Apoie com um cafezinho
Ol? visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Colunas — --

O passo que nunca dei

Por Bráulia Ribeiro

A experiência de vida sempre me ensinou que, apesar das pressões externas, a escolha do pecado vem de dentro, e não de fora

Durante certo período em minha jornada missionária, estive perigosamente perto da relativização teológica. Não para me desculpar, mas a título de explicação, reconheço que vivi entre o sofrimento do indígena e do pobre amazônico por muitos anos, por tempo demais, talvez. A dor do mundo me parecia inescapável, me espreitava a cada esquina, atingindo minha alma, minha família e nosso grupo de missionários dentro e fora de casa. Num mesmo dia, nosso carro servia de funerária e transporte de alimentos, tudo parte de um continuum em que a mera sobrevivência era a única forma de vida.

Meus escritos acompanhavam as categorias propostas pelo pensamento pós-moderno. Eu escrevia sobre justiça social, contra os preconceitos de raça e classes, meio ambiente, injustiça contra as mulheres, ou percepções homofóbicas do evangelho. Quando revisito esses textos hoje, vejo que, apesar de pegar emprestado o léxico progressista, eu ainda estava do lado de fora. Por exemplo, reli um texto em que eu falo da falência ambiental, da nossa incompetência em deixar um legado de mordomia do meio ambiente. No entanto, nesse e em outros escritos sobre o tema, não cedo ao niilismo do ambientalismo como um fim em si mesmo. Preocupo-me com os povos da floresta, não somente com a floresta em si.

Na questão da luta por igualdade de gênero, mesmo como mulher que lutou por autonomia intelectual e profissional, não cedi à tentação de reduzir o problema à crítica impiedosa à masculinidade, porque a origem das supostas injustiças do “patriarcalismo” não está no homem nem na natureza masculina em si, mas no comportamento abusivo de alguns e, talvez, na compreensão teológico-cultural que nutre em determinados homens a falsa noção da superioridade de gênero. Nada de “estruturas” e “sistemas”, porque a experiência de vida sempre me ensinou que as pessoas fazem escolhas e, apesar das pressões externas, a escolha do pecado, seja ele a misoginia, a avareza, o desrespeito ao mundo que o Senhor criou, vem de dentro, e não de fora.

Não escrevo aqui como gabolice. Como missionária, entendo que o trabalho de discipular nações não acontece sem que indivíduos sejam pessoalmente tocados pela graça. A nação são pessoas, as estruturas de poder são pessoas, a opressão sistêmica, se existe, é feita por pessoas. A explicação não é simples, e se você é um dos que gostam da embalagem ideológica para explicar o mal, pensará que é por mera incapacidade intelectual que não embarquei no “bonde” da teologia progressista. Pode ser. Não sou um gênio. Sofro de burrices ocasionais e cegueiras várias.

Alguns pensam que o meu coração endureceu, porque vivo no primeiro mundo há dez anos e teria me esquecido do que é viver no meio da injustiça estrutural que outrora me cercava. Quem sabe minha capacidade teológica para o intellectus amoris não teria ficado presa em algum rincão da Amazônia e deixado de me acompanhar nessa nova jornada de vida? Até poderia ser, se a dor da humanidade não fosse de fato onipresente: garanto a você, leitor, que há sofrimento suficiente ao meu redor para manter cheio o meu copo de misericórdia.

O que me aconteceu, então? Por que nunca dei o passo para abraçar a teologia que seria a única opção racional para os cristãos que professam o amor? Por que me mantive do lado de fora, perseverando em soluções individuais para problemas supostamente coletivos, insistindo que a fé não me permite empacotar a esperança da humanidade numa solução política, não esperando que a utopia seja concebida pelo voto no “partido certo”? Não sei. Não sou brilhante. Tentando compreender a vida, ainda engatinho; contudo, o passo que nunca dei na direção das certezas absolutas talvez tenha me garantido a graça do eterno não saber.

Bráulia Ribeiro trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico Sul por seis anos. É MDiv pela Universidade de Yale, Estados Unidos, e doutoranda em história e teologia política na Universidade de St. Andrews, Escócia. É autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. www.braulia.com.br.

Leia mais:
» A proposta política da cruz

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Ainda não há comentários sobre este texto. Seja o primeiro a comentar!
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.