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Colunas — O Mineiro com Cara de Matuto

O Mineiro com Cara de Matuto na Missão Evangélica Caiuá


Um século de caça ao índio
Em 1526, somente 26 anos depois da descoberta do Brasil e 18 anos depois de ter percorrido o litoral da América do Norte (1508), o explorador veneziano Sebastião Caboto penetrou na região mais central da América do Sul e travou amizade com os índios guaranis que ali viviam, em terras que hoje se chamam Mato Grosso. No ano anterior, o sertanista português Aleixo Garcia, o primeiro branco a chegar ali, havia sido morto pelos índios paiaguás junto ao rio Paraguai.

A essa altura, a população indígena brasileira ultrapassava a casa de 1,5 milhão (há quem calcule em 9 milhões). Quase todos moravam em tabas (ou aldeias), separadas umas das outras por uma distância nunca inferior a 9 quilômetros, mas que poderia chegar a 50 quilômetros. Cada taba possuía de 4 a 10 malocas (ou ocas), cercadas de varas e cobertas de palha ou folhas. A área ao redor tinha o nome de retama. Era ali que os índios encontravam sua subsistência, por meio da lavoura, caça e pesca — cerca de 400 quilos de comida por dia no caso de uma taba de 400 habitantes. Depois de 4 a 5 anos, eles se mudavam para um lugar mais distante, por causa da escassez dos gêneros alimentícios. Havia sempre muita largura e recursos de sobrevivência. Em cada oca, moravam várias famílias: pai, mãe, filhos, genros e noras, mulheres solteiras, parentes idosos, amigos agregados, netos, bisnetos e até prisioneiros de guerra. Os contatos íntimos entre marido e mulher eram realizados fora da maloca, no mato ou na praia. Não tinham horários fixos para as refeições nem ajuntavam em celeiros comida para o dia seguinte, o que lembra Mateus 6.26. Não eram ansiosos quanto ao comer e ao beber — porque a terra lhes dava tudo isso com fartura —, nem com o vestir, porque naquele tempo andavam nus.

Logo no início do século XVII, os índios da região Centro-Oeste começaram a ter contatos mais freqüentes e mais demorados com os brancos. Alguns desses encontros eram com missionários jesuítas espanhóis, que lhes transmitiam o evangelho e lhes ensinavam a leitura, a escrita e rudimentos de agricultura e pecuária. Os outros encontros eram com bandeirantes que os levavam cativos para os lados do litoral. Essa pavorosa escravização indígena só terminou em 1718, quando o bandeirante paulista Pascoal Cabral Leme descobriu enormes jazidas de ouro às margens dos rios Coxipó e Cuiabá e o bandeirantismo minerador tomou o lugar do bandeirantismo de caça ao índio.

Com essas coisas na cabeça e com a leitura de alguns capítulos do livro Canto de Morte Kaiowá, organizado pelo pesquisador José Carlos Sebe Bom Meihy, o Mineiro com Cara de Matuto passou 5 dias na Missão Evangélica Caiuá, localizada entre a cidade de Dourados e a reserva indígena, no Mato Grosso do Sul, que tem a segunda maior população de índios do Brasil — cerca de 50 mil, a maioria dos quais são guaranis ou caiuás.

270 suicídios em 8 anos
A única coisa que talvez todo mundo saiba sobre os caiuás é que eles cometem suicídio com freqüência. Isso é objeto de estudo. Nos últimos 8 anos, 270 índios da região cometeram suicídio. O maior número de mortes ocorreu em 1995 — mais de uma pessoa por semana (56 suicídios). Suicidam-se crianças, adolescentes e adultos. Em 60% dos casos, a morte provocada ocorre entre jovens menores de 24 anos. Luciana, de 9 anos, Delina, de 10, e Virgínia, de 11, são os exemplos mais chocantes. No dia da chegada do Mineiro a Dourados, a polícia registrou o suicídio de Mário Gomes na aldeia Bororó. O rapaz, de 24 anos, era casado e pai de uma criança de 7 meses. Quase todos se matam por enforcamento, como aconteceu com Aitofel (2 Sm 17.23), Judas (Mt 27.5) e o frei Tito. Morrem enforcados — explica o escritor e índio tapuia Kaká Jecupe —, porque “a garganta é a morada do ser”. Alguns ingerem veneno agrícola.

Por que os caiuás cometem tanto suicídio? A resposta mais freqüente tem muito a ver com a brusca mudança do estilo de vida anterior para o atual, de acordo com a descrição feita no início desta reportagem. O confinamento dos indígenas de aldeias diferentes num mesmo lugar (reservas), sem terra e fontes de alimentação suficientes, e o alcoolismo explicam em grande parte os suicídios.

Outras razões podem ser encontradas na crença indígena de que a morte não é a última página da vida humana. Por acreditarem em uma vida nova após a morte, esta não é tão temida. O caiuá é muito agarrado à família. Então, quando há algum atrito entre marido e mulher ou entre pai e filho, isso pode levar ao suicídio, como possivelmente aconteceu com o já citado Mário Gomes, que teve uma briga com a esposa 4 dias antes de morrer.

O homem que sumiu por 8 meses
Quase 3 séculos depois da instalação dos jesuítas no Mato Grosso, o missionário presbiteriano Albert Sidney Maxwell percorreu todo o Estado (na época com uma área superior a 1,2 milhão de quilômetros quadrados) e parte da Amazônia, com o propósito de escolher o local mais adequado à implantação de uma missão evangélica entre os índios. Durante essas jornadas, visitou sozinho as então naturais e muitas vezes perigosas tribos Nhambiquara, Bororó, Parecis, Xavante e Parantinin. Numa das viagens, Maxwell se ausentou por 8 meses e percorreu a cavalo cerca de 4.800 quilômetros, atravessando florestas, pântanos e planaltos, dormindo ao relento e comendo o que encontrava pelo caminho. Pela graça de Deus, conseguiu estabelecer relações amistosas com as tribos nativas com as quais se encontrou. Enfrentou perigos com animais selvagens e sobretudo com as muitas malárias. Quase sem forças por causa da malária, conseguiu chegar a uma estação de telégrafo em Vilhena, ao sul de Rondônia. Ali um homem o socorreu e o ajudou a construir uma canoa de 13 metros de comprimento de uma árvore chamada ariputanga, na qual navegaram por 40 dias pelos rios Aripuanã e Madeira, até chegar, no final de 1922, a um hospital de seringueiros. Depois, Maxwell tomou um navio em Manaus e foi para Belém, onde embarcou com destino ao Rio de Janeiro. Da então capital federal, rumou para Lavras, MG, onde seus colegas e a futura esposa Mabel já o davam como morto por não terem notícias dele por longo tempo. A essa altura, Maxwell recebeu um telegrama do governador do Amazonas, parabenizando-o por ter sido o primeiro explorador a fazer uma viagem daquele tamanho e chegar vivo em casa. Depois de todas essas viagens de reconhecimento e de peripécias, de 1921 a 1922, Maxwell chegou à conclusão de que a área menos hostil para abrir a missão seria ao sul do Mato Grosso do Sul, em Dourados, entre os índios caiuás.

A Missão Evangélica Caiuá se instalou em agosto de 1929, exatamente há 70 anos. Poucos missionários estrangeiros cometeram tantos acertos como Albert Maxwell. A Missão estava sob a responsabilidade da Junta Missionária a que ele pertencia e de três denominações brasileiras: a Igreja Presbiteriana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e a Igreja Metodista do Brasil. Maxwell e a esposa não foram sozinhos para o campo: levaram uma equipe formada de professores, agrônomo, médico e dentista, todos jovens e brasileiros. Realizavam um ministério holístico, isto é, davam assistência educacional, técnica, médica, odontológica e, obviamente, espiritual. Passados 70 anos, até hoje a Missão Caiuá conserva essa estrutura e essas características. A única mudança é que os metodistas não estão mais entre as denominações cooperantes. Agora eles realizam trabalho de assistência social em Bororó.

Em 1929, Dourados tinha 2 mil habitantes, o correio chegava à cidade quatro vezes por mês e a estação ferroviária mais próxima ficava a 320 quilômetros. Maxwell comprou uma propriedade de 1.011 hectares, adjacente à reserva indígena. Foi o principal obreiro da Missão até 1943, por 14 anos. Faleceu 4 anos depois, em 22 de fevereiro de 1947, em Clinton, Carolina do Sul. Os outros membros da primeira equipe foram o agrônomo João José da Silva (presbiteriano), o professor Eston Marques (presbiteriano independente) e o médico Nelson de Araújo (metodista). Este último, mais tarde, tornou-se prefeito de Dourados.

As informações sobre Maxwell, o Mineiro obteve com um dos filhos do casal Mabel e Albert — o pastor David Maxwell, residente na Flórida, que escreveu um livro de 280 páginas, ainda não publicado, sobre o pai.

O Mineiro chegou a Dourados 3 meses depois da morte de Orlando Andrade, em 12 de janeiro de 1999, o que o entristeceu muito, pois os dois trocavam cartas. Foi Orlando quem tomou o lugar de Maxwell como diretor da Missão, até se aposentar em 1985. Ele e sua conhecidíssima esposa, Loide Bonfim de Andrade, deram 43 anos de suas vidas aos caiuás, com uma dedicação a toda prova. Desde então, o diretor tem sido Beijamim Benedito Bernardes, ex-professor do Instituto Bíblico Eduardo Lane, em Patrocínio, MG. Sua esposa, Margarida Gennari Bernardes, é a coordenadora pedagógica da Missão. O casal tem duas filhas.

A loirinha e a indiazinha de Lagoa Rica
Hoje a Missão Evangélica Caiuá está presente em doze aldeias ao sul de Dourados (Panambizinho, Caarapó, Jarará, Jacaré, Guaimbé, Amambai, Taquapiry, Gwassuty, Sassoró, Porto Lindo, Campestre e Piraquá), uma no Paraguai (Pissyry), outra em Nova Xavantina (Aldeinha), ao norte do Estado de Mato Grosso, e a última no litoral de São Paulo (Ubatuba). Na sede e em cinco aldeias, em parceria com as prefeituras mais próximas, ela mantém seis escolas da alfabetização à 4ª série, com cerca de 1.550 alunos. Só a escola da sede, a única que recebe alunos até a 8ª série, tem aproximadamente 600 estudantes. Um ônibus da Prefeitura de Dourados recolhe os alunos na reserva e depois os leva de volta. O Mineiro fotografou uma aluna da 7ª série, Sandra Freitas, de 16 anos, ainda solteira e filha de pais crentes: ela é a atual Miss Indígena. Por aí se vê o grau de aculturação da parte dos caiuás e guaranis.

O Mineiro gastou um dia inteiro para visitar, na sede da Missão, a Escola Municipal Francisco Meireles, o Instituto Bíblico Rev. Felipe Landes (que forma obreiros índios), a Igreja Presbiteriana Indígena (com um templo enorme), o Hospital e Maternidade Indígena Porta da Esperança (com 114 leitos) e o gabinete dentário.

O hospital possui dois prédios, um para maternidade, pediatria e clínica geral, e outro para tratamento da tuberculose, ainda muito comum entre os índios. As gestantes recebem de presente todo o enxoval do bebê. As crianças que são internadas ficam acompanhadas das mães. O hospital atende cerca de 8 mil pacientes por ano, dos quais mais ou menos 2.200 necessitam de internação. A maioria dos auxiliares de enfermagem são índios. Dos quatro médicos, três são missionários e residem na missão. Em seis aldeias, a Missão mantém pequenos ambulatórios, que, em 98, atenderam 15.014 pacientes.

A Missão possui ao todo 6 igrejas organizadas, 27 congregações e 15 pontos de pregação nas 17 aldeias, com 640 membros comungantes, 763 não comungantes (menores), 19 presbíteros, 15 diáconos, 7 pastores, 35 evangelistas e 1.736 alunos na Escola Dominical. O Instituto Bíblico, cujo diretor é o pastor Saulo Camilo, tem, no momento, oito alunos de cinco diferentes aldeias (quatro são solteiros e os demais, casados, com 21 filhos ao todo).

Para manter todo esse trabalho, a Missão precisa de uma receita mensal de 50 mil reais. Os recursos provêm do SUS, do arrendamento de terra e de doações de igrejas e indivíduos.

O Mineiro teve o agradável privilégio de conhecer uma das congregações da reserva local, cujo templo, inaugurado no dia 1º de abril, foi construído pelos próprios índios, que também contribuíram com seus dízimos para comprar o material de construção (cerca de 10 mil reais).

Na companhia de Beijamim Benedito Bernardes, 50 anos, diretor geral da Missão, e de Gordon Stanley Trew, 82 anos, professor do Instituto Bíblico e do Seminário Teológico Batista de Dourados, o Mineiro viajou 414 quilômetros para conhecer as aldeias de Caarapó, Rancho Jacaré, Taquapiry e Amambai, mais a pequena cidade de Sanga Puitã, na fronteira com o Paraguai. Lá, Beijamim comprou doze latas de refrigerante por 4 reais e 50 centavos (preço do Paraguai). O país de Solano Lopes estava inquieto por causa do assassinato do vice-presidente Luis María Argaña, três dias antes. Do outro lado da fronteira vivem 350 mil brasileiros.

Velho amigo do Mineiro, o missionário Gordon Trew é um fenômeno: converteu-se quando estudante de engenharia nos EUA, é bacharel e mestre em teologia pelo Seminário de Princeton, missionário no Brasil por várias décadas (Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás) e agora, depois de aposentado e já octogenário, constrói uma casa na Missão e dedica o resto de seus anos ao preparo de obreiros indígenas. Gordon e a esposa Ada vão comemorar as bodas de ouro no próximo 17 de dezembro (casaram-se, ele com 32 anos e ela com 33). Os quatro filhos do casal estão radicados no Brasil. Por ter sido piloto do avião Arauto do Evangelho, de 1957 a 1964, Gordon gosta de dizer que começou o seu ministério, invertendo Isaías 40.31: “andei primeiro de burro, depois de jipe e depois voando; agora, não vôo mais, corro pouco e ando bastante; mas as forças se renovam, graças a Deus”. Ada Hope Trew também dá aulas no Instituto Bíblico.

No dia seguinte, o Mineiro foi até Panambi e Lagoa Rica, uma viagem de 89 quilômetros. Neste último lugar, conheceu a Missão Evangélica Unida (MEU), fundada em 1962 no Sul da Alemanha. Os primeiros missionários dessa Missão vieram para o Brasil há 34 anos (1965). Em Lagoa Rica, encontrou-se com dois Werners e suas esposas. O primeiro Werner está voltando para a Alemanha e o segundo Werner acaba de chegar para substituí-lo. Eles moram na aldeia, juntamente com uma professora brasileira. O Mineiro fotografou duas meninas que brincavam juntas: Sara tem 8 anos e traços loiros e Liléia tem 10 anos e traços mongóis. A primeira é filha do recém-chegado missionário alemão e a outra é uma índia caiuá.

De volta à Missão, o Mineiro conversou com a missionária Lorena Bridgeman, doutora em lingüística. Ela, americana, e John e Andrey Taylor, ingleses, traduziram o Novo Testamento para a língua caiuá. John faleceu recentemente, mas as duas lingüistas continuam a tradução do Velho Testamento. Elas são obreiras dos Tradutores da Bíblia Wycliffe, uma organização com a qual a Missão Evangélica Caiuá coopera.

O Mineiro não teve tempo suficiente para bater um papo com os 108 missionários que trabalham com a Missão e prestam serviço aos 18.620 índios por ela atendidos. Deu para conversar um pouco com dois médicos (Franklin Amorim Sayão e Julio Shikanai), com o casal Zéria e Reynaldo Iapechino (ex-obreiros da Missão), com o vice-diretor Benedito Troquez, com os missionários que trabalham nas aldeias mais distantes, com Saulo Camilo (diretor do Instituto Bíblico), com Cícero Joaquim Gripp (diretor da escola) e com algumas jovens que trabalham na escola e no escritório. No hospital, o Mineiro viu uma placa com o nome de Carlos René Egg, de saudosa memória, um servo de Deus que muito fez pela Missão Evangélica Caiuá, como secretário executivo e levantador de recursos. Pela consagração de todos ao Senhor, o Mineiro rendeu muitas graças a Deus.

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