Opinião
17 de março de 2026- Visualizações: 647
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John Perkins
Este artigo foi originalmente publicado na edição 372 da revista Ultimato, em julho/agosto de 2018. John Perkins faleceu no dia 13 de março de 2025.
No aniversário de cinquenta anos do assassinato de Martin Luther King Jr., outro pregador extraordinário, portador de consciência social e afro-americano como ele, publicou o livro “One Blood – Parting words to the church on race” [Um sangue – Palavras de despedida a uma igreja em movimento]. Trata-se de John Perkins, fundador de vários ministérios de missão integral e autor de diversos livros. Ele escreveu o livro citado porque acredita que, tendo completado 87 anos de idade, seu compromisso com Cristo lhe impôs a tarefa de, antes de partir, dirigir à Igreja uma espécie de “manifesto” sobre a necessidade urgente de persistir na luta em prol dos direitos civis e da reconciliação, além do racismo que continua presente em seu país e em outros. Segundo ele, muitos de seus concidadãos estão esperando uma resposta à atual situação, profundamente afetada pelo preconceito racial.Não tenho registro das múltiplas oportunidades em que John e eu estivemos juntos em conferências e encontros em diferentes países ao longo de décadas. Contudo, tenho para com ele uma grande dívida de gratidão pelo muito que significou para minha maneira de pensar sobre a missão da igreja a leitura de seu livro “Justicia para Todos” [Justiça para todos]. Eu o publiquei em espanhol em 1988 pela editora Nueva Creación. Limito-me aqui a oferecer um breve resumo desse livro que me concedeu um modelo exemplar do significado de missão integral e o que ela exige para ser posta em prática.
As circunstâncias em que John nasceu e foi criado em Mendenhall, Mississippi, não poderiam ser mais adversas para seu desenvolvimento enquanto pessoa. Além de todas as desvantagens causadas pela discriminação racial que sofriam e ainda sofrem os afro-americanos nos Estados Unidos, no caso de John acrescentou-se ainda ter ficado órfão de mãe quando tinha apenas 7 meses de idade, ter sido abandonado pelo pai pouco depois e criado pela avó paterna com mais dois irmãos e duas irmãs, além de tios e tias, em um casebre miserável de três cômodos. Na adolescência, foi atingido por uma tragédia: uma de suas irmãs foi assassinada pelo noivo, e um de seus irmãos foi morto pela polícia. Em virtude disso, aos 17 anos, John decidiu se mudar para a Califórnia em busca de mais sorte. Ali conseguiu um bom trabalho, casou-se com Vera Mae e constituiu família. E lá, aos 27 anos de idade, teve uma experiência que marcou toda sua vida de modo definitivo: Teve um encontro com Jesus Cristo e decidiu se unir a um grupo de homens cristãos que visitava cadeias para compartilhar as boas novas com jovens presos, muitos deles negros do Sul dos Estados Unidos, que, como ele, haviam mudado para a Califórnia em busca de uma saída do abismo da pobreza, porém não tinham obtido o mesmo sucesso. Essa experiência lhe despertou o desejo de regressar à cidade natal para compartilhar o evangelho com seu povo.

Ao final de dois anos de luta, convencido do chamado de Deus, em junho de 1960, ele regressou a Mendenhall com sua esposa e cinco filhos. O que John não pôde imaginar antes de retornar foi que para cumprir o propósito de compartilhar o evangelho, especialmente junto aos jovens, ele teria de cruzar uma segunda barreira, mais alta que a primeira: a atitude de uma igreja local indiferente às necessidades físicas e sociais do povo, com cristãos acomodados ao racismo, ao abuso de poder e à violência policial. É dessa situação que ele trata no primeiro capítulo, cujo título é “A evangelização não basta”, no qual narra que, pouco depois da chegada à sua cidade natal, foi convidado a dar aula em uma classe de escola dominical em uma igreja que o conhecia. O templo se localizava em uma área paupérrima, rodeada de bares onde os rapazes se reuniam para jogar, dançar e se embriagar e as meninas mais afoitas frequentemente engravidavam. Ao observar essa situação, John entendeu que “o evangelho havia de consistir em algo mais que ‘evangelização’ [oral]. O evangelho bem entendido é integral, responde ao homem enquanto pessoa em sua totalidade; não escolhe somente uma classe de necessidades, as espirituais ou as físicas, para lhes responder com exclusividade”. Esta convicção o incentivou a exortar a classe a fazer algo para mudar a situação presente. Uma das perguntas que levantou foi: “Por que não nos organizamos, nos desfazemos desses bares e oferecemos uma vida mais saudável aos jovens?”. Essa proposta foi a gota d´água porque “a maioria desses lugares era de propriedade de membros da igreja. Minha situação era esta: um recém-chegado criticando aqueles que estavam entre os principais doadores de oferta da igreja. Para alguns de minha classe, isso pareceu uma infâmia, de modo que apresentaram a queixa ao pastor” e, como consequência, o pastor pediu a ele que não voltasse a ensinar em sua igreja. Providencialmente, disso resultou o nascimento de um ministério novo: “La Voz del Calvario” [A Voz do Calvário].
John Perkins dedica boa parte de seu livro, “Justicia para Todos” a descrever a formação e desenvolvimento desse novo ministério em um contexto socioeconômico e político profundamente afetado pelo preconceito racial, em que “os brancos queriam que os negros fossem cidadãos de segunda classe” e “os negros haviam aceitado ser cidadãos de segunda classe”. Ele conta que dois pastores brancos que se reuniram com ele porque tinham interesse em apoiar seu ministério de reconciliação caíram numa depressão tão profunda que acabaram por se suicidar. Essa experiência árdua o convenceu de que “tanto a igreja branca como a negra moldavam sua mensagem para se adaptar às tradições culturais, raciais e religiosas de tal forma que haviam privado o evangelho do poder que era importante para superar as barreiras raciais, culturais, econômicas e sociais”. Para mudar a situação assim descrita, fazia-se necessária a cooperação direta da comunidade negra. Embora os brancos pudessem ajudar e sua colaboração fosse necessária, a única instituição que podia servir como meio para obtenção da mudança era a igreja negra. Para este fim serviria “La Voz del Calvario”, com líderes seriamente comprometidos com o evangelho de reconciliação entre negros e brancos, dispostos a viver entre pessoas comuns e normais, amando-as e guiando-as. Dos dezenove capítulos do livro “Justicia para Todos”, treze (6 a 18) são dedicados à estratégia requerida para obtenção da mudança necessária a fim de que a justiça seja uma realidade para todos, brancos e negros. Essa estratégia se resume em três princípios:
1. Reassentamento (mudança de endereço). “Para servir aos pobres de maneira eficaz”, diz John, “devo reassentar-me, ou seja, integrar-me à comunidade necessitada. Ao ser vizinho dos pobres, as necessidades da comunidade se convertem em minhas necessidades.”
2. Reconciliação. “O evangelho”, argumenta, “tem poder para reconciliar as pessoas tanto com Deus como com as demais [...] A reconciliação que atravessa barreiras raciais, culturais e econômicas é um aspecto imperativo do evangelho.”
3. Redistribuição. Argumenta: “Deus nos chama a compartilhar com os que passam necessidade […] Significa compartilhar nossas habilidades, nosso tempo, nossas energias e nosso evangelho de modo a capacitar as pessoas a interromper o círculo de pobreza e assumir a própria responsabilidade diante de suas necessidades”.
Deus me concedeu o privilégio de visitar Mendenhall uns anos depois do início do admirável ministério de John Perkins em sua cidade natal. Vi pessoalmente alguns resultados da prática da estratégia implementada por esse pregador portador de consciência social. Um líder que, sob a direção de Deus, empreendeu um ministério que se iniciou na prática com uma pequena creche e foi crescendo pouco a pouco, até se converter em um modelo de missão integral. Um modelo que responde às necessidades físicas, sociais e espirituais da comunidade, se autofinancia e é dirigido por líderes locais que surgiram do próprio meio e se constituíram com o propósito de servir ao seu povo.
Nota
Traduzido por Vera Jordan.
• C. René Padilla [1932 - 2021] foi fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de Missão Integral – O reino de Deus e a igreja.
Este artigo foi originalmente publicado na edição 372 da revista Ultimato, em julho/agosto de 2018. John Perkins faleceu no dia 13 de março de 2025.
• C. René Padilla [1932 - 2021] foi fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de Missão Integral – O reino de Deus e a igreja.
Este artigo foi originalmente publicado na edição 372 da revista Ultimato, em julho/agosto de 2018. John Perkins faleceu no dia 13 de março de 2025.
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É fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de O Que É Missão Integral? e colunista da revista Ultimato.
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