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Opinião

Sentimentos e impressões sobre Lausanne 3

Lausanne 3 se encerrou há quase um mês, mas o assunto em torno das mesas continua o mesmo. A pergunta que mais ouvi nestes dias foi: "O que achou de Lausanne 3?". Por isso, creio que não posso deixar Cape Town sem fazer esta reflexão final, mesmo que a considere ainda em construção. Assim, meus sentimentos e impressões sobre esta conferência tão importante para a vida e a missão da igreja na década que se inicia são os seguintes:

1. Lausanne 3 não foi uma conferência de grandes preleções e profundos conceitos.
Pessoalmente, vim para Cape Town 2010 na expectativa de encontrar reflexões profundas sobre temáticas contemporâneas e desafiadoras para a missão da igreja como: meio ambiente, pós-modernidade, movimento neo-pentecostal, homossexualidade e crise econômica mundial. No entanto, a conferência não apenas não abordou estas temáticas como fez uma opção metodológica que incentivou grandemente a superficialidade nos assuntos tratados.

Deixe-me explicar o que quero dizer por opção metodológica. Por uma lado, creio ter sido interessante a proposta de fazer uso de três ou mais preletores, testemunhos e apresentações multimídias para apresentar diferentes perspectivas acerca de um mesmo tema. No entanto, esta mesma proposta não contribuiu efetivamente para o aprofundamento dos temas tratados e sub-utilizou pessoas como Os Guinnes, John Piper, Tim Keller, Chris White, René Padilha e Samuel Escobar. Consequentemente, Lausanne 3 não foi uma conferência de preleções arrebatadoras.

2. Lausanne 3 foi uma conferência em que latino americanos (e brasileiros) ficaram à margem.
Em Cape Town 2010 foi nítida a não contribuição latino-americana na construção da agenda e do conteúdo da conferência. Ficou evidente o equilíbrio intencional entre preletores Asiáticos, Africanos, Europeus e Norte-Americanos. No entanto, os latino-americanos não foram inseridos nesta proposta de equilíbrio intencional, ficando na periferia da conferência. Creio que isso aconteceu, em parte pelo preconceito e descaso daqueles que organizaram a conferência. Por outro lado, ficou evidente a falta de articulação e mobilização por parte das igrejas latino-americanas.

3. Lausanne 3 foi uma conferência na qual a igreja global chorou pela igreja pobre e perseguida.
Preciso reconhecer que Cape Town 2010, em alguns momentos, me surpreendeu grandemente. O testemunho daqueles que são desprovidos dos recursos que temos no Brasil e que estão inseridos num contexto de grande risco e perseguição me sensibilizou, para não dizer explicitamente: me fez chorar. O que homens e mulheres, como discípulos de Jesus, estão fazendo sem recursos e liberdade deve nos mover a repensar nossa espiritualidade “light” e tão pouco engajada na transformação de vidas e da sociedade brasileira.

4. Lausanne 3 foi uma conferência onde a Missão Integral foi celebrada através dos testemunhos.
Cape Town 2010 me surpreendeu foi que, apesar de não ter encontrado discursos profundos e bem elaborados sobre a missão integral, ouvi testemunhos de muita gente, simples e anônima, mas engajada na missão integral da igreja, anunciando a salvação somente em Jesus e promovendo atos de amor e compaixão pelos menos favorecidos em suas culturas. Logo, a teologia da missão integral da igreja não foi refletida e elaborada, mas com certeza foi anunciada e celebrada.

Assim, deixo Cape Town 2010 com o sentimento de que precisamos fazer melhor uso dos recursos e da liberdade que desfrutamos em nosso país. Além disso, precisamos abrir nossos olhos, ganhar consciência e nos mover na direção daqueles irmãos e irmãs em Cristo que sofrem pela fé cristã em muitos lugares no mundo. Por último, precisamos orar para que Deus sopre sobre a igreja brasileira um espírito de maior unidade, cooperação e mobilização.


Ricardo Agreste é pastor presbiteriano.

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