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Opinião

Por que ler grandes livros? A resposta de um epistemólogo

Por Marcelo Cabral

Não tentarei definir o que são grandes livros. Simplesmente aceito que eles existem, e aos montes. Não só os clássicos,1 mas livros de ontem e de hoje permeiam estantes físicas e bibliotecas virtuais para quem tiver a paciência e a ousadia de abri-los, ajustar a atenção, calibrar os olhos, buscar a companhia de um café ou talvez de um chá de frutas vermelhas e, assim, lê-los. De Homero a Sabino, de Platão a Lygia Fagundes Telles, de Dante a Ernaux, de Emily Brontë a Guimarães, de Proust a Natalia Ginzburg, de Austen a Tolkien a Calvino a Tolstói a… a lista é extensa, graças a Deus.

Já que não vou explicar o que é um bom livro, eis o que pretendo: esboçar um conjunto de razões a favor do valor epistemológico da literatura. Que ler bons livros nos dá prazer, aguça nossas faculdades, melhora nossa apreciação estética, tem o potencial de gerar virtudes… nada disso me parece controverso. Uma questão mais suspeita é se a literatura gera conhecimento. Acredito que a intuição da maioria de nós é semelhante: “Sim, é claro que ler bons livros nos proporciona conhecimento!”. Mas como? Conhecimento de que tipo? Será que para obter conhecimento não é melhor ler artigos científicos, obras acadêmicas ou ensaios dissertativos?

Comecemos com a simples constatação que a literatura fornece conhecimento:

1. do(a) autor(a) e suas ideias, perspectivas e percepções particulares do mundo.

Ao ler um livro, ganhamos a possibilidade de enxergar as coisas pelas lentes do autor e ver o mundo através de suas ênfases, prioridades e concepções particulares. Assim, aprendemos em alguma medida o que o autor ou autora enxerga das coisas, e conhecemos o seu uso particular das palavras para expressar pensamentos e hermenêuticas da (sua) realidade.

Mas esse é só o ponto de partida. Se o livro for de fato bom, o conhecimento ganho é maior do que, meramente, as ideias do autor: adquirimos um entendimento mais amplo.

2. do próprio mundo, de seus habitantes e de suas relações, e das muitas formas como a vida pode ser vivida.

Aprendemos mais sobre a própria realidade. Passamos a notar coisas que antes nos escapavam; aprendemos sobre lugares que nunca visitamos – ou que talvez tenhamos visitado: mas é um aprendizado distinto daquele dos manuais – ao lermos em um romance sobre vidas experimentadas em uma certa cidade, vila ou lugarejo, é como se algo novo se decodificasse: construções se tornam símbolos, esquinas viram esconderijos, capelas são confissões, simples pedras se transmutam em runas, e o lugar ganha toda uma tecitura e densidade que antes simplesmente desconhecíamos. De todos os aspectos da realidade, entretanto, a literatura está mais bem posicionada do que qualquer outro artifício para nos ensinar sobre.

3. as relações propriamente humanas, as respostas ambíguas que as pessoas ofertam aos desafios da vida e das muitas (muitas!) maneiras que um mesmo fato pode ser apossado pelo coração humano.

Terence Cuneo2 fornece um bom exemplo: se queres aprender sobre a amizade, o melhor caminho não é o livro VIII da Ética a Nicômaco de Aristóteles – provavelmente o tratado filosófico mais importante sobre o tema de todos os tempos –, mas ler um livro como Crossing to Safety [Destinos Cruzados], de Wallace Stegner: personagens com suas muitas vicissitudes, manias, qualidades e defeitos, tem suas histórias contadas em um desenvolvimento, em que o tempo se torna o horizonte das idas e vindas em que lidam com doenças, traições, personalidades fortes, falta de ambição e atos incríveis de ternura. Um bom livro é capaz de selecionar e explorar fatos e expressões que, à maioria de nós, passam completamente despercebidos, mas que são exatamente os fatos e expressões que subsidiam a natureza da amizade e de outras marcas das relações humanas.

Em Anna Karienina, temos mais do que a fenomenologia de um amor proibido: temos a exposição de todas as contradições da alma humana ao lidar com paixões que competem entre si, temos a descrição física da dor do amor não correspondido, lemos sobre o pendular emocional que passamos em uma situação constrangedora. A narrativa dá acesso a um entendimento muito peculiar da nossa humanidade – quebrada, profundamente quebrada, mas também gloriosa.

Viver, disse Fernando Sabino, é escolher uma entre 100 vidas e viver com nostalgia das outras 99. Ler é um modo de dar voz a nossas nostalgias, fazer com elas um tratado de paz e até de reconciliação. É entrar em contato com a miséria de nossa finitude ao mesmo tempo que vivemos um cadinho dos caminhos e escolhas que não fizemos, que não poderíamos fazer, que nos faltou coragem de realizar ou que, por grande coragem, tivemos ousadia de não trilhar. “Já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente.”3

De todas as facetas humanas, há uma que só a literatura (e os poemas) são capazes de explorar com propriedade, e assim nos dão conhecimento.



4. das expressões particulares que os sentimentos ostentam.

Amamos, odiamos, sentimos saudade, temos ciúmes, às vezes inveja, tem dia que nos dá dó, outro que nos dá alegria, e numa manhã vivemos felizes e de noite ficamos tristes. Todas essas emoções, assim colocadas, soam gerais, e, por isso mesmo, abstratas, e não refletem o que de fato sentimos. Existem mil tipos de tristeza e, espero, dez mil tipos de amor. Um bom livro nos dá retratos maravilhosamente específicos dos sentimentos, e somos capazes de reconhecê-los, de sentir o que uma vez já sentimos, de pela primeira vez conhecer emoções que já habitavam nossa pele. Em O Encontro Marcado, há um momento em que Eduardo Marciano trava uma conversa com seu bom pai, e este finalmente lhe confessa: “era tua vida que eu gostaria de ter vivido”, no que Eduardo responde: “e é a tua que eu queria para mim”.⁴ Ler essa conversa, no fluxo de tudo o que ocorrera até então, me ensinou sobre esse sentimento de vontades de vidas diversas que, secretamente, todos nós abrigamos.

E por reconhecermos muitas das relações e emoções que lemos, a literatura, mais do que a filosofia ou tratados psicológicos, é capaz de fornecer conhecimento.

5. de nós mesmos – o tão buscado autoconhecimento – ao nos deparamos com personagens, sentimentos, relações e tramas ao mesmo tempo tão familiares e tão distintas, que nos permitem entrar em um jogo e julgamento de comparação, e, assim, de encontro.

Um grande livro é aquele que nos dá constantes experiências de “Aha! Foi exatamente isso o que eu senti, que pensei, que quis, que julguei, mas era incapaz de descrever a mim mesmo!” Nunca haverá um personagem idêntico a nós mesmos; mas, de repente, encontramos em uma personagem certos traços que nos soam tão familiares que são, genuinamente, nossos próprios traços, mas que até então não conhecíamos com texturas tão vivas . Lemos um fluxo de pensamentos que retrata certos momentos de quase-loucura ou de desnorteamento que, embora tivéssemos experienciado repetidas vezes, não tínhamos palavras para explicar – para os outros, ou para nós.

Pode ser uma vertigem particular, ou um amor que mantivemos em segredo, ou um desejo do qual nos envergonhamos, ou um modo específico de fugir de memórias dolorosas que, ao nos depararmos com descrições encarnadas (e, claro, encadernadas) em uma narrativa, acabamos por aprender uma porção de coisas sobre nós mesmos.

De conhecer melhor seres humanos, seus sentimentos e histórias, a literatura é uma via, sem par, para

6. o entendimento moral, o certo, o errado, e o grande caminho entre ambos; os muitos “certos” e os muito “errados” que energicamente coexistem; os fundamentos dos julgamentos que, por sermos humanos, somos convocados a exercer.

Essa alegação não é nova. Martha Nussbaum, em seu livro Love’s Knowledge, nota que, sobre a vida moral, “uma narrativa literária de uma determinada natureza é o único tipo de texto que pode expressá-las completa e adequadamente, sem contradição”.5 Só uma boa narrativa é capaz de abarcar o emaranhado emocional, os danos reais e potenciais, as motivações subjacentes e a complexidade das estruturas sociais que estão em jogo nas ações humanas.

Ademais, as histórias funcionam como uma porção de contrafactuais (os famosos “e se”, “e se tivesse sido assim em vez de assado”), que nos dão uma visão de mundos possíveis e realidades paralelas que nos permitem ao menos vislumbrar ações e suas consequências a partir de muitos ângulos diferentes. O discurso filosófico também utiliza contrafactuais, mas apenas de modo restrito: estabelecem argumentos (mais frequentemente, contra-argumentos) – que são, é claro, importantes para nossa compreensão moral, mas incapazes de tocar no âmago das questões e são ainda menos competentes para tocar no nosso âmago – de nós, os leitores – e de, assim, gerar em nós o tipo de movimento volitivo e imaginativo fundamental para o entendimento moral.

Iria terminar com seis pontos, mas sou obrigado a anunciar um sétimo. Só anunciar, porque sua apropriada descrição precisará de mais espaço do que esta coluna permite. A (boa) literatura pavimenta o mais raro, mais valioso e infelizmente não tão buscado bem intelectual,

7. a sabedoria.

Notas
1. Sugiro o maravilhoso texto de Ítalo Calvino, Por que ler os clássicos, 2007.
2. Terence Cuneo, Fé Ritualizada. Será lançado pela editora Ultimato em 2024.
3. Lygia Fagundes Telles, Ciranda de pedra, 2009.
4. Essa não é uma citação direta, mas é como eu gosto de me lembrar dela.
5. Martha Nussbaum, Love’s Knowledge, 1992, p. 7.


Marcelo Cabral é graduado em Economia (UNICAMP) e Filosofia (UNICAMP), e Mestre em Estudos Teológicos pelo Calvin Theological Seminary. Formado no curso The Interface Between Science and Religion no Royal Academy (Oxford). Faz doutorado em filosofia com dupla diplomação na UNICAMP e na Universidade Livre de Amsterdam, estudando epistemologia das virtudes e sua relação com o conhecimento social.

Publicado originalmente no
site Unus Mundus. Reproduzido com a permissão do autor.

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