Opinião
06 de fevereiro de 2026- Visualizações: 1886
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Sexualidade do “controle” em um mundo desorientado: cuidado e esperança para pecadores sexuais da geração Z
A graça de Deus escreve histórias longas em caminhos tortos
Por Davi C. Ribeiro Lin
Tendências
Ana (nome fictício) assumiu a posição de líder de adolescentes em sua igreja na fase de transição abrupta entre fim de faculdade e início de carreira durante a epidemia da Covid-19. Ela recebia afirmação de sua comunidade de fé e buscava discernir se o chamado de Deus para sua vida seria ao ministério cristão em tempo integral. Entretanto, pouco a pouco, ela via seu relacionamento com Deus desmoronar à medida que o mundo exterior e interior entravam em colapso. O isolamento forçado e a perda da noção de pertencimento foram um primeiro golpe em seu senso de orientação. A estes foram acrescidos um desencanto com as consequências do aquecimento global, a injustiça com as vítimas da violência e o término de um precioso namoro durante a pandemia. Diante de seu sofrimento, Ana começou a questionar a bondade de Deus diante dos problemas do mundo: “Viver em obediência a Deus é uma futilidade”. Se Deus não se importava com os problemas do mundo, porque ela deveria receber instruções de como viver sua vida?
Ansiando ser amada e desejada, Ana abriu uma conta em um aplicativo de relacionamentos para encontrar um homem e experimentar intimidade física e afeto. Como uma pessoa sem perspectiva nem direção, “um cachorro em dia de mudança”, ela rapidamente se viciou na sensação de controle e envolveu-se com múltiplos parceiros. Homens atraentes alimentavam seu orgulho em ser desejada e ela se gabava em ter sucesso nos aplicativos de namoro. Entretanto, ela mantinha esse estilo de vida em segredo da família e da igreja, com mentiras para manter os encontros casuais.
Ao liderar uma reunião na igreja, Ana teve uma crise de ansiedade e consciência. Ela reconheceu que não estava qualificada para servir em uma posição de liderança eclesial. No dia seguinte, confessou o que vinha mantendo em segredo. Como Ana me contou, “a vergonha era tão grande, mas o Espírito estava trabalhando em meu coração para eu me abrir e pedir perdão”. Seu pastor recebeu sua confissão com a misericórdia e a compaixão de Cristo. O amor incondicional de Deus, demonstrado por meio do cuidado pastoral, levou-a a lágrimas de alívio. Depois de anos cuidando-se, movida por gratidão, Ana tem se preparado para ouvir aqueles em sofrimento, refinando seus dons de escuta para ser uma presença capaz de acolher “pecadores sexuais da geração Z” como ela, que frequentemente se desorientam diante de um mundo desesperançado que parece ter perdido o eixo.

Em uma geração que foi criada em internet de banda larga ilimitada, sem um percurso longo e denso para apreensão do conhecimento (como na atual substituição das enciclopédias por poucos cliques), é comum que a demora na resposta seja percebida como ausência de solução. Ao se deparar com um limite e com o sofrimento ao não reconhecer prontamente a resposta, Ana nega o movimento em direção a um caminho estreito: “Esforçar-se em um caminho de fidelidade é inútil”. Sem perceber, Ana segue o atalho da desresponsabilização e culpa todos ao seu redor, inclusive Deus. Ana nega o caminho verdadeiro de seu coração, que dizia “eu preciso de um namorado que me ame”, “que as pessoas tenham saúde na pandemia”, “que o planeta e as pessoas sejam de fato cuidados” por uma negação desesperada. O teólogo Luigi Giussani chama de “negação desesperada” quando alguém abandona o desejo mais profundo afirmando uma impossibilidade: “Já que o amor e a justiça são impossíveis, deixo a luxúria rolar solta”. A sexualidade passa a ser uma expressão prioritariamente de um desencanto, de uma fragmentação da coerência pessoal. Frequentemente, como participantes de uma geração “banda larga”, tomamos atalhos, abandonamos o custo do amor, da construção conjunta em uma longa obediência no mesmo caminho. Substituímos a gratidão pelo que já alcançamos e a esperança pelo que virá por uma multiplicidade de relacionamentos de controle, prontos a serem exercidos na palma da mão. Seria o caminho estreito proposto pelo evangelho um beco sem saída?
Mas a excelente resposta é que a graça de Deus escreve histórias longas em caminhos tortos. Ana se desorientou por um tempo, mas teve um reencontro verdadeiro com Deus. E a sua esperança se reavivou ao enxergar-se, reconhecendo sua própria incoerência diante da graça de Cristo, a partir de um cuidado pastoral que a chamou à responsabilidade e à verdade. Essa reconexão acontece em duas etapas: primeiramente, em reconhecer a própria incoerência, a dor que carrega. Posteriormente, ela encontrou alguém que “tirou as sandálias” diante do solo santo de sua dor e, por meio de uma escuta não julgadora, tornou-se uma presença pastoral despenseira de verdade e de graça.
Ana havia perdido seu próprio coração, mas teve a oportunidade de reencontrá-lo. Penso que ela é um exemplar característico dessa geração: é necessário reeducar o coração de adolescentes e jovens adultos para a esperança, para um senso de futuro frutífero, ainda que não idealizado. “O percurso do justo é como a luz da aurora, que brilha cada dia mais até se tornar dia perfeito” (Pv 4.18). E essa jornada, mais verdadeira e coerente, já está aberta diante de nós.
Artigo publicado originalmente na edição 408 de Ultimato.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”
Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» O evangelho e a Geração Z: ministrando à “última geração do mundo”, por Steve Sang-Cheol Moon
» Pessoas: Humanas e Divinas - Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» O Caminho do Coração - Meditações diárias, Ricardo Barbosa
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
Por Davi C. Ribeiro Lin
Tendências
Ana (nome fictício) assumiu a posição de líder de adolescentes em sua igreja na fase de transição abrupta entre fim de faculdade e início de carreira durante a epidemia da Covid-19. Ela recebia afirmação de sua comunidade de fé e buscava discernir se o chamado de Deus para sua vida seria ao ministério cristão em tempo integral. Entretanto, pouco a pouco, ela via seu relacionamento com Deus desmoronar à medida que o mundo exterior e interior entravam em colapso. O isolamento forçado e a perda da noção de pertencimento foram um primeiro golpe em seu senso de orientação. A estes foram acrescidos um desencanto com as consequências do aquecimento global, a injustiça com as vítimas da violência e o término de um precioso namoro durante a pandemia. Diante de seu sofrimento, Ana começou a questionar a bondade de Deus diante dos problemas do mundo: “Viver em obediência a Deus é uma futilidade”. Se Deus não se importava com os problemas do mundo, porque ela deveria receber instruções de como viver sua vida?Ansiando ser amada e desejada, Ana abriu uma conta em um aplicativo de relacionamentos para encontrar um homem e experimentar intimidade física e afeto. Como uma pessoa sem perspectiva nem direção, “um cachorro em dia de mudança”, ela rapidamente se viciou na sensação de controle e envolveu-se com múltiplos parceiros. Homens atraentes alimentavam seu orgulho em ser desejada e ela se gabava em ter sucesso nos aplicativos de namoro. Entretanto, ela mantinha esse estilo de vida em segredo da família e da igreja, com mentiras para manter os encontros casuais.
Ao liderar uma reunião na igreja, Ana teve uma crise de ansiedade e consciência. Ela reconheceu que não estava qualificada para servir em uma posição de liderança eclesial. No dia seguinte, confessou o que vinha mantendo em segredo. Como Ana me contou, “a vergonha era tão grande, mas o Espírito estava trabalhando em meu coração para eu me abrir e pedir perdão”. Seu pastor recebeu sua confissão com a misericórdia e a compaixão de Cristo. O amor incondicional de Deus, demonstrado por meio do cuidado pastoral, levou-a a lágrimas de alívio. Depois de anos cuidando-se, movida por gratidão, Ana tem se preparado para ouvir aqueles em sofrimento, refinando seus dons de escuta para ser uma presença capaz de acolher “pecadores sexuais da geração Z” como ela, que frequentemente se desorientam diante de um mundo desesperançado que parece ter perdido o eixo.

Em uma geração que foi criada em internet de banda larga ilimitada, sem um percurso longo e denso para apreensão do conhecimento (como na atual substituição das enciclopédias por poucos cliques), é comum que a demora na resposta seja percebida como ausência de solução. Ao se deparar com um limite e com o sofrimento ao não reconhecer prontamente a resposta, Ana nega o movimento em direção a um caminho estreito: “Esforçar-se em um caminho de fidelidade é inútil”. Sem perceber, Ana segue o atalho da desresponsabilização e culpa todos ao seu redor, inclusive Deus. Ana nega o caminho verdadeiro de seu coração, que dizia “eu preciso de um namorado que me ame”, “que as pessoas tenham saúde na pandemia”, “que o planeta e as pessoas sejam de fato cuidados” por uma negação desesperada. O teólogo Luigi Giussani chama de “negação desesperada” quando alguém abandona o desejo mais profundo afirmando uma impossibilidade: “Já que o amor e a justiça são impossíveis, deixo a luxúria rolar solta”. A sexualidade passa a ser uma expressão prioritariamente de um desencanto, de uma fragmentação da coerência pessoal. Frequentemente, como participantes de uma geração “banda larga”, tomamos atalhos, abandonamos o custo do amor, da construção conjunta em uma longa obediência no mesmo caminho. Substituímos a gratidão pelo que já alcançamos e a esperança pelo que virá por uma multiplicidade de relacionamentos de controle, prontos a serem exercidos na palma da mão. Seria o caminho estreito proposto pelo evangelho um beco sem saída?
Mas a excelente resposta é que a graça de Deus escreve histórias longas em caminhos tortos. Ana se desorientou por um tempo, mas teve um reencontro verdadeiro com Deus. E a sua esperança se reavivou ao enxergar-se, reconhecendo sua própria incoerência diante da graça de Cristo, a partir de um cuidado pastoral que a chamou à responsabilidade e à verdade. Essa reconexão acontece em duas etapas: primeiramente, em reconhecer a própria incoerência, a dor que carrega. Posteriormente, ela encontrou alguém que “tirou as sandálias” diante do solo santo de sua dor e, por meio de uma escuta não julgadora, tornou-se uma presença pastoral despenseira de verdade e de graça.
Ana havia perdido seu próprio coração, mas teve a oportunidade de reencontrá-lo. Penso que ela é um exemplar característico dessa geração: é necessário reeducar o coração de adolescentes e jovens adultos para a esperança, para um senso de futuro frutífero, ainda que não idealizado. “O percurso do justo é como a luz da aurora, que brilha cada dia mais até se tornar dia perfeito” (Pv 4.18). E essa jornada, mais verdadeira e coerente, já está aberta diante de nós.
- Davi C. Ribeiro Lin é doutor em teologia, psicólogo e pastor. Atualmente leciona no Gordon-Conwell Theological Seminary.
Artigo publicado originalmente na edição 408 de Ultimato.
REVISTA ULTIMATO – LEMBREM-SE: ‘DEIXO COM VOCÊS A PAZ, A MINHA PAZ LHES DOU”Durante a última ceia com os discípulos, Jesus se despede com palavras de paz: “Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não a dou como o mundo a dá. Não vos perturbeis, nem vos atemorizeis”.
Por meio dos artigos de capa desta edição, Ultimato quer ajudar o leitor a se lembrar dessa verdade. Para fazer frente aos dias difíceis em que vivemos.
É disso que trata a edição 417. Para assinar, clique aqui.
Saiba mais:
» O evangelho e a Geração Z: ministrando à “última geração do mundo”, por Steve Sang-Cheol Moon
» Pessoas: Humanas e Divinas - Ensaios sobre a natureza e o valor das pessoas, Peter van Inwagen
» O Caminho do Coração - Meditações diárias, Ricardo Barbosa
» O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, Rodolfo Amorim
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