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Colunas — Evangelização

A paixão do Messias

Valdeci da Silva Santos

No dia 19 de março de 2004 o filme A Paixão de Cristo, do aclamado diretor Mel Gibson, estreou no Brasil. O filme propõe retratar as últimas horas dos sofrimentos experimentados por Jesus em seu ministério terreno e, por essa razão, termina com uma simples indicação da ressurreição de Cristo. Tem despertado muita polêmica onde já chegou e muita curiosidade onde ainda é aguardado. Polêmicas à parte, há que se considerar que a reflexão sobre a intensidade dos sofrimentos do Messias é dever de cada cristão. O que se segue nas linhas abaixo é simplesmente um produto desse exercício.

Muitos são inclinados a pensar que as agonias finais do Messias são todo o sofrimento que Ele experimentou na terra. Uma leitura mais acurada dos evangelhos, contudo, traz uma conclusão inescapável: toda a vida de Jesus foi uma vida de sofrimentos. É verdade que o sofrimento iniciado na encarnação — a acomodação do divino às limitações humanas — chegou ao seu clímax nos momentos finais de sua vida, na passio magna. Talvez seja essa a razão pela qual a narrativa dos sofrimentos do Messias naquela última semana ocupa cerca de 25% dos registros dos evangelistas.

Em geral considera-se paixão de Cristo os sofrimentos iniciados no jardim do Getsêmani naquela quinta-feira, no final do mês judaico de nisan [abril], até a sua morte na cruz. A palavra Getsêmani traz uma curiosidade: deriva de um termo hebraico que significa “prensa de óleo”. Alguém que esteja atento à história verá que não foi por coincidência que naquele jardim Jesus sentiu tamanha angústia em sua alma a ponto de transpirar gotas de sangue (Lc 22.44). Esse fenômeno é conhecido como hematidrosis, podendo ocorrer em condições de extrema pressão emocional, quando pequenos capilares das glândulas sudoríparas se rompem e o sangue mistura-se ao suor.1 A pressão emocional que estava sobre os ombros daquele que veio para receber o castigo pelo pecado do mundo já resultava em grande angústia para Jesus. Além do mais, aquele foi um momento de sofrimento solitário, pois os discípulos que deveriam estar orando com ele foram tomados por pesado sono (Mc 14.32-42).

Ao cair da noite, Jesus foi levado à presença de Anás, o sogro do sumo sacerdote Caifás (Jo 18.12-24). Anás deveria estar na casa do seu genro, pois não há indicação de que ele tenha sido transportado dali para outro lugar. Por causa de uma resposta considerada desrespeitosa de Jesus ao sumo sacerdote, foi esbofeteado por um dos guardas. Começava ali uma série de abusos físicos aos quais Jesus seria submetido nas próximas horas. Estavam também presentes na casa de Caifás os principais sacerdotes, escribas e anciãos. Dava-se assim início a um julgamento forjado e ilegal. Várias testemunhas apresentaram acusações contra Jesus, mas nenhum dos depoimentos foi coerente. Todavia, a própria lei mosaica exigia que a acusação contra alguém fosse apresentada por, no mínimo, duas testemunhas e que houvesse coerência em seus depoimentos (Dt 17.6; 19.15). Também, um réu nunca seria condenado horas antes do sábado, pois isso lhe impedia recorrer da decisão no dia de descanso. Havia muitas irregularidades naquele tribunal, mas ainda assim Jesus foi acusado de blasfêmia e todos o consideraram réu de morte (Mc 14.53-65).

Sem o poder legal para matar Jesus, as autoridades judaicas o encaminharam ao pretório romano na manhã da sexta-feira. O julgamento de Jesus parece ter ocorrido em três cenas: primeiro foi apresentado a Pilatos; depois, encaminhado a Herodes; e, por fim, devolvido a Pilatos (Lc 23.1-25). Na primeira cena, tem-se Pilatos, governador romano da Palestina naquela ocasião. Após um breve interrogatório, Pilatos, sabendo que Jesus era galileu, imediatamente o remeteu a Herodes. Na segunda cena Herodes recebeu Jesus com alegria, pois o gesto de Pilatos demonstrava o seu reconhecimento da autoridade de Herodes sobre assuntos judaicos e o próprio Herodes havia muito ansiava ver um milagre realizado por Jesus. Contudo, diante do silêncio de Jesus, Herodes o desprezou e enviou-o de volta ao governador romano, em cuja presença ocorreu a terceira cena. Seguindo um costume comum às vésperas da Páscoa, Pilatos ofereceu-se para libertar um dos prisioneiros e deu à multidão judaica a oportunidade de escolher entre Jesus e Barrabás, um terrorista e homicida (Mc 15.7). A multidão, aos gritos, exigiu a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus. Em uma tentativa de remover sua culpa, Pilatos mandou trazer água e lavou as mãos.

Antes de entregar Jesus para a crucificação, Pilatos ordenou que Ele fosse açoitado pelos soldados romanos. O açoitamento era uma pena preliminar em todas as execuções romanas. Normalmente o condenado tinha as mãos atadas a um alto tronco e recebia treze chibatadas na região das coxas, nádegas e costas, outras treze no ombro esquerdo e mais treze no ombro direito — isso explica a expressão paulina “uma quarentena menos um” (2 Co 11.24). O açoite era um pequeno chicote com vários fios na extremidade. Na ponta de cada fio eram colocados pequenos pedaços de osso ou metais cortantes. Cada chicotada podia cortar a pele e arrancar pedaços, fazendo com que o sangue banhasse o corpo do Salvador. O objetivo do açoitamento era enfraquecer a vítima pela perda de sangue. Somente as mulheres e os senadores eram isentos da flagelação.

Depois de ter sido açoitado, Jesus foi levado ao pretório, onde os soldados escarneceram dele publicamente. Ali Ele foi despido, coberto com um manto escarlate e coroado com uma coroa de espinhos, recebendo ainda um caniço como cetro. Diferente do que as gravuras religiosas retratam, aquela coroa de espinhos não deve ter sido tão fina nem tão bem trabalhada no formato de um anel. Os espinhos devem ter sido pontiagudos, cobrindo bem mais do que apenas a testa do Messias. Somente o ato de colocar a coroa deve ter causado profunda dor, sem falar do sangue que certamente jorrou pelo rosto do Salvador, uma vez que o couro cabeludo possui grande quantidade de veias e vasos sangüíneos. Além do mais, cada golpe do caniço na cabeça de Jesus fazia com que os espinhos penetrassem mais profundamente. Dali Jesus foi levado para o lugar da crucificação.

Devido à angustiante dor da crucificação, os soldados ofereciam uma bebida analgésica à vítima. No caso de Jesus, eles ofereceram vinho com mirra (ou fel, como afirma Mateus). Jesus, porém, recusou. Ele teria de sorver conscientemente cada gota daquele cálice amargo. Na crucificação a vítima era colocada com os braços abertos e o corpo estendido na posição vertical. Os cravos primeiramente entravam nas mãos ou punhos, rompendo nervos e músculos, resultando em mais dor e sangue derramado. Depois, a vítima tinha os pés pregados no madeiro, normalmente um pé sobre o outro. A crucificação naquela posição não visava apenas a vergonha do condenado, mas também uma morte lenta e por asfixia. Uma vez que as mãos e as pernas não suportariam o peso do corpo na cruz, os braços cederiam, fazendo com que a vítima se entregasse a uma posição “Y” em vez de “T”. Com isso, a respiração seria paralisada e a pessoa morreria. Alguns tinham cãibras severas e, caso a vítima permanecesse viva por longo tempo, suas pernas eram quebradas a fim de que já não houvesse resistência e ela já não conseguisse respirar.

Na crucificação de Jesus, houve trevas sobre toda a terra a partir da hora sexta até a hora nona, ou seja, de meio-dia às 3 horas da tarde. Era como se Deus estivesse encobrindo do mundo aquilo que somente Ele deveria tratar com o representante dos redimidos. Ao final da hora nona, Jesus clamou em alta voz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Essa parece ter sido a primeira vez, em todo o seu ministério, que Ele não se dirigiu a Deus como Pai. Seus órgãos internos já deviam estar falhando devido à falta de oxigênio, e cada clamor era um esforço a mais para o seu corpo enfraquecido. Após clamar outra vez, Ele entregou o espírito: entregou-se à morte!

Durante todas aquelas horas de profundo sofrimento Jesus permaneceu relativamente calado. Certamente é difícil articular palavras quando o corpo está sendo “prensado” sob tão intensa dor, mas o silêncio de Jesus também cumpria a profecia bíblica de que o Messias seria levado como ovelha muda perante os seus tosquiadores (Is 53.7). Tamanho silêncio, porém, desperta a curiosidade sobre o que se passava na mente de Jesus naqueles instantes. Em que pensava o Salvador?

Em primeiro lugar, pode-se dizer que em seus momentos de angústia e sofrimento Jesus pensava antes nos outros que em si mesmo. Em sua caminhada rumo ao Calvário Ele voltou-se para algumas mulheres que choravam e disse: “Não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23.28). Já na cruz, após sua carne ter sido dilacerada pelos cravos, e diante dos olhares daqueles que assistiam ao “espetáculo”, Jesus intercedeu: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34). Pouco mais adiante Ele respondeu ao malfeitor arrependido que estava sendo crucificado ao lado dele: “hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Por fim, Jesus ainda teve tempo de providenciar alguém para cuidar de sua mãe. Da cruz Ele dirigiu-se ao discípulo amado dizendo: “Eis aí tua mãe” (Jo 19.26,27). Assim, conclui-se que mesmo em seus últimos momentos Jesus pensava nos outros.

Em segundo lugar, pode-se dizer também que em seus últimos momentos Jesus pensava nas palavras das Escrituras Sagradas. Em sua angústia na cruz Ele clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Essas palavras eram uma citação do Salmo da Cruz (Sl 22.1). Também, João registra o zelo de Jesus em cumprir as Escrituras ao pedir algo para beber (Jo 19.28-30). Esse pedido era um cumprimento de outro salmo messiânico (Sl 69.21). Nota-se, com isso, que Jesus relembrava algumas passagens das Escrituras com o objetivo de cumpri-las todas. Em meio à sua dor intensa Ele meditava nas Escrituras.

A reconstituição das últimas horas de sofrimento de Jesus apresenta certas dificuldades para a mente do homem contemporâneo, acostumada às imagens artísticas e românticas sobre Cristo na cruz. Embora rodeado pela violência, o homem contemporâneo não concebe a violência que Jesus sofreu na realização de sua obra redentora. Essa reflexão, porém, é fundamental para que o leitor bíblico atente para as terríveis conseqüências da sua culpa e para a maravilhosa graça de Deus. Mesmo sendo Deus, Jesus sofreu extraordinária dor. Mesmo sendo inocente, Ele não foi poupado. Surge então a pergunta: Por que Jesus teve de sofrer tanto? Em resposta a essa pergunta temos as razões dos homens e o propósito de Deus. Os homens apresentaram suas razões nos tribunais que julgaram Jesus. Deus revelou o seu propósito nas páginas das Escrituras: mediante o dilaceramento de sua carne na cruz Jesus abriu um novo e vivo caminho rumo a Deus (Hb 10.20). A cruz objetivou a abertura do céu para aqueles que crêem, pois aquela morte substituiu a nossa morte. Somente por meio de Jesus Cristo temos paz com Deus (Rm 5.1).



Valdeci da Silva Santos é doutor em estudos interculturais pelo Reformed Theological Seminary, em Jackson, Mississipi, e professor de teologia sistemática e teologia prática no Centro de Pós-graduação Andrew Jumper, em São Paulo.



1. HARRUB, Brad e THOMPSON, Bert. An examination of the medical evidence for the physical death of Christ. www.apologeticspress.org/rr/rr2002/r&r0201a.htm (acesso em 3 de março 2004).

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