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Reflexão — Valdir Steuernaguel

Eu quero falar sobre política... indignado!


O mar não está pra peixe!
É difícil escrever esta coluna para a Ultimato. Afinal, há um forte interesse em escrever acerca das “coisas importantes da vida”. Coisas do presente. Estas, no entanto, podem ser passageiras. E esta coluna não será lida “no dia seguinte”, correndo-se o risco de o assunto e a crise já serem outros.

Esta coluna, por exemplo, está sendo escrita numa espécie de ressaca: a ressaca da crise político-econômica que afetou todos nós. Eu, voltando de férias, neste início de ano, me pus a ler para ver se entendia algo dessa tal “crise do real”. O dólar, afinal, parece estar livre e nós presos na “ressaca do real”, sem saber ao certo o que vai acontecer amanhã. O dinheiro está curto e caro, o emprego está ralo, a liderança política é fraca e o Congresso parece um pandemônio.

Ontem pela manhã fui à igreja participar do culto dominical. A palavra “crise” parecia estar ausente e o assunto do sermão era outro. Mas algo dentro de mim pedia para ser ajudado a pensar e viver nessa crise. Uma leitura bíblica do nosso contexto. Uma palavra do Senhor para hoje. Para mim. Para o Brasil. Mas, quanto a isso, encontrei o silêncio.

Saindo da igreja, fui pegar o jornal do dia para tomar contato com as coisas que estavam acontecendo por aí e ler algumas das interpretações do nosso momento. O jornal falava dessas coisas de hoje, acerca das quais a igreja silenciava.

A tradição da ausência
Há uma parte de nós que não quer nem saber. Não quer nem ouvir falar da crise que vivemos. E falar dela na igreja, então, nem pensar. A vida parece já estar tão difícil que a gente quer que a igreja “traga um pouco de ânimo” para a nossa vida. E então a nossa vivência cristã se torna em mera experiência religiosa. Coisas da alma e do sentimento, que nos fazem sentir bem. “Pão e circo”, como diriam os antigos gregos.

Há, também, em muitas de nossas igrejas uma tradição da submissão. A igreja e os cristãos, nessa percepção, carecem de ser submissos às autoridades no exercício do poder porque elas são instituídas por Deus e são benignas quando permitem a nossa existência e o nosso culto. Cabe a nós, portanto, calados, fazer o nosso serviço.

Essa tradição da ausência, marcada por uma leitura da fé separada da realidade e por um sentimento de indiferença que é um sinal desse nosso tempo, acaba gerando uma grande pobreza de vida — inclusive de fé — e uma fraca contribuição na construção de uma sociedade justa e bonita.

Bebendo água fresca
É importante recuperar a especialidade da relação da fé cristã com o tempo em que se vive. Por um lado, somos afetados e refletimos a cultura da crise e da indiferença que se vive por todos os lados. Os cristãos, afinal, também perdem seus empregos, precisam pagar suas contas e mandar seus filhos à escola.

Mas a fé cristã também respira o ar da eternidade. Bebe água de uma outra fonte. Água da fonte da água viva. Despoluída. Transparente.

Enquanto se vive a tentação da adaptação ao tempo, é preciso resgatar a veia do protesto e da novidade que vem de Deus.

É interessante observar, no decorrer da história da igreja, que foi nos tempos de crise que, muitas vezes, a igreja se soube alimentada e cuidada por Deus. E é neste contexto que a sua contribuição de esperança cresce e pode se tornar visível na própria sociedade.

Vivendo entre os pólos: a criação e a eternidade
Viver no mero tempo cronológico é muito pobre. Sonhando com dias melhores parecemos ser levados pelo vento da crise, sempre novamente. O forte real de ontem parece ter-se tornado no fraco irreal de hoje.

Vivendo a fé cristã, “belisca-se” o tempo de outra forma. Ao viver no tempo de Deus, encontram-se as referências de Deus. De forma bem ampla, pode-se dizer que o jogo da vida se delineia com os olhos postos em dois pólos: a criação e a eternidade.

Afirmando a Deus como Criador, percebe-se que a qualidade e os valores de vida que Deus plantou na criação têm a sua própria marca. Deus quer para a sua criação um vislumbre daquilo que Ele é para si mesmo. É, pois, olhando no espelho da criação, que percebemos o que Deus deseja para toda a sua criação — seja para as pessoas, suas convivências e a própria sociedade; seja para a natureza, seus recursos e sua sobrevivência. Assim, o relato da criação de Deus, conforme o registro em Gênesis, é um paradigma para a vida atual em sociedade. Hoje, pois, é tempo de reler Gênesis.

Mas, ao mesmo tempo, a fé cristã se inspira no amanhã. Ela é escatológica. Ela se inspira hoje nesta eternidade, onde fluirá a justiça. O amanhã eterno é objeto da nossa esperança hoje: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2 Pe 3.13).

E assim vivemos: ora gemendo sob o peso do nosso tempo e buscando um jeito de pagar a conta, ora deixando-nos suprir pelo eterno Deus da criação e da esperança. É por esse recurso e essa possibilidade que é tão bom ser cristão. Nunca presos e limitados ao nosso tempo, a seus diagnósticos e recursos.

É esse ar de eternidade que se transforma no combustível do nosso testemunho: pessoal e coletivo. Assim, em meio à crise do momento, a igreja vive e fala da fonte da esperança, de um preciso sistema de valores e de um jeito específico de viver.

Olhando os postes de iluminação
Um dia desses, durante as férias, caminhando à noite na praia, parei diante dos holofotes que iluminavam um pedaço do mar e do costão. Uma visão fantástica!

Na caminhada da vida, Deus coloca alguns holofotes que descortinam o cenário, indicam o caminho e mostram possibilidades. Hoje, quando o caminho parece tão escuro e as possibilidades tão remotamente palpáveis, gostaria de apontar para três holofotes fundamentais:

a) Sendo encontrados por Deus na viração do dia

O relato da criação fala de um Deus que vai ao encontro da sua criação na “viração do dia” (Gn 3.8). Uma imagem fantástica de amor e proximidade. Deus deseja ter comunhão com as pessoas por Ele criadas. É desse encontro que nasce a seiva para a vida e a relação humana, em cujo berço se constrói a sociedade. Homem e mulher crescem no relacionamento mútuo e no gerenciamento da natureza, à medida que caminham com Deus na viração do dia. E vice-versa.

É preciso afirmar hoje a possibilidade e a riqueza de um encontro com Deus, sem o qual se instala um outro império: a solidão e o “nhenhenhem” do tipo “a mulher que me deste” (Gn 3.12).

A adoração a Deus, em outras palavras, é um fator essencial para a qualidade de vida que todos almejam ter. Sem ela, o que resta é o silêncio da ausência, da transcendência, da esperança, do amigo e do próprio ar. Este é o holofote da revelação que aponta para o outro, para a qualidade de vida e a própria eternidade.

b) A construção comum da sociedade

Já se disse muitas e muitas vezes que o homem e a mulher são seres sociais, criados para viverem juntos e em relação uns com os outros.

A construção da sociedade é mero fruto da convivência das pessoas entre si. Mas, a forma como essa sociedade é construída tem relação com a forma como se entende a própria vida e o outro. Portanto, a construção das sociedades nunca é neutra.

A fé cristã diz que a construção da sociedade é um ato de santidade à medida que a vida é sacra e o outro é digno. À medida que tudo e todos vêm de Deus e pertencem a Deus.

É a partir dessa realidade que a fé cristã afirma o exercício da justiça, em que o outro é levado em conta, bem como a prática de uma cidadania na qual se quer para o outro aquilo que se quer para si e para os seus. A cidadania da inclusividade e a prática da justiça são, portanto, os nossos holofotes nesta caminhada da convivência humana, sob o critério e o sorisso de Deus.

c) O meio ambiente também é sagrado

Geralmente entendemos a natureza como um recurso para a nossa sobrevivência, o que não deixa de ser verdade. Mas, sabemos também que, hoje, se se quiser preservar a vida, é preciso preservar a natureza.

Afinal, todo o meio ambiente é criação de Deus. É parte do enorme palco que encena a criação de Deus.

A fé cristã afirma a natureza criada do meio ambiente, e dessa convicção extrai o holofote de uma ecologia santa que reconhece na criação a mão de Deus; recurso essencial para a sobrevivência de toda a raça humana.

Escrever este artigo quer ser uma conversa, na qual lembro e sou lembrado de algumas coisas básicas da vida: seja o gerenciamento do cotidiano, seja a invocação da esperança eterna. Significa afirmar crenças e valores que me ajudam a afinar um hino de adoração a Deus, procurar ficar em pé hoje, protestar contra essa indiferente e irresponsável prática político-econômica das nossas autoridades e afirmar que há holofotes que podem e devem iluminar o caminho da vida e da própria prática política.

Intercedendo de olhos abertos
Um dos enunciados enigmáticos da fé cristã é a interrelação da justiça com a compaixão. Ou seja, o fato de Deus ser justiça e amor em complementariedade. A justiça expressa um compromisso radical com a verdade e com o outro, especialmente o oprimido e a vítima. O amor abraça o pecador e inclui o separado; e, na conversa entre a justiça e o amor Deus, não se torna nem rígido nem barato, mas sorri com integridade e abraça com firmeza. E é assim que ele quer ver a igreja andando.

Nesse contexto, portanto, devemos buscar a justiça e praticar o amor. Isso significa que queremos uma prática política marcada pela verdade, um gerenciamento da coisa pública em função do pequeno, um exercício de autoridade marcado pela transparência.

Ao mesmo tempo, devemos buscar o nosso espaço de serviço, procurar o bem-estar do outro antes que do nosso e cultivar uma relação de misericórdia firme para com os que percebemos de costas voltadas para a justiça e o para o pequeno.

O lugar onde a justiça e o amor se encontram é a oração. Lá podemos expressar a nossa indignação quanto ao presente estado das coisas. Lá podemos chorar pela injustiça, nossa e dos outros. Lá vemos nossa raiva no espelho. Mas é também lá onde balbuciamos um pedido de perdão, a busca de uma atitude de serviço e intercessão por nossas autoridades.

A oração, afinal, é até mesmo esse espaço do desnudamento da nossa incoerência e da afirmação da suficiência de Deus. É o lugar da nossa ira quixotesca e o reconhecimento da misericórdia de Deus. É na oração que lembramos a Deus da sua justiça e nos jogamos nos braços dele. É lá que clamamos por emprego para o desempregado e saúde para o enfermo. Família para o solitário e casa para o abandonado. Leite para o faminto e cobertor para o frio. A oração é, pois, o lugar do cultivo da esperança. Esperança em Deus, em meio à desesperança humana. Trampolim para a vida marcada pelo serviço, com gosto de eternidade.

O povo de Deus, portanto, tem a virtude e a possibilidade de orar de olhos abertos. Vendo o que acontece, procurando viver a justiça e o amor, ocupando espaços de serviço, proclamando a justiça e intercedendo por “todas as pessoas e todas as coisas”. Essa é a nossa prática política.

Valdir Steuernagel é pastor luterano, diretor do Centro de Pastoral e Missão e presidente da diretoria da Visão Mundial Internacional.

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