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O amor vale mais do que lindas flores e véu de noiva

Benno Wagner



O fato teve seu desfecho exatamente há 35 anos, no dia 1º de abril de 1970, na capela particular do bispo Dom Jaime Luiz Coelho, em Maringá, PR.

Após o envio do libelo para Roma e a espera de cerca de dois anos pela decisão canônica, finalmente veio o veredicto: “Faça o casamento religioso”.

Gentilmente, Dom Jaime me procurou. Eu era então diretor do Colégio São José, em Maringá. Ele tomou a dianteira e me disse: “Vou fazer o seu casamento bem simples e singelo. Sem muitas cerimônias. Dispenso testemunhas, parentes e amigos”.

Feliz por ter enfim recebido a dispensa de Roma, combinei tudo com minha esposa e fizemos os preparativos. Mas, que preparativos? Não tinha de preparar nada. O bispo só me disse: “Faça antes uma boa confissão”.

Na manhã do dia combinado, às 7h30, lá estávamos eu e minha esposa na capela particular do senhor bispo. Por que sozinhos? Não sei. Talvez não conviesse que o povo soubesse que o padre Benno e a dona Tereza não eram casados legitimamente! Meandros da ética e das leis canônicas!

Antes da missa, que o bispo rezou pessoalmente, sem outra assistência senão nós dois nubentes, foi realizada a bênção do nosso “casamento clandestino”. De fato, a cerimônia foi simplíssima, como Roma desejava.

Passados tantos anos, até hoje não sei o porquê da clandestinidade. Estaríamos fazendo algo errado? Ainda mais depois daquele solene decreto do Concílio Vaticano II, que afirmava que não havia contradição entre o sacerdócio e o matrimônio. Ou seria porque o povo de Deus não deveria tomar conhecimento desse decreto? Essa pergunta ainda está engasgada na minha garganta.

Em todo caso, estávamos casados. E o casamento foi feito por um bispo, meu amigo Dom Jaime, que sempre me tratou com caridade e respeito. Mais tarde, porém, minha esposa lamentou não ter usado o véu de noiva e o fato de ninguém ter levado flores. Eu a consolava dizendo que o amor vale mais do que lindas flores e o tradicional véu de noiva. “Já vimos tantos casamentos, alguns até celebrados por mim como padre, cheios de aparato externo e tão pouco amor”! — dizia-lhe.

Alguns alunos me perguntavam: “Professor, o senhor é casado no religioso?” Eu sempre respondia: “Oh, sim! E o meu casamento foi feito por um bispo. Isso me honra”.

Todavia, continuamos a lastimar a terrível ausência de testemunhas, de véu, de grinalda, de flores.

Um dia, em conversa íntima com Dom Jaime, perguntei discretamente: “Por que eu, padre casado, não posso rezar missa?” Após longa pausa, pensativo, ele respondeu: “É, padre Benno, se não fosse Roma!” Essa última palavra, ele esticou bem: “Roooma!” Pensei com meus botões: “ele não disse ‘se não fosse a mulher’”. Quantas vezes é a mulher que leva a culpa! Foi assim no paraíso. Dom Jaime nada mais acrescentou. Sempre, porém, foi um pai amoroso e verdadeiro. E mais: um bom pastor. Afinal, sou grato a ele, por ter abençoado nossas alianças e por ter nos dito: “O que Deus uniu, o homem não separe”. Muito obrigado, Dom Jaime. Tu foste um pai para nós!

Em recente edição do Direito Canônico, o cânon 1.333 abre uma brecha e declara que, se um grupo de fiéis pedir que o padre casado administre os sacramentos, este poderá fazê-lo legitimamente.

Por conveniência interna da Igreja, depois de ter jogado tanta pecha sobre os padres casados, esse item não é muito propalado entre os fiéis.

Hoje, o diácono ou o ministro da eucaristia faz praticamente tudo o que era da jurisdição dos padres antigos: batiza, administra a comunhão, assiste aos moribundos, celebra casamentos, enterra os mortos, ensina catecismo às crianças... E já não se questiona o fato de ele ser casado. Aliás, em todas as outras igrejas cristãs, tanto nas ortodoxas como nas evangélicas, as esposas dos pastores e dos bispos nunca foram um estorvo.

Deixo consignado aqui que muitos velhos colegas, depois de terem levado a pecha de “ex-padres”, agora, em certas ocasiões, a convite da igreja, podem e devem ministrar os sacramentos. É verdade que alguns já não têm vontade de fazê-lo.

Nos dias de hoje, quando em quase todas as esquinas dos nossos quarteirões aparecem igrejas de outras denominações cristãs, parece que os velhos coronéis tão massacrados e perseguidos por métodos autoritários vêm sendo, aos poucos, novamente valorizados.

O muro de Berlim também caiu!




Benno Wagner, 83 anos, nasceu em Taquara, RS. Formou-se em teologia e filosofia no Pontifício Ateneu Cristo Rei, em São Leopoldo, e foi ordenado padre aos 31 anos. Estudou psicologia e pastoral na Alemanha, e língua e cultura asiática no Japão. Trabalhou como sacerdote e professor na Diocese de Hiroshima, no Japão, por dez anos, onde fundou um grande colégio e conheceu Teresa Teruyo, sua paroquiana e auxiliar, com quem veio a se casar (no civil) em 1966, aos 44 anos. De volta ao Brasil, fundou em Maringá, em conexão com a colônia japonesa, o Colégio São José. É autor dos oito volumes da série Volta às Raízes, que narram fatos verídicos da vida cotidiana, focalizando sempre a imigração européia e japonesa.

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