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Colunas — --

De pecados, política e preguiça

Uma das pragas latinas das quais sofremos é a preguiça. Vianna Moog, no livro "Bandeirantes e Pioneiros", em que compara os pioneiros americanos e os colonizadores brasileiros, diz que a preguiça se entranhou em nossas veias pelo “mazombismo”, o estado de espírito do mazombo, o português nascido no Brasil. O mazombo tinha apenas direitos sem deveres. O trabalho comezinho lhe era uma vergonha, pertencia aos escravos e aos “negros da terra”. Ele, ser superior, conservava a ideia a que também se refere Sérgio Buarque de Holanda de que o ser é suficiente em si mesmo. A vida nobre é a vida do ser ocioso. Nas palavras de Holanda, “a religião moderna do trabalho e da apreciação por atividades utilitárias nunca foi parte da natureza dos povos hispânicos. Para um bom português, a preguiça dignificada sempre foi mais desejada e enobrecedora do que a luta insana pelo pão de cada dia”.¹

Essa simpatia pela preguiça é bem presente na nossa imaginação cultural. O preguiçoso manda seguir o enterro enquanto morre de fome porque não quer tirar as cascas do arroz que lhe oferecem. O preguiçoso é tema de música: “Marido, se alevanta e vai caçar uma seriema, que nós come a carne dela, e faz uma vassoura das pena”.² É tema de cordel, está presente em gênero masculino e feminino nas nossas histórias folclóricas. O preguiçoso é simpático, quase esperto. Quem é Pedro Malazartes além de um grande preguiçoso que ganha a vida à custa do esforço alheio? Macunaíma é outro herói que fez da indolência o seu trunfo maior.

Mas, para o teólogo Karl Barth,³ o maior pecado de todos, o pecado capital por excelência, é a concessão que o ser humano faz à sua própria preguiça. O pecado mais miserável segundo Barth não é a preguiça de trabalhar, mas a de ceder sua consciência moral ao outro, a preguiça moral. O preguiçoso para Barth é o homem que não assume a sua responsabilidade diante do mundo. Ele aceita para si um código de valores que lhe permite renunciar a vida. Ele abdica de si e assume a consciência coletiva, que anula a necessidade da moral individual. Ele legitima socialmente um vácuo moral de valores pessoais. Ele é nihilista por excelência. “Pra que fazer isto? Por que pensar diferente? Nada vai mudar mesmo...” Seu pecado é renunciar a si mesmo, mas fazê-lo numa presunção de autonomia. Ele não busca crescer ou entender as coisas por si próprio. A ética que ele vê como possível tem que lhe satisfazer emocionalmente porque o fim principal de sua vida é a satisfação de seus alvos a um custo pessoal mínimo.

Chamar essa descrição bartiana de preguiça talvez seja simplificá-la demais, torná-la corriqueira demais. Mas creio que descreve bem o nosso problema brasileiro. O pecador de Barth é o eterno mazombo, que acredita ser nobre a existência sem dificuldades entregue a ele por outros, sem compromisso com o seu suor. “Se eu não tenho, é porque não me dão, não porque eu não lutei para obter.” Essa preguiça mazomba descreve a pessoa que espera do governo todas as soluções para a sua vida pessoal. Descreve a sociedade que indolentemente verticaliza o que pode ser resolvido de maneira horizontal. Na esperança utópica do hipergoverno o homem renuncia a si mesmo, renuncia à sua capacidade individual para abraçar uma utopia coletiva. O homem-preguiça, por exemplo, concordava com o nazismo na Alemanha de Hitler porque o hipergoverno nazi-socialista resolveria todos os seus problemas. A política de promessas demagógicas só tem apelo para o homem-preguiça porque ele espera do governo e não do suor de seu trabalho seu cheque no fim do mês. Ele pensa que é do governo a responsabilidade de “consertar” o mundo, de aplacar as injustiças, de demonstrar compaixão. O governo tem deveres e ele só tem direitos.

Esse é o pecador bartiano, o homem sem deveres nem obrigações. Karl Barth de maneira profética conseguiu descrever a consciência (i)moral dos eleitores brasileiros. A preguiça moral pode ser nessa ótica o pior mal do Brasil. É ela que mantém o terreno fértil para a proliferação de políticos maus e corruptos que se elegem se apoiando na esperança de que o brasileiro é antes de tudo um preguiçoso.

• Bráulia Ribeiro trabalhou como missionária na Amazônia durante trinta anos e no Pacífico por seis anos. Hoje é aluna de teologia na Universidade de Yale, Estados Unidos, e candidata ao doutorado pela Universidade de Aberdeen, Escócia. Mora em New Haven, CT, com sua família e é autora dos livros Chamado Radical e Tem Alguém Aí Em Cima?, publicados pela Editora Ultimato. Site: http://braulia.com.br/.

Notas
1. Raízes do Brasil . São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 9.
2. Música “ABC do preguiçoso”, de Xangai.
3. The Sloth of Man. In: Church Dogmatics . Edimburgo: T. & T. Clark,1958. v. IV. parte 2.

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