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Colunas — Ética

A teologia da prosperidade à moda patrística

Paul Freston e Raphael Freston

 

A teologia da prosperidade está longe de ser unanimidade na comunidade evangélica brasileira. Mesmo assim, em boa parte, ela passou a definir a imagem pública de todos os evangélicos. Por isso, lendo os autores cristãos dos primeiros séculos da igreja (os chamados patrísticos), é interessante perceber se eles tinham algum conceito parecido. Afinal, eles viviam numa época em que o cristianismo tinha de concorrer com outras propostas religiosas e que era marcada por grande desigualdade econômica, assim como em nossos dias a pobreza e a desigualdade convivem com a disputa religiosa acirrada.

 

A conclusão a que a leitura dos patrísticos nos leva é inesperada. É possível, sim, delinear uma teologia da prosperidade nos escritos patrísticos. Mas a “teologia da prosperidade à moda patrística” é significativamente diferente da teologia da prosperidade dos nossos dias e, se colocada em prática, teria consequências diferentes.

Em que consiste a teologia da prosperidade à moda patrística? Consideremos primeiro João Crisóstomo, grande pregador em Antioquia e em Constantinopla no final do século 4º e início do século 5º. Ele diz: “Como vocês não fizeram as ofertas costumeiras [...] os ricos detêm os bens dos pobres [...] Pois o nosso dinheiro é do Senhor, não importa como o tenhamos obtido. Se suprirmos a falta dos necessitados, obteremos grande abundância”. De modo semelhante, Basílio, grande líder da igreja na região da Capadócia no século 4º, afirma que, quando damos aos pobres, estamos somente emprestando, pois a beneficência de Deus nos recompensa. “Não desejas que o Altíssimo esteja obrigado a te recompensar?” -- diz Basílio.

 

Em outras palavras, esses líderes cristãos do século 4º acreditavam no mesmo mecanismo de recompensa pregado hoje: dá a Deus e ele com certeza te recompensará muitas vezes mais (“obteremos grande abundância”; Deus estará “obrigado a te recompensar”).

 

Contudo, há uma diferença fundamental. Para Crisóstomo e Basílio, “dar a Deus” não significava “dar à igreja” ou “dar a mim, o pregador”. Significava “dar aos necessitados”. E “não dar” significava roubar dos pobres, não da igreja ou do pregador. Temos aqui, então, uma teologia da prosperidade totalmente diferente, na qual o mecanismo de recompensa que conhecemos (pelo qual “obtemos grande abundância” porque “o Altíssimo está obrigado a nos recompensar”) se alia a uma prática socialmente benéfica e a uma relação eclesiástica menos interesseira. Isso evitaria o que há de mais escandaloso na teologia da prosperidade, porque substitui a mão dupla pregador/ouvinte por uma relação triangular que inclui a pessoa necessitada. O pregador deixa de ser a parte interessada, já que ele não é mais o beneficiário da doação. Com uma cajadada só, esta “nova (antiga) teologia da prosperidade” melhoraria de modo considerável a tão prejudicada imagem pública evangélica no Brasil, pois tiraria do pregador a suspeita de agir por interesse próprio e causaria uma enxurrada de doações para obras sociais.

 

No entanto, os autores patrísticos acabam relativizando essa “nova teologia da prosperidade”. O bispo Ambrósio de Milão, que teve um papel fundamental na conversão de Agostinho no ano de 386, comentando Lucas 9.23-27, diz: “O nosso Senhor, ao mesmo tempo em que nos ensina a desprezar as coisas do mundo, também condescende à fraqueza da mente humana por meio de uma recompensa no presente […] Mesmo a virtude mais elevada raramente troca coisas presentes por coisas futuras”. Ou seja, a teologia da prosperidade (de qualquer tipo) é para os fracos. Porém, algum grau de fraqueza caracteriza a maioria dos cristãos.

 

Finalmente, Gregório de Nissa, amigo de Basílio, comenta Lucas 12.27-31 da seguinte forma: “[Alguns de vocês dizem:] há pessoas que obtiveram o poder e a honra e as riquezas porque pediram em oração. Por que, então, você [Gregório] nos proíbe de buscar tais coisas por meio da oração?”. Gregório responde aos seus críticos da seguinte maneira: “[Tais coisas] são conferidas por Deus àqueles que as buscam, para que nós, aprendendo que Deus escuta as nossas petições menores, sejamos elevados ao desejo das coisas superiores, da mesma forma que as crianças aprendem a abandonar os desejos infantis”.

 

Qualquer tipo de teologia da prosperidade, portanto, é para as “crianças”. Não deixa de ser legítima (pelo menos, a teologia da prosperidade patrística), mas não deve ser o último passo e, muito menos, tida como exemplo de exercício da fé. Pelo contrário, deve ser apenas o primeiro passo numa cadeia pedagógica que leva a estágios mais avançados da vida cristã.

 

Sendo assim, no lugar da teologia da prosperidade que conhecemos devemos introduzir a “teologia da prosperidade patrística”, que visa a doação generosa aos necessitados e não ao pregador. Já a teologia da prosperidade que tem o foco mantido na recompensa material deve ser entendida como característica da infância espiritual e não como evidência de uma fé robusta e madura.

 

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

 

• Raphael Freston estuda ciências sociais na Universidade de São Paulo e é membro da diretoria nacional da ABUB.

ERRAMOS. Por engano, publicamos na edição impressa a imagem do arcebispo João Crisóstomo de Amorim Pessoa (1810-188), quando o correto seria a imagem de um dos mais conhecidos pais da igreja, João Crisóstomo, pregador do Século IV.

Legenda da foto correta: João Crisóstomo, pregador em Antioquia e Constantinopla no final do século 4. Escultura na catedral de São Patrício, em Nova Iorque, EUA.

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