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Colunas — --

Pentecostais: Os herdeiros de Lutero

Por Bráulia Ribeiro

O pentecostalismo, carregando a herança luterana da liberdade espiritual, chegou redimindo, reestruturando hierarquias sociais, resgatando valor pessoal

Quando as famosas teses de Lutero foram divulgadas pela Europa, foram lidas como uma carta de alforria oferecida pela Bíblia ao povo escravo, explorado por uma igreja romana onipresente, imiscuída nas estruturas de poder político da época. A opressão era dupla. A verve venenosa de Lutero contra os donos do poder, somada à exegese bíblica apontando para um cristianismo redentor, baseado na graça divina, numa relação pessoal com Deus e na experiência da fé, foi como uma bomba nuclear desmontando a estrutura sócio-político-religiosa da época.

Quatrocentos anos mais tarde, chegam missionários suecos a Belém e o pentecostalismo se intromete na sociedade brasileira, subvertendo aos poucos a ordem vigente. Aquele Brasil de cem anos não era muito diferente da Alemanha medieval de Lutero. O poder político casado com a igreja católica perpetuava na república relações humanas feudais. O pentecostalismo, carregando a herança luterana da liberdade espiritual, chegou redimindo, reestruturando hierarquias sociais, resgatando valor pessoal. Agora Deus é de todos, comunica-se da mesma maneira com o lavrador e com o dono da terra, com o motorista de ônibus ou com o dono da empresa, na igreja onde o primeiro é o presbítero e o segundo ainda é novo convertido. Por causa da liberdade cristã garantida pela experiência de justificação pela fé, dinheiro, posição social, nível de instrução, sinais sociais antes identificados com valor individual perdem importância. A experiência com o Espírito Santo e a autoridade que esta experiência imprime ao crente é um nivelador poderoso e subverte as concepções tradicionais de espaço social. As narrativas de conversão geralmente se referem a momentos em que o crente, ao se encontrar com o amor do Espírito, não se reconhece mais como uma vítima passiva, mas como autor de seu destino. O movimento despretensioso não se ocupa apenas em subverter ordens oligárquicas e ditaduras religiosas, mas comunica valor pessoal ao indivíduo, antes um mero apêndice da classe em que nasceu.

Por que então o “mainstream” brasileiro odeia tanto o pentecostalismo? Minha hipótese é que o Brasil tem um desprezo visceral por si mesmo. Cultivamos uma necessidade patológica de autossabotagem, odiamos o sucesso, principalmente quando ele vem de baixo. Aceitamos o sucesso de movimentos sociais que justificam o classismo que nos divide em dois grupos: “pobres vítimas” e “ogros cruéis”. Mas, quando ele vem de baixo, nos desconcerta. Sabemos ouvir “eu vou tirar você deste lugar” na voz de Caetano Veloso, mas não na voz de Odair José. O classismo não pode ser desafiado pelo sucesso dos que deveriam se conformar com o papel de eternas vítimas.

A força subversiva dessa nova fé ameaça o “status quo” hoje tanto quanto ameaçou em 1517 e em 1910. Os “donos” da cultura não suportam o cheiro do povo. A guerra contra a conversão ao evangelho em sua manifestação pentecostal não é religiosa. É a guerra de um sistema elitista em que o Estado e a religião formal definiam não só a organização social, mas também nossa identidade coletiva e individual. Você não é quem é, mas o espaço social em que nasceu e dali não pode sair. O Estado não se reconhece na fluidez dos pentecostais e em sua mensagem de redenção espiritual, econômica e social. O Brasil que se define por uma relação entre vítimas e vitimados odeia o Brasil que dá às vítimas o papel de protagonistas.

• Bráulia Ribeiro trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família e é autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. www.braulia.com.br.

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