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Opinião

As narrativas bíblicas nos ajudam a tomar decisões?

Por João Leonel

A maior parte dos textos bíblicos é constituída por narrativas. Textos que contam histórias com personagens complexos, enredos fascinantes, finais surpreendentes.

Esse fato não passou e não passa despercebido dos estudiosos da literatura que tem, cada vez mais, reconhecido a beleza literária da Bíblia. Para citar apenas um exemplo, o professor português da Faculdade de Letras de Coimbra, Frederico Lourenço, que tem desenvolvido um ambicioso projeto de traduzir o Novo Testamento (já publicado em Portugal e com o volume sobre os evangelhos publicado no Brasil) e a Bíblia Grega (conhecida com Septuaginta) para o português comenta:

“[...] a Bíblia pode ser lida como o mais fascinante livro alguma vez escrito; um texto que, no seu melhor, é de riqueza inesgotável, de ímpar magnificência expressiva, e onde encontramos do mais arrebatador e do mais comovente que a mente humana alguma vez terá conseguido imaginar” (O livro aberto: leituras da Bíblia, Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2017, p. 11).

Por essa razão, podemos nos perguntar como uma leitura que considere e esteja sensível aos aspectos literários das narrativas bíblicas pode ser significativa para nós?

As narrativas e o processo de formação do ser humano

Lembremos que as narrativas da Bíblia têm como objetivo explícito atuar no processo de formação do ser humano. Elas não são escritas para que contemplemos apenas sua refinada estética. Elas não chegam até nós unicamente para que as admiremos. Não. Elas são agudas, certeiras, tocam em nossa vida e querem transformá-la. As narrativas bíblicas exigem serem atualizadas no processo de leitura.

Lembremos a resposta de Caim a Deus, quando perguntado pelo paradeiro de Abel: “Não sei; sou eu o responsável por meu irmão?” (Gn 4.9. Nova Versão Internacional).

Responder à pergunta de Deus com outra pergunta é uma forma de fugir da resposta. Mais do que isso. É responder questionando. Caim havia assassinado o irmão. Agora, diz não saber dele. Com isso, “não ser responsável pelo irmão” implica a liberdade para tratá-lo como bem quiser. Afinal, Caim não responde por Abel. Se não é responsabilidade de Caim cuidar do irmão, de quem é? Essa pergunta implícita contida na pergunta explícita aponta para a resposta. Sim, Deus é o responsável por Abel. Portanto, deixando o papel de acusado, Caim se torna acusador. Onde você, Deus, estava que não viu e não me impediu de matar meu irmão?

Não precisamos ir longe para reconhecer nessa história a história de todos nós. O texto nos questiona se o estado em que o mundo se encontra não é consequência de nossa negativa a respeito do cuidado com o próximo, da falta de exercício de alteridade. E, o que é pior, o texto nos acusa de atribuirmos indiretamente a Deus, que não impede que assassinatos e males sejam perpetrados, a culpa pelo atual estado das coisas.

As narrativas nos ajudam a tomar decisões?

Outra característica da narrativa bíblica é nos chamar a tomar decisões a partir da ação dos personagens. Vejamos o caso de Jairo. Ele vai a Jesus buscando a cura de sua filhinha (Mc 5.22-23). O narrador é objetivo, dizendo que “Jesus foi com ele” (v. 24). Então, tudo certo. Jesus certamente irá curar a filha do religioso.

No entanto, algo interrompe a caminhada em direção à casa de Jairo. Jesus repentinamente para e pergunta: “Quem tocou em meu manto?” (v. 30). Os discípulos, não entendendo que, cercado por pessoas que o empurravam, Jesus fizesse tal pergunta dialogam com ele. Mas Jesus continua imóvel, olhando fixamente ao redor. Ninguém compreende o que está acontecendo. Jairo, certamente desesperado, espera que Jesus retome rapidamente a caminhada.

Então uma mulher sai do meio da multidão, ajoelha-se diante de Jesus iniciando um diálogo. Nesse meio tempo, que para Jairo parecia interminável, alguns amigos chegam e lhe dizem que a filha morrera. Não havia mais necessidade de levar Jesus até sua casa.

Certamente Jairo chorou. Choro profundo e doído. Não conseguira salvar sua querida filha de doze anos.

Ao ouvir o relato, Jesus simplesmente diz ao homem: “Não tenha medo; tão-somente creia” (v. 36).

O que Jairo fará? É necessário reconhecermos uma pausa na história para que o leitor reflita.

Jairo sucumbirá diante do fato incontornável de que não adianta mais continuar a jornada? Afinal, enquanto sua filha estava viva ainda havia esperanças, mas agora... E, além de tudo Jesus foi, de certa forma, culpado pela morte de sua filhinha ao demorar-se para ir com ele.
Ou então Jairo atenderá ao convite de Jesus, crendo quando não havia quase espaço para a fé, e caminhando ao encontro do corpo sem vida da filha? Ele teria coragem de apresentar Jesus como alguém poderoso o suficiente para ressuscitar a menina diante daqueles que já preparavam seu corpo para o funeral? A decisão de Jairo se mostra de forma silenciosa e discreta. Ele simplesmente segue a Jesus no caminho para casa.

A decisão e a ação do personagem Jairo são um convite à nossa ação. Somos convocados pelo texto a assumirmos o lugar daquele pai sofredor. Frente aos problemas, às lutas e dificuldades, quando Jesus parece demorar, como agimos? Atendemos aqueles que nos dizem que não adianta mais continuar clamando, ou ouvimos com o coração a voz de Jesus dizendo: “Não tenha medo; tão-somente creia?”

Não é possível ficar imóvel diante dos apelos da narrativa.

Sim, elas nos movem, nos incomodam, apresentam-nos dimensões outras que aquelas que vemos no cotidiano. É necessário, entretanto, responder a elas. Sempre com a coragem da fé.

• João Leonel é graduado em Teologia e Letras. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pós-doutor em História da Leitura pela Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Professor no Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas (SP), e na graduação e pós-graduação em Letras, Universidade Presbiteriana Mackenzie, SP. Autor do e-book Perguntas de Quem Sofre.

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