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Colunas — Ética

A desigualdade no pensamento social dos primeiros autores cristãos

Por Paul Freston

Voltar aos autores cristãos antigos nos ajuda a recalibrar as nossas bússolas éticas e a evitar coar moscas e engolir camelos

Num contexto cristão que em boa parte se deixou encantar pelo espírito da época, é bom voltar aos autores cristãos dos primeiros séculos, sobretudo em questões controversas como o tema desta edição de Ultimato: a desigualdade. Em artigos anteriores, citei Gregório Nazianzeno, do quarto século, para quem a desigualdade contraria “a primeira e suprema lei de Deus”:

Imitemos a primeira e suprema lei de Deus, [cujas] dádivas não estão sob o domínio de ninguém [...], mas sustentam a dignidade da natureza humana [...]. [Mas os seres humanos] fecham seus corações [...], e a nossa raça ficou dividida, e a avareza derrotou a dignidade da nossa natureza, usando até da lei para estender o seu domínio. Você [cristão], no entanto, precisa enxergar a unidade e igualdade originais, e não a divisão posterior.

Citei também Pelágio, do quinto século:

Possuímos de forma injusta e desigual somente as coisas sujeitas ao nosso próprio governo. [Mas,] se a bondade de Deus é distribuída de maneira igual, tanto em coisas materiais como espirituais, fica claro que a desigualdade se deve à injustiça humana, e não ao favor divino.

Ou seja, ao contrário dos cristãos que em muitas épocas históricas defenderam a desigualdade como a vontade divina, esses autores cristãos antigos já afirmavam o contrário: a desigualdade se deve à injustiça humana e não ao favor divino! No que depende de Deus (como evidenciam as dádivas espirituais e materiais comuns da criação), somos iguais.

Recentemente, me caiu nas mãos uma coletânea dos sermões de Basílio, grande teólogo e líder cristão da segunda metade do quarto século, sobre as questões sociais. O fio que perpassa todos os sermões é a palavra grega koinos, aquilo que é “partilhado” ou “comum”, de onde vem a palavra koinonia (comunhão ou comunidade). O mundo foi criado para benefício de todos, mas

Uma pessoa só goza daquilo que Deus oferece para o bem-estar de todos em comum – é isso que os ricos fazem. Eles se apropriam dos bens comuns sem dar chance aos outros, e aí reivindicam que são deles por direito de posse [...]. Quem são os ladrões? Aqueles que se apropriam daquilo que, por direito, pertence a todos”. [Repare que o autor fala do que “pertence a todos”, não do que “pertence ao outro”.]

Basílio afirma que Deus chama toda pessoa a se tornar um koinonikos anthropos, um “ser humano social”.

Até os animais usam em comum as plantas que crescem da terra [...]. Todas as criaturas permitem, umas às outras, satisfazer a sua necessidade de alimento. [Somente nós, seres humanos,] acumulamos o que é comum e retemos para nós mesmos o que pertence a muitos outros.

O ser humano é uma anomalia no mundo criado por Deus!

Qual é a solução para isso? Basílio lança mão de um incidente bíblico:

Talvez você esteja perturbado pela ganância, como José era perturbado pela esposa de Potifar. A cobiça se agarra nas suas vestes, um pensamento persistente que o leva a negligenciar o amor aos outros. Você deve, então, permanecer fiel ao Senhor, como José o foi ao seu senhor Potifar.

Interessante a menção à esposa de Potifar como símbolo não da tentação sexual, mas da estratégia da ganância nas nossas vidas.

O autor volta ainda mais longe na narrativa bíblica:

Desfaça o pecado primal pelo compartilhar do alimento. Assim como Adão transmitiu o pecado comendo de forma errada, nós também limpamos o alimento traiçoeiro quando satisfazemos a necessidade e a fome dos nossos irmãos e irmãs.

O pecado de Adão, segundo o teólogo, era eminentemente social: “comer de forma errada”, não compartilhada.

Ler os autores cristãos antigos sobre a dimensão social do evangelho é uma experiência desconfortável. O cristianismo deles é muito mais exigente do que o nosso cristianismo moderno. Contudo, é melhor nos reconhecermos como maus cristãos do que fabricar uma fé mais fácil para nos confortar, como fazem os gurus (evangélicos e católicos) do cristianismo ora dominante.

Basílio até se compadece de nós:

Não entregue tudo à autoindulgência; guarde algo para a alma também. Considere que você tem duas filhas: esta vida, e a vida por vir nos céus. Se você não quiser dar tudo à causa melhor, pelo menos reparta suas posses igualmente [entre as “duas filhas”]. Não enriqueça demais esta vida, deixando a outra em farrapos.

Tudo bem reconhecer que somos maus cristãos, capazes apenas de “guardar algo para a alma também”, como afirma Basílio com ironia. É melhor do que inventar justificativas ideológicas para a nossa falta de fé.

Ele inclusive condescende a elaborar uma “teologia patrística da prosperidade”: “Empreste a Deus, que sempre garante pessoalmente empenhar-se pela causa dos oprimidos; com Deus é questão de honra devolver generosamente”.

Basílio acrescenta outro aspecto surpreendentemente moderno:

A multidão dos nossos pecados alterou o curso do ano e mudou as estações, produzindo essas temperaturas anormais. O que causou essa mudança? Investiguemos essa questão [...]; como seres racionais, vamos raciocinar [...]. A razão é óbvia: não dividimos com outros aquilo que recebemos [...]. Nos tornamos não sociáveis [akoinonetoi] para com os pobres [...]. Nossos celeiros gemem de fartura, mas não temos misericórdia daqueles que gemem de necessidade. Os campos se tornaram áridos porque o amor secou [...]. Coisas más acontecem ao povo inteiro por causa do comportamento de alguns poucos.

Hoje, é comum ouvir líderes cristãos afirmando que desgraças acontecem por causa do pecado de alguns; mas o tipo de pecado que apontam geralmente não é o pecado social dos poderosos. O que diria Basílio da mudança climática muito mais profunda, global e potencialmente irreversível que enfrentamos hoje?

Um contemporâneo dele, o famoso pregador João Crisóstomo, ao expor o capítulo 15 do Evangelho de João, reagiu a alguns murmúrios da congregação diante do rumo do sermão: “Talvez alguns de vocês me digam: ‘Todos os dias o seu discurso é sobre a cobiça’. Mas todos os dias Deus é blasfemado por causa de nós, por causa das nossas espoliações, da nossa ganância”. Crisóstomo poderia ter acrescentado: talvez não devamos pregar todos os dias sobre o mesmo assunto (afinal, Cristo diz que o escriba instruído no reino dos céus tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas [Mt 13.52]); mas, se formos pregar sempre contra a mesma coisa, é melhor que seja algo que, de fato, esteja em quase todas as páginas da Bíblia, como a cobiça, a ganância, o trato (e o voto) não sociável para com as pessoas necessitadas, o abuso do que Deus criou para ser comum a todos, a injustiça que cria a desigualdade.

Vemos, então, que a volta aos autores cristãos antigos nos ajuda a recalibrar as nossas bússolas éticas e a evitarmos, nas palavras de Jesus (Mt 23.24), coar moscas e engolir camelos.

Imagem: Basílio, o Grande

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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