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Colunas — --

A pausa

Meus sapatos ressoavam no piso do longo corredor do hospital enquanto corria para chegar ao departamento de emergência, que tem um capelão permanente. Porém, nos finais de semana, cada vez que chega um trauma completo, em que o paciente teve uma parada cardíaca e corre o risco de morte, o capelão plantonista é solicitado e tem de estar presente durante todo o atendimento.

Era meu primeiro plantão e a primeira vez que eu estaria sozinha para receber o paciente. A iluminação no departamento de emergência é sempre muito forte. Guiada pela luz entrei na sala de trauma por uma cortina lateral. A maca fica sempre no meio da sala. Ao redor se posicionam os médicos e enfermeiros. Dos dois lados, as máquinas, os monitores e os carrinhos de “crash” vermelhos com todos os medicamentos e parafernália necessária à ressuscitação. A primeira coisa que vi foi o rosto da paciente. Pareceu-me velha, um corpo magro, quase de criança, contorcido, as pernas estavam quase em “nó”, revelando que ela provavelmente nunca andou na vida, o rosto crispado de dor, num esgar que descobria os dentes. A visão da dor paralisada em cera no rosto da mulher me deu um banho de adrenalina. Posicionei-me atrás da equipe médica lhes permitindo espaço para realizarem com precisão o balé coreografado ao redor do corpo. Os diferentes grupos médicos conversavam entre si: “Você já fez isto e isto? Foi ministrada tal coisa? Vamos injetar isto e aquilo”. Neste trauma, em vez das compressões manuais, o grupo de atendimento usava uma máquina. O movimento dela era firme, quase violento, pressionando o peito magro. Porém, a máscara de morte já parecia esculpida nas feições delicadas da mulher. “Há quanto tempo já não havia pulso antes de ela chegar aqui?” -- perguntou alguém. A enfermeira olhou a tela do computador e gritou: “São 35 minutos desde que os paramédicos a encontraram sem pulso”. Pararam a máquina de compressão, mediram o pulso sem ela, injetaram mais “isto e aquilo”. Nada. “Quanto tempo?” “São 45 minutos.” “Alguém tem mais alguma ideia?” -- o grupo interdisciplinar conferenciou entre si. A discussão durou alguns segundos. “Nenhuma ideia?” -- silêncio. Só a máquina continuou seu zunido, um puxão de vácuo, seguido pelo baque do corpo na maca. “Quem vai chamar?” -- perguntaram. “Eu chamo” -- disse um rapazinho olhando o relógio num dos monitores próximos ao corpo. A linha reta já se via há algum tempo, a mulher estava sem pulso, sem ar, sem atividade cerebral. É tempo de declarar o horário da morte.

“Horário da morte: onze horas e trinta e cinco minutos.” Todos pararam e olharam para mim. Eu entrei em cena hesitante, ainda me sentindo uma estranha naquele intenso ambiente. Posicionei-me perto do corpo e comecei a falar elevando a voz, quase gritando, para que todos pudessem me ouvir acima dos barulhos dos corredores externos e dos quartos separados de nós por cortinas: “Vamos fazer uma pausa pela vida de Virginia Smith.1 54 anos de idade, deficiente física e mental, cuidada por seus pais durante toda sua vida. Ela foi amada, amou, sorriu e fez sorrir. Sua falta vai ser sentida pelos que a conheciam”.

Todos na sala abaixaram a cabeça por alguns segundos. Eu contei até quinze em silêncio, o que pareceu levar um tempo enorme. Minha voz soou quebrada e fraca na segunda chamada: “Vamos fazer outra pausa em gratidão por todos os que a serviram nesta hora. Somos gratos a todos os médicos e enfermeiras presentes, pelo esforço que fizeram para salvar a vida de Virgínia”. Contei novamente até quinze e finalmente dispensei todos com o formal “vão em paz”. Saí da sala de trauma e procurei um canto para chorar. O choro me chegou convulsivo, inconveniente, eu não entendia o porquê daquele choro.

Chorei pela mulher deficiente mental morta, por todo amor que a cercou durante sua vida para que alcançasse aquela idade, pelos pais velhinhos que não puderam ir ao hospital. Mais do que isso, chorei principalmente pela beleza daquela pausa. A pausa nos ajudou a reconhecer o valor da vida e nos deu um momento para que o céu descesse e tocasse o coração de todos os presentes nos iluminando por alguns segundos com a eternidade. A pausa me ajudou a ver mais uma vez que a condição espiritual, bela e intrínseca ao ser humano, não pode ser confinada às igrejas.

Nota
1. Nome fictício.

• Bráulia Ribeiro trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família e é autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. Site: braulia.com.br.

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