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Reflexão — Valdir Steuernagel

O vírus da destruição e o gene da construção

A preocupação com a segurança
está na agenda!


Não faz muito tempo, eu estava trabalhando num texto que procurava alinhavar os desafios que a missão da igreja tem pela frente. Desafios da nossa época. Coisas como o rápido processo de urbanização que vivenciamos. A nova irrupção das religiões e do misticismo. Ao elaborar essa lista, incluí nela a preocupação com a segurança e o ambiente de medo em que vivemos. É que, na época, eu procurava digerir o assassinato de um missionário que eu conhecia. Mas não são só missionários que estão sendo assassinados. E de lá para cá a coisa só piorou.

É com uma boa dose de surpresa que me vejo incluindo a segurança numa agenda missiológica. Mas isso é um fato e tem várias dimensões. Primeiro, porque o próprio exercício missionário precisa levar em conta a preocupação com a segurança. Que tipo de pessoa pode se movimentar, e aonde ela pode ir? Que tipo de contato se pode fazer, e a que hora? Qual é a percepção que as pessoas que queremos alcançar têm a nosso respeito e como podemos chegar a elas? Segundo, porque a própria igreja precisa levar em conta a segurança no planejamento de suas atividades e no exercício das suas reuniões. Não é tão difícil encontrar alguém dizendo que na sua igreja não pode se fazer nada no período da noite porque o risco é muito grande. O terceiro fator está ligado à própria responsabilidade cidadã e social da igreja, que não pode apenas ser uma vítima numa sociedade violenta e insegura. Ela precisa exercer a sua responsabilidade e ser agente da paz, buscando quebrar o círculo da violência e o império da insegurança que vivemos hoje. Ela precisa se mobilizar pela paz e convocar outras forças da sociedade para, juntas, ecoarem um grito contra a violência e a favor da paz.

O Brasil de hoje precisa urgentemente de paz e segurança. O Brasil precisa de uma igreja que saiba soletrar o alfabeto da paz e, como tal, saiba falar de justiça, amor e reconciliação, pois o nosso país vive hoje uma inegável crise de segurança e um visível processo de banditização da sociedade.



O que estamos vendo?

A igreja precisa enxergar bem. Precisa de olhos que levem à formulação de um bom diagnóstico. Olhos que vejam segundo o palpitar do coração de Deus. A igreja precisa ter um coração que sinta o sofrimento da vítima e do pequeno. Da criança e da família destruída. Um coração que sinta o medo que entristece a vida e turva os olhos. Aliás, não é preciso ter olhos tão bons assim para perceber a crise de segurança que vivemos. Descrevê-la nem é tão complicado.

Uma população impotente e acuada. Hoje somos uma sociedade amedrontada. Acuada. Enclausurada. Com medo de sair às ruas. Insegura quanto ao que pode levar consigo ao sair de casa. Sem saber se, e diante de qual sinal, pode parar. Sem poder reagir quando assaltada e sem acreditar que valha a pena dar queixa na polícia quando um assalto ou um roubo acontece.

A pobreza intensa e a desigualdade assustadora. É claro que o Brasil é um bom lugar para se viver. Mas também é inegável que somos um país cuja distribuição de renda é uma das piores do mundo e cuja população de pobres, gigantesca, não vê grande possibilidade de abandonar a pobreza. É muito ingênuo e injusto simplesmente diagnosticar que é a pobreza que causa insegurança. Mas é inegável que muita pobreza gera muita angústia, insegurança e desespero.

Uma classe política fraca. Um dos sinais do nosso tempo tem relação com a crise política que se vive hoje, que é uma crise de modelo e de credibilidade. Nela não apenas se percebe que a classe política carece de credibilidade, mas também se pergunta se a atual moldura do nosso arcabouço político é a mais adequada para os dias e os desafios que vivemos.

Uma estrutura de segurança corroída e desprovida de vontade política de mudança. Vivemos com a percepção de que a segurança não provê segurança. Além disso, se percebe também a ausência de um desejo de mudança. Há anos se discute a unificação da polícia sem nunca unificá-la. Em 2001, anunciou-se um plano de segurança, mas ele não foi implementado e não houve mudança na insegurança da população. Falta, por parte do status quo, vontade política para proceder a uma mudança que faça diferença.

A violência bandida procurando se instalar como uma força controladora da sociedade. Os sinais do crescimento, do poderio e da influência das forças bandidas em nossa sociedade têm sido abundantes. As fronteiras estão difusas, quando não absolutamente ausentes. O atual governador de São Paulo, por exemplo, já negociou com seqüestradores duas vezes em menos de um ano. Quando se chega a essa situação, é que a crise é muito profunda. E muito séria.

Hoje assistimos à quebra radical do mito da convivência pacífica dos brasileiros. Do mito da integração racial, que diz que por aqui todos vivemos bem uns com os outros. Do mito de que somos um país desigual, mas feliz. Veja, se diz, o Carnaval, em que ricos e pobres dançam harmoniosamente...

O que precisamos nos perguntar tem ligação com a vida que queremos viver, com os valores que queremos abraçar. No Brasil de hoje, estamos contaminados pelo vírus da destruição. A destruição de si mesmo, do outro e do próprio tecido social, que estabelece um equilíbrio razoável para a convivência humana. Essa é a síndrome de Penina.



Penina não consegue ser feliz

O texto bíblico não fala muito sobre Penina. Mesmo assim, podemos destacar três pontos. Primeiro, Penina tem família e vive em família. Ela tem um marido que zela por ela e por seus filhos (1 Sm 1.4). Segundo, Penina tem filhos e, como tal, é abençoada. Ao lhe dar filhos, Deus olhou com graça para ela, que, por sua vez, ao dar filhos ao marido, cumpre com a expectativa cultural familiar da sua época. Além disso, por ter filhos ela estabelece um ninho familiar que lhe dá segurança e estabilidade. Terceiro, Penina, num contexto poligâmico, não consegue deixar de infernizar a vida de sua rival Ana, que é estéril. Corroída de ciúmes, quer destruí-la. Ela desfila seus filhos diante da “outra”, machucando-a e ferindo-a (1 Sm 1.7).

Tomada pelo vírus da destruição, Penina quer machucar a “outra”, sem perceber o efeito bumerangue que sua atitude provoca. Ela acaba destruindo a si mesma. Ela não consegue ser feliz.

Penina é uma parábola da nossa vida pessoal e coletiva. Das nossas relações humanamente destruidoras e da nossa incapacidade de abençoar o outro com aquilo que Deus já nos deu. Ela é um espelho da nossa maldade.

A crise de segurança que vivemos vem acompanhada de uma crescente maldade. Seja na forma de homens bomba, seja no tratamento que se dá aos prisioneiros talibãs. Seja na forma de tratar as vítimas dos crescentes seqüestros relâmpago, seja nas circunstâncias em que o seqüestrador morre na prisão.

Basta! Precisamos dizer basta a Penina. A igreja precisa ajudar a quebrar a síndrome de Penina. O vírus da destruição precisa ser erradicado. Deus não o quer. A igreja não o suporta. A vida não o aceita.

Mas algo precisa ser colocado em seu lugar. É por isso que os nossos olhos devem se voltar para Ana.



O gene da construção

A vida de Ana não foi fácil, apesar dos esforços do seu amoroso esposo Elcana. A tristeza que lhe sai pelos olhos e as lágrimas que lhe descem pela face não deixam que a sua dor seja escondida. Mas, em meio à tristeza de alma, Ana nos ensina a viver um caminho bonito e construtivo. Destaco quatro aspectos desse seu estilo construtivo, na esperança de que o seu jeito de viver nos contagie e nos permita oferecer alternativas de vida para os dias de hoje.

É preciso achar o caminho para Deus. Amargurada e cansada, Ana busca no refúgio do templo um encontro com Deus. Um encontro definitivo. Um encontro de alma. Um encontro desesperado de quem já não sabe o que fazer. Nessa busca aparentemente tão escura, ela encontra o chão que se tornará o trampolim para os seus dias futuros. Nunca é tarde para se chegar a Deus. E de um encontro com Ele nunca se sai de mãos vazias. A possibilidade do encontro com Deus representa a esperança que dá sentido ao nosso passado e vislumbre ao nosso futuro. Precisamos nos encontrar com Deus. Isso já foi dito inúmeras vezes, mas repito-o uma vez mais. Quando não achamos o caminho para Deus, estamos sozinhos. Quando estamos sozinhos, nada importa. E, quando nada importa, o outro é um simples objeto.

Na presença de Deus encontramos a nossa realidade. Ana nos diz que na presença de Deus não precisamos editar nada. Aliás, ela nos diz que quanto mais reais e realistas formos na presença dele, mais verdadeiro será o nosso encontro com Ele e com nós mesmos. Mas encontro com Deus não é fuga da realidade, não é alienação do cotidiano, não é esconderijo da insegurança. O encontro com Deus nos permite vomitar o passado de dor e amargura e gestar uma nova possibilidade de vida. O novo dia na vida de Ana começa quando ela ainda está derramando lágrimas na presença de Deus. As lágrimas da realidade são o colírio de um novo tempo. Há muita dor no momento em que vivemos. Dor das vítimas. Dor de parentes e amigos. Dor da impossibilidade e da ausência de sentido. A própria dor da culpa e do remorso. Ana nos diz que é possível reconstruir a vida a partir do cardápio da dor. É possível reconstruir a vida a partir da amargura e das lágrimas, à medida que gestamos um novo pacto na presença de Deus, assim como Ana fez (1 Sm 1.11).

O encontro com Deus muda o semblante da pessoa. Do seu encontro dramático com Deus, Ana sai com um semblante modificado. As pessoas ao seu redor até podem sussurrar umas às outras: “Quem te viu e quem te vê!” Com fome, ela vai procurar comida. Com sede, vai em busca de bebida. Com um sorriso, vai encontrar Elcana. E, assobiando, volta para casa. Precisamos aprender a cantar na sociedade esse novo cântico. Precisamos aprender a compartilhar essa possibilidade de esperança que fertiliza os estéreis. A sociedade precisa perceber que não vivemos um mero lenitivo religioso, mas que a vida na presença de Deus produz uma forma construtiva de olharmos para nós mesmos e para o outro. É, pois, na presença de Deus que se constrói um pacto social que muda a nossa convivência humana e o nosso jeito de olhar a bênção.

Ana recebe a bênção que abençoa. A partir do encontro com Deus no templo, Ana se torna mãe de Samuel. Dá à luz um menino que, ainda pequeno, ela dedica para o serviço a Deus no templo.

Assim, abençoada, Ana abençoa não só Eli e o templo, mas toda a nação de Israel, como evidencia a vida e o ministério de Samuel. As bênçãos que Deus nos dá têm o objetivo de abençoar os outros. E Ele tem nos abençoado abundantemente neste país. Não é possível que isso não fertilize esta nossa nação! Não é possível que isso não faça diferença nessa crise de segurança que enfrentamos. Somos chamados a ser diferentes e a fazer diferença na realidade em que vivemos. E essa diferença precisa desafiar a nossa sociedade a olhar para Deus, a levar a sério um ao outro e a construir uma nação em que a vida tenha algum valor. Uma nação em que a vida tenha o toque da mão de Deus. E isso é sagrado.




Valdir Steuernagel é pastor luterano e diretor do Centro de Pastoral e Missão, em Curitiba, Paraná. É autor de, entre outros, Para Falar das Flores... e Outras Crônicas.

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