela tecnologia e pela mídia social, como é possível estabelecermos relacionamentos profundos?

 

 

James Houston -- Desde os anos 50 tenho sonhado e pensado sobre como poderíamos ter uma reforma relacional. Naquele momento, eu comecei a perceber que estávamos criando uma identidade falsa como seres humanos: a criação de uma identidade profissional (aquilo que fazemos determina quem somos e, portanto, a minha identidade é derivada da minha profissão). Agora, na “geração boomer”, como a chamamos, ou na geração pós-guerra, houve um número sem igual de profissões criadas. Esse processo foi desenvolvido com o surgimento das universidades modernas estabelecidas depois da guerra. Elas passaram a colocar grande ênfase nas novas ciências humanas e, portanto, muito influentes em disciplinas como sociologia, psicologia, economia e ciência política. Mas deixaram de ensinar as antigas ciências humanas e os clássicos. Focaram em novas competências para o mundo pós-guerra. Portanto, a crise relacionada a isso chegou, pois esses profissionais da “geração boomer” agora estão se aposentando. Significa, então, que, ao se aposentarem, perdem também sua identidade? Significa que agora gastarão o tempo de maneira inútil? Como a ciência moderna tem estendido essas vidas por mais vinte ou trinta anos, significa que, consequentemente, elas não terão identidade alguma pelos próximos vinte ou trinta anos? Que desperdício de mão de obra humana para toda a sociedade!

 

O motivo para uma reforma relacional não é apenas para a vida da igreja – por mais imprescindível que seja –, mas para a própria sociedade. Precisamos de uma reforma relacional em toda a nossa cultura, primeiramente em âmbito sociológico. Há cinco ou seis anos a “National Geographic” publicou uma matéria sobre um homem que está em um campo de golfe com seus amigos, empresários aposentados, todos idosos. E ele pergunta: “Vocês sabem a diferença entre ser um idoso e ser um ancião?”. Eles não sabiam responder. Em seguida, ele diz: “Eu tenho uma fundação que apoia a tribo africana mais primitiva, na garganta de Olduvai, relacionada à origem do “homo sapiens”; fica no vale do Rift, no leste da África. Que tal irmos lá fazer um safári? Passaremos três ou quatro semanas vendo como os anciãos das tribos trabalham. Eles mostrarão na prática muito mais do que eu poderia expressar em palavras”. Eles foram. É claro que os anciãos nas tribos continuam em forma, viris e ativos. Então, o que é um ancião? Um ancião é uma pessoa que mantém uma tribo unida em relação à qualidade da vida relacional, para o bem da tribo, e não para si mesmo. Um profissional costuma ter uma identidade que é voltada apenas para si. Mesmo nesse nível rudimentar, precisamos de anciãos, e não de um excesso de população idosa e desempregada.

 

O senhor contou como uma criança com síndrome de Down ajudou sua filha a ter uma nova identidade, além da identidade profissional. Que dádivas pessoas com deficiências nos trazem, tendo em vista a nossa cultura, que foca no “ser jovem e bonito”?

 

 

Quando minha filha tinha 5 anos, passou a ser uma “anciã”. Tinha uma prima com síndrome de Down. Elas brincavam juntas e se curtiam. Mas, com o passar do tempo, a inteligência de uma criança normal segue como uma ferrovia que entra em territórios distintos dos que são explorados por uma criança com necessidades especiais. Mas o resultado foi o seguinte: minha filha Penélope nunca deixou de se preocupar com os deficientes; a questão da compaixão ficou marcada nela. Essa é uma expressão simples de uma reforma relacional. É claro que falar sobre a reforma relacional na vida da igreja é algo muito mais profundo.

 

As pessoas com deficiências aprendem a conviver com frustrações, e isto, por vezes, dá-lhes um espírito mais transcendente, pelo que não se conformam em apenas viverem para seus próprios apetites ou interesses egoístas. Elas percebem que precisam de outras pessoas para ajudá-las. Então vivem como se fossem sobreviver em um mundo relacional maior, em comparação com pessoas egoístas. Muitas vezes, são os deficientes que nos desafiam sobre nosso narcisismo. Ser relacional significa que você cuida do próximo. Então, é claro que quando eu disse, nos anos 50, que precisávamos de uma reforma relacional, eu não fazia ideia de como o narcisismo viria a se tornar tão exagerado, a ponto de causar a derrocada da civilização ocidental, como a queda de Roma. Uma sociedade como esta se desintegrará.

 

O senhor mencionou que a cultura brasileira é uma cultura emocional. Como o senhor descreveria os prós e os contras de estar em uma cultura com essa característica em relação a nossa vida espiritual?

A cultura brasileira é muito complexa por causa das migrações de diferentes povos. Porém, a migração predominante veio dos países mediterrâneos, principalmente de Portugal, que, por sua vez, sempre foi associado aos povos latinos da Espanha, Grécia e Itália. Em todas essas culturas há uma enorme influência do personalismo, em que buscamos ser amigáveis uns com os outros. O aspecto negativo do personalismo são as “máfias”, ou seja, você pode ter amigos que são bandidos e ladrões, e é extremamente difícil destruir esse tipo de maldade, porque faz parte de uma rede oculta de conexões e relacionamentos.

 

Na cultura do personalismo, você expressa suas emoções mais facilmente do que em culturas com um clima gélido, como na Europa ocidental ou na América do Norte. A vantagem disso é que há um potencial para mais expressão da vida original, pois as pessoas expressam mais as emoções, e expressá-las nunca é o bastante. Portanto, isso afeta a neurociência dos latino-americanos.

 

 

Quando as emoções estão presas dentro de nós, isso significa que possuímos os recursos para sermos emocionais. É claro que minhas emoções dependem sempre da relação com outra pessoa: ser agradável a ela, ter raiva dela, sentir inveja dela. Seja qual for a emoção, é sempre uma circunstância relacional. É sempre com o outro. Podemos nos preocupar com o outro e proporcionar cuidado ao próximo quando vivemos a partir das emoções. É claro que podemos também ficar isolados, aborrecidos e orgulhosos. No entanto, tudo isso é resultado de uma degradação dos relacionamentos e significa que, possivelmente, estamos prometendo mais do que podemos cumprir com o personalismo.

 

 

O senhor menciona que a finalidade da teologia deve ser que tenhamos vida plena. Normalmente vemos que a formação teológica é muito mais voltada para o homem cognitivo do que para o homem relacional. Poderia comentar o fato de que seminários no Brasil e em outras partes do mundo parecem focar muito mais em teologia sistemática ou doutrinal do que em formação espiritual?

Penso que muitos seminários não entendem claramente que a interpretação das teologias são resultado de nossa cultura. Então estamos reagindo à modernidade, o que Charles Taylor chamaria de o “mal-estar da modernidade”, como sendo hipercognitiva. E esse “eu” hipercognitivo é aquilo que produz essas ideias abstratas sobre a teologia sistemática ou a rigidez de outras formas de expressões cognitivas na teologia. Não percebemos que somos o resultado da nossa cultura e que nossas teologias são expressões disso. Portanto, o que percebemos é que nossas emoções expressam uma variação maior sobre a qualidade dos relacionamentos do que apenas ser um pensador solipsista, contido em seus próprios pensamentos. A própria noção de ser um pensador é a de alguém que se isola dos relacionamentos. Então, Auden, o poeta, certa vez disse de maneira até provocante: “Porque Descartes foi separado de sua mãe, ele separou a mente do corpo (matéria)” e se tornou o solipsista, “eu penso, logo existo”. Fomos tiranizados por isso desde o Iluminismo, e o pós-modernismo é uma reação saudável que diz: “Não, somos mais do que pensadores; também temos de nos relacionar com os sentimentos”.

 

O que o senhor recomendaria para uma nova geração de cristãos no Brasil? Em que eles deveriam prestar atenção?

O que tenho percebido está acontecendo não apenas no Brasil, mas também em muitas partes do mundo ocidental. O Brasil está em uma crise nacional. É exatamente em momentos de crise como este que somos muito mais suscetíveis a nos arrepender e dizer que precisamos de uma nova voz, proclamando a verdade e a justiça, que triunfe em nossa cultura. Então essa é uma ótima oportunidade para os cristãos levantarem a voz e se tornarem um “João Batista”. Ele pode até ter clamado no deserto e não ter sido ouvido, mas agora, neste deserto, ele está novamente clamando: “Arrependam-se! Arrependam-se! Arrependam-se!”. É claro que esse arrependimento começa em nosso próprio coração.

 

Traduzido por André Lodos Tangerino.

 

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Veja a entrevista original com James Houston em vídeo

 

 

 

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