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Henry Martyn: o turista que passou quinze dias em Salvador de 1805

Logo no início do século 19, precisamente em novembro de 1805, dois anos antes da chegada da corte da rainha “louca”, Dona Maria I, e do príncipe regente, Dom João, a Salvador, e 27 anos antes da passagem do naturalista inglês Charles Darwin pela Bahia, um navio de bandeira inglesa que estava de viagem para a Índia pela mesma rota de Pedro Álvares Cabral aportou em Salvador por quinze dias. Um dos passageiros, de 24 anos, formado em matemática em Cambridge e ordenado ministro anglicano três anos antes, desceu do navio e foi conhecer a terra ensolarada que estava à sua frente. Chamava-se Henry Martyn e, à semelhança dos franciscanos que vieram com Cabral, ia para a Índia na qualidade de missionário.

Em terra, o jovem se encontrou com pessoas importantes e alguns sacerdotes católicos, com os quais conversou em francês e latim. Certo dia, foi parar na casa de um senhor de escravos muito educado, cujo filho, Antonio José, havia estudado numa universidade portuguesa. Por terem ambos formação superior, Martyn na Inglaterra, e Antônio em Portugal, os dois tinham muita coisa em comum e fizeram vários passeios juntos. A essa altura, Salvador, a antiga capital do Brasil, tinha 45 mil habitantes e muitas igrejas já haviam sido construídas. A mais antiga seria a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, erguida em 1636. A mais luxuosa só poderia ser a Igreja e Convento de São Francisco, cujo interior é todo revestido de talha dourada, razão pela qual é até hoje conhecida como a “igreja de ouro”.

Naquele pequeno espaço, hoje denominado Centro Histórico, o jovem missionário viu muitas cruzes e muita gente fazendo o sinal da cruz sobre o peito. Defronte ao colégio dos jesuítas, onde estava um dos mais antigos pelourinhos do Brasil (instrumento onde os escravos e os condenados eram submetidos à vergonha pública e ao açoite), havia uma grande cruz fincada no chão (o lugar hoje se chama Pelourinho e a dita cruz ainda está lá).

Desde que havia deixado a Inglaterra, quatro meses antes (17 de julho de 1805), Henry Martyn anotava num diário todas as suas impressões de viagem. No dia 12 de novembro, ele escreveu algo que pode ser interpretado como um dos mais bem escritos e substanciosos desafios missionários: “Que feliz missionário será enviado para proclamar o nome de Jesus a estas regiões ocidentais? Quando será que esta linda terra se libertará da idolatria e do cristianismo espúrio? Cruzes existem em abundância, mas quando a doutrina da cruz será pregada?”.

Naturalmente, o registro de Martyn é uma crítica ao cristianismo até então existente no Brasil. A cruz, o mais apropriado e conhecido símbolo cristão, estava aqui, nas igrejas, nos hospitais, nas escolas, nos morros, nas casas, nas vestimentas clericais, no peito, nos brincos e até na constelação do Cruzeiro do Sul. Contudo, a cruz sem a doutrina da cruz apenas cristianiza -- não evangeliza. Espiritualidade nominal e apenas aparente não resolve nada. Protestantes e católicos reconhecem esse fato e nos últimos anos não estão evangelizando unicamente os não-cristãos, mas também os próprios cristãos. Referindo-se a esse esforço evangelístico, os protestantes usam mais a expressão re-evangelização, e os católicos, nova evangelização, -- o que dá no mesmo. Nesse sentido, Henry Martyn foi um corajoso pioneiro. Suas palavras têm muito mais valor quando nos lembramos de seu patrício, contemporâneo e colega de ministério na Índia, William Carey (1761-1834), conhecido como “o pai das missões modernas”, por ter escrito, em 1792, treze anos antes da passagem de Martyn pela Bahia, o livro “Investigação sobre a Obrigação dos Cristãos de Empregar Meios para a Conversão dos Pagãos”. Enquanto um falava em evangelizar os pagãos, outro falava em evangelizar os cristãos. Curiosamente, Martyn não foi enviado oficialmente à Índia como missionário entre os nativos, mas como capelão da Companhia da Índia Oriental, embora tivesse dado uma grande contribuição à evangelização dos indianos.

Depois de levantar âncoras da Baía de Todos os Santos, o navio em que Martyn estava gastou mais seis meses para chegar a Calcutá, ao nordeste da Índia (21 de abril de 1806). Se havia idolatria na Bahia, na Índia, a terra de milhares de deuses, a coisa era incomparavelmente pior. Ao ver homens e mulheres se prostrarem diante de uma imagem escabrosa, o expansivo Martyn anotou no celebre diário: “Eu tremi, como se estivesse de pé nas redondezas do inferno”. Além de ministrar para soldados e residentes ingleses em Calcutá, Dinapore e Cawmpore, por quatro anos e meio, Martyn pregava fluentemente no dialeto hindustani para os nativos. Sua pregação era tão atraente que ele costumava ter 800 pessoas em seus auditórios. Por causa de sua extraordinária capacidade linguística, em menos de um ano o jovem capelão traduziu para o hindustani (fevereiro de 1807) parte do “Livro de Oração Comum”, dos anglicanos, e o “Comentário sobre as Parábolas”. No ano seguinte, completou a versão do Novo Testamento (março de 1808). Pouco depois, apesar de doente, Martyn fez uma revisão da versão persa do Novo Testamento (fevereiro de 1812). Seu último trabalho foi a tradução dos Salmos para o persa. O agravamento de seu estado de saúde impediu que Martyn entregasse pessoalmente ao rei da Pérsia (hoje Irã) um exemplar do Novo Testamento em sua língua, o que foi feito por Sir Gore Onseley, o ministro britânico. Embora não desejasse voltar à pátria por causa de seu trabalho, Martyn foi obrigado a mudar de ideia para tentar se curar de uma tuberculose. Porém, não conseguiu chegar até a Inglaterra. Depois de viajar cerca de 2.400 quilômetros a cavalo, da Pérsia à Turquia, o rapaz de 31 anos morreu em Tocat, na Turquia Asiática, no meio de desconhecidos (16 de outubro de 1812). Em 1823, onze anos depois, um inglês residente em Bagdá erigiu um monumento sobre o túmulo de Martyn com os seguintes dizeres: “Ao rev. Henry Martyn, um pastor e missionário inglês, servo piedoso, versado e fiel, que, voltando à sua terra natal, o Senhor o chamou para sua alegria eterna”.

Porque a moça com a qual desejava casar (Lydia Grenfield) era uma inglesinha indecisa que não lhe dizia sim nem não, Henry Martyn viveu e morreu solteiro.

Meio século depois do desafio de Martyn, missionários evangélicos e americanos começaram a chegar ao Brasil, juntando-se aos episcopais e luteranos que já estavam aqui: Robert Kalley, em 1855; A. G. Simonton, em 1859; Junius Newman, em 1868; e a dupla William Bagby e Zacarias Taylor, em 1882. Esses missionários organizaram no Brasil, respectivamente, as quatro denominações históricas mais conhecidas: congregacional, presbiteriana, metodista e batista.

Os que chegaram mais perto do clamor do anglicano Henry Martyn foram os batistas: depois de permanecerem algum tempo na colônia americana de Santa Bárbara e em Campinas, São Paulo, para aprender a língua, Bagby e Taylor começaram a orar pedindo a direção de Deus quanto à região onde deveriam iniciar o trabalho missionário. Passando por Barbacena, em Minas Gerais, eles puseram o mapa do Brasil e os joelhos no chão do quarto de hotel onde se hospedavam e oraram ao Senhor. Ao se levantarem, estavam decididos a se fixarem em Salvador, a maior cidade brasileira na época, com 250 mil habitantes, e onde havia uma igreja para cada dia do ano. Se não tivesse morrido, Martyn seria então um velho de 101 anos!

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