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Colunas — História

De Niceia ao Vaticano II: breve panorama dos concílios ecumênicos

Alderi Souza de Matos
 
Ao longo dos séculos, duas tendências têm se manifestado na condução dos negócios da igreja cristã: uma centralizadora, autoritária e a outra participativa, democrática. O melhor exemplo desta última são os concílios ou assembleias de líderes reunidos como representantes dos fiéis para tratar de questões teológicas e administrativas. Já no período apostólico ocorreu aquela que é considerada a precursora dessas assembleias -- o “Concílio de Jerusalém”, descrito em Atos dos Apóstolos, capítulo 15. Com sabedoria e equilíbrio, os apóstolos e presbíteros deliberaram sobre a espinhosa questão do ingresso dos gentios em uma igreja majoritariamente judaica. Mais tarde, tornaram-se frequentes os sínodos regionais com o propósito de tratar das questões eclesiásticas.
 
A idade de ouro das grandes assembleias cristãs foram os séculos quarto e quinto, quando se reuniram os primeiros concílios ecumênicos: Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Esses encontros são tidos como ecumênicos ou universais, não no sentido de que cada região da cristandade estivesse neles representada, mas pelo fato de que suas decisões interessavam a toda a igreja e acabaram sendo aceitas pela imensa maioria dos cristãos. Esses grandes concílios antigos são tão importantes porque articularam os pontos centrais da fé cristã: o entendimento do ser de Deus (Trindade) e da pessoa de Cristo, com suas naturezas divina e humana. Outros importantes concílios do período antigo foram o 2º e o 3º de Constantinopla (553 e 680–681) e o 2º de Niceia (787). A Igreja Ortodoxa Oriental reconhece como verdadeiramente ecumênicos somente esses sete concílios iniciais.
Na Idade Média houve uma extensa série de concílios especificamente católicos romanos, em número de onze, começando com o 4º de Constantinopla (869–70), os quatro de Latrão (1123, 1139, 1179, 1215), os dois de Lião (1245, 1274) e o de Vienne (1311–1312), voltados tanto para matérias práticas e dogmáticas quanto para a condenação de diferentes heresias. De particular interesse são os concílios do início do século 15, numa época de forte crise do papado. Eles fizeram parte de um movimento conhecido como “conciliarismo”, segundo o qual a autoridade suprema em matéria de fé e de moral estava na igreja como um todo e devia ser exercida por meio de concílios gerais. Esses concílios reformadores foram os de Pisa (1409), Constança (1414–1418), Basileia (1431–1449) e Ferrara–Florença (1438–1445), ao fim dos quais se verificou a reafirmação da supremacia papal.
 
Ao iniciar-se o período moderno, houve um concílio de menor expressão, o 5° de Latrão -- um bairro de Roma (1512–1517), e então o importantíssimo Concílio de Trento (1545–1563), liderado pelos papas Paulo III, Júlio III e Pio IV, que foi a principal expressão da Contra-Reforma. Reagindo fortemente ao movimento protestante, esse conclave definiu com maior precisão a doutrina católica a respeito de temas como Escritura, Tradição, pecado original, justificação, graça, sacramentos, missa, culto de imagens, purgatório, indulgências etc. Desde então, o catolicismo oficial e normativo tem sido conhecido como “tridentino”.
 
As diferentes confissões protestantes, que se organizaram de modo autônomo em cada nação, também passaram a realizar suas assembleias de líderes, especialmente com propósitos de formulação teológica. No âmbito da tradição reformada ou calvinista, ficaram célebres o Sínodo de Dort (1618–1619), nos Países Baixos, e a Assembleia de Westminster (1643–1649), em Londres. O primeiro elaborou uma série de “cânones” sobre a doutrina da predestinação e o segundo, uma influente confissão de fé e dois catecismos, além de diversos documentos litúrgicos e administrativos.
 
Na Igreja Católica Romana, após o Concílio de Trento houve um surpreendente hiato de mais de 300 anos no qual não se reuniu nenhum conclave geral, até que o papa Pio IX convocou o Concílio Vaticano I (1869–1870), que ficou célebre por sua proclamação do dogma da infalibilidade papal. Ironicamente, essa afirmação de que o pontífice romano, quando fala “ex cathedra”, ou seja, ao definir uma doutrina de fé ou moral a ser aceita pela igreja universal, é infalível, ocorreu no mesmo momento em que o papa era forçado a renunciar ao seu antigo poder temporal, com a unificação da Itália.
 
Quase um século depois, ocorreu aquele que é considerado um dos concílios mais notáveis de toda a longa história da igreja -- o Vaticano II --, há exatos 50 anos. Essa magna assembleia, composta de aproximadamente 2.300 cardeais, arcebispos e bispos, constituiu-se de quatro sessões realizadas entre 11 de outubro de 1962 e 8 de dezembro de 1965, sob a liderança dos papas João XXIII e Paulo VI. Contrastando com o conclave anterior, intensamente conservador e avesso à modernidade, este último procurou ao mesmo tempo preservar as tradições católicas e fazer as adaptações necessárias ao mundo moderno, assinalando uma nova era para a Igreja Romana.
 
O concílio produziu dezesseis documentos oficiais: quatro “Constituições”, nove “Decretos” e três “Declarações”. Ao lado de reafirmar a autoridade papal, insistiu na necessidade de que os bispos atuem de modo colegiado e os leigos tenham maior envolvimento com a vida da igreja. Representou uma abertura inédita para os não-católicos, especialmente a Igreja Ortodoxa Oriental, e estimulou uma profusão de grupos voltados para interesses especiais, como ecumênicos, carismáticos e ativistas sociais. O historiador protestante Mark Noll observa que desde então tem havido um forte debate sobre o que esse concílio realmente pretendeu e acredita que só o futuro irá mostrar seus verdadeiros efeitos na trajetória da igreja.
 
• Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil. asdm@mackenzie.com.br

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