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Seções — Pastorais

Do mau cheiro ao perfume

A genética diz que o olfato é o sentido mais antigo do ser humano. Por meio dele somos capazes de captar e distinguir os cheiros que muitas substâncias espalham no ar. A olfação pode provocar tanto uma sensação agradabilíssima como uma sensação diametralmente contrária. Isso porque nem todos os cheiros que sentimos são agradáveis. O cientista Zwaarde Maker divide os odores em nove grupos, dos etéreos aos nojentos, passando pelos odores acres, azedos e repelentes.

O mau cheiro vem de algum alimento estragado, não conservado sob refrigeração adequada. É o caso do maná, aquela comida que os israelitas comeram durante os 40 anos do êxodo. Se deixado para a manhã seguinte, o maná dava bichos e “cheirava mal” (Êx 16.20).

O mau cheiro vem de alguma doença localizada nas gengivas, amídalas, estômago e intestinos. É o caso de Jó, aquele homem íntegro e justo que adoeceu gravemente. Ele mesmo conta: “A minha mulher acha repugnante o meu hálito; meus próprios irmãos têm nojo de mim” (Jó 19.17, NVI).

O mau cheiro vem também daquele processo que “irremediavelmente reduz o corpo humano à inércia, ao enrijecimento e à putrefação”, ao qual damos o nome de morte. Quando Jesus se dirigiu ao túmulo de Lázaro, Marta lhe adiantou: “Senhor, ele está cheirando mal, pois já faz quatro dias que foi sepultado” (Jo 11.39).

Há uma outra fonte de mau cheiro, pouco mencionada e pouco investigada. É o cheiro do pecado. A ele se refere a recém-eleita deputada federal Denise Frossard, em seu livro Os Caminhos da Transparência. A ex-juíza chama de “mau hálito político” a proliferação das práticas corruptas na máquina governamental.

O fedor do pecado existe porque estamos moralmente doentes por dentro. Carregamos todos uma bagagem mal-cheirosa, que tenta se liberar e vir para fora. Quando isso acontece, exalamos odores fétidos. A melhor explicação a respeito foi dada por Jesus: “O que sai do homem é que o torna impuro, pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez”. Jesus termina a mais completa análise da natureza humana batendo na mesma tecla: “Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro” (Mc 7.20-23, NVI).

Porque o número de pessoas que não trancam sua pecaminosidade latente e a deixam se expressar é maior do que o número de pessoas que agem de modo contrário, a atmosfera que respiramos agride violentamente o nosso olfato.

Não foi à toa que Jesus chamou os escribas e fariseus de seu tempo de sepulcros caiados, “que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de morte e de toda imundícia” (Mt 23.27).

Paulo foi mais explícito ainda quando citou uma passagem dos Salmos (Sl 5.9) e explicou que as gargantas dos ímpios “são um túmulo aberto” (Rm 3.13). Assim como o mau hálito intolerável de Jó saía pela garganta e pela boca, o fedor do pecado contamina o ambiente quando a tampa do sepulcro é levantada e toda a porcaria moral ali encerrada vem para fora.

O mau cheiro do pecado pode ser contido com a não satisfação de seus reclamos no poder do Espírito Santo. Então, em vez de exalar odores acres, azedos, repelentes e nojentos, aquele que tem o hábito cristão de negar-se a si mesmo passa a exalar odores etéreos, elevados, celestiais e sublimes. Ele transforma o fedor em perfume e começa a exalar aquele aroma agradável que chega até onde Deus está e alcança todos que estão à sua volta. Aí se cumpre aquilo que Paulo declarou à igreja de Corinto, formada de ex-imorais, ex-idólatras, ex-adúlteros, ex-homossexuais, ex-ladrões, ex-avarentos, ex-alcoólatras, ex-caluniadores e ex-trapaceiros (1 Co 6.9-10): “Nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como nos que se perdem” (2 Co 2.15).

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