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Seções — Literatura e cultura

A espiritualidade do stárietz Zósima em Os irmãos Karamázov

Por Gladir Cabral

É preciso escolher bem os livros que vamos lendo ao longo da vida. O tempo é curto e a obra é vasta, como diria Shakespeare. Não dá para ler tudo o que existe ou tudo o que é interessante, mas aquilo que é possível. Uma das grandes obras que merecem ser consideradas é o romance Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, que trata do intenso dilema vivido por uma família marcada pela paixão e pelo descontrole.

Quero aqui destacar uma das personagens importantes da história: o padre Zósima, mentor espiritual do jovem Aliocha. Sua experiência e ensino sobre a fé cristã preenchem uma das páginas mais interessantes e ricas da literatura europeia. O padre Zósima encarna a figura do stárietz, um tipo de monge venerável e sábio que havia na tradição da Igreja Ortodoxa Russa. Sua sabedoria se derrama em vários capítulos em que, em seus momentos finais, ele relata sua vida e deixa seus ensinamentos aos discípulos, entre eles o amado Aliocha Karamázov.

Há muito que dizer sobre o stárietz Zósima, sua sabedoria, seu silêncio, seu autocontrole, sua humildade, sua simplicidade e alegria, mas quero primeiramente destacar sua compreensão e solidariedade para com o outro. Essa solidariedade nasce da consciência de que somos todos pecadores. Como ele mesmo aconselha, “não tenham medo dos pecados dos homens. Ame o homem também em seu pecado” (p. 318). Dessa maneira, o nível de tolerância e aceitação do outro é muito grande no comportamento, no olhar, nas palavras e na receptividade do padre Zósima, pois “cada qual é culpado diante de todos e por todos” (p. 295).

Como parte da experiência de solidariedade humana, Zósima combatia o individualismo, fonte de muitos males, e prezava a experiência de vida em comunidade. Em sua despedida, ele fala aos irmãos: “Para contar os dias, basta um dia ao homem para conhecer toda a felicidade. Meus bem-amados, de que serve discutirmos, vangloriar-nos, guardar rancor uns contra os outros? Vamos antes passear, recrear-nos no jardim, beijar-nos-emos, abençoaremos a vida” (p. 285).

Além da solidariedade humana, é impressionante em Zósima a solidariedade com as plantas e animais, com o mundo natural. Em seu diálogo quase franciscano com os pássaros, ele pede: “Pássaros do bom Deus, alegres pássaros, perdoai-me, porque pequei também contra vós” (p. 286). Em seus momentos finais, ele roga aos seus ouvintes: “Amai os animais, porque Deus lhes deu o pensamento e uma alegria tranquila. Não a perturbeis, não os atormenteis tirando-lhes essa alegria, não vos oponhais ao plano de Deus. Homem, não te ergas acima dos animais; eles não têm pecado, ao passo que com tua grandeza manchas a terra com tua aparição, deixando após ti um rasto de podridão [...]” (p. 318).

Outro aspecto impressionante da mensagem de Zósima é seu amor às Escrituras e sua consciência de que ela fosse ensinada ao povo. Ele achava que essa tarefa era atributo dos padres locais, que deveriam ensinar ao povo as histórias das Sagradas Escrituras – “essas narrativas singelas comoverão o coração do povo e isto apenas uma hora por semana” (p. 290). Ele afirma também que “sem a palavra de Deus, o povo perecerá, porque sua alma está ávida dessa palavra” (p. 291).

Imagem: Retrato de Fiódor Dostoiévski. por Vasily Perov, 1872.

Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o seu blog pessoal.

Leia mais: 
» De Dostoiévski a Isaías, dos hinos tradicionais ao discurso moralista: as influências no meio evangélico

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