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Colunas — Reflexão

O Deus que toma partido

Ed René Kivitz

De que lado Deus está?


Era uma vez um pastor. Seu nome era João. Ele cuidava de uma pequena igreja na zona rural de Minas Gerais. A maioria das poucas famílias de sua comunidade dependia da lavoura para a sobrevivência. A região era pobre e toda a sociedade daquela inóspita cidade lutava incansavelmente para extrair da terra o necessário para viver com um mínimo de dignidade. Era uma região de pequenos produtores, que lutavam com as dificuldades em conseguir crédito para a implementação de novas tecnologias agrícolas e máquinas e equipamentos que pudessem aumentar a produção das terras cultivadas. Porque produziam em pequena escala, os agricultores da região eram obrigados a vender seus produtos para parceiros e distribuidores sem contratos de garantia de preços e em condições muito desfavoráveis de mercado. Mas não tinham muitas opções, exceto as cooperativas que também lutavam para encontrar um lugar ao sol em meio às grandes empresas do agronegócio. Era uma gente brava, trabalhadora, que mesmo em condições adversas vivia com alegria.

Na mesma região havia uma grande mineradora, que durante muito tempo havia lucrado bilhões de reais com a exploração de recursos minerais. Uma das barragens da mineradora se rompeu e fez escoar detritos de rejeitos sólidos e muita lama, comprometendo gravemente o ecossistema da região. Rios foram contaminados, cidades foram destruídas e muitas pessoas morreram na tragédia. Toda a região ficou devastada.

A repercussão do acidente foi internacional. Em pouco tempo a notícia de crime ambiental se espalhou e diversos setores da sociedade, instâncias do poder público e ativistas que atuam em defesa dos direitos humanos e do meio ambiente se mobilizaram, e um grande debate a respeito de responsabilidades e procedimentos de reparação e reconstrução das regiões afetadas se instalou. Toda a sociedade, no país inteiro, se solidarizou com os moradores da região, e muitas doações foram enviadas para socorro dos desabrigados e sobreviventes. A pobreza, que já era grande, ficou ainda maior. E os clamores por justiça começaram a explodir em todos os cantos.

Os prejuízos foram contabilizados e chegaram a cifras astronômicas. O Instituto de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) multou a empresa controladora da mineradora em milhões de reais. A justiça bloqueou outros tantos milhões da empresa para ações de limpeza, resgate de animais, reconstrução das casas e da infraestrutura de saneamento e energia das cidades afetadas. Ainda hoje existem debates a respeito dos valores que serão destinados à indenização dos moradores da região por danos pessoais, perda de familiares e, inclusive, pensões permanentes às famílias que tiveram suas vidas destruídas pela tragédia.

O templo da pequena igreja onde o pastor João reunia sua congregação foi arrastado pela lama. Todas as famílias da comunidade perderam casas, lavoura, e, o mais triste, algumas pessoas morreram e umas poucas ainda estão desaparecidas. O pastor João fez o que pôde e o que não pôde, não apenas para sobreviver, mas também para ajudar. Providenciou mutirões para receber, organizar e distribuir doações. Visitou os alojamentos dos desabrigados para conversar e orar com as pessoas. Oficiou funerais e acompanhou as famílias enlutadas.

No meio de todo aquele caos, os cultos nunca deixaram de acontecer, e o número de pessoas presentes nas reuniões de estudos bíblicos e oração aumentou muito. O sofrimento tem essa capacidade de aproximar as pessoas umas das outras, gerando uma onda de solidariedade, e também de aproximar todo mundo de Deus, ou pelo menos fazer muita gente buscar mais a ajuda dos céus.

O pastor João passou a participar das conversas entre os habitantes de sua cidade, os pequenos produtores rurais e os trabalhadores, o governo e a empresa dona da mineradora. Aos poucos foi assumindo responsabilidades na liderança para organizar os moradores para que recebessem assistência das organizações humanitárias e orientação jurídica a respeito dos direitos de todas aquelas pessoas quanto a indenizações, ressarcimentos e eventuais investimentos futuros para a reconstrução da cidade e da região.

Em uma tarde de quinta-feira o pastor João recebeu a visita de uns homens que o abordaram em nome da empresa dona da mineradora. Eles foram pedir que o pastor participasse de uma reunião que haveria no dia seguinte. Os homens eram advogados e engenheiros. Estavam preocupados porque os moradores não queriam aceitar os termos dos acordos que a empresa havia proposto. Achavam os valores baixos, reivindicavam garantias de longo prazo e, principalmente, exigiam justiça. A empresa queria indenizar danos e ressarcir prejuízos, mas as pessoas queriam muito mais. Elas não estavam preocupadas apenas com as casas, lavouras e negócios que a lama havia levado embora. Elas queriam saber o que aconteceria com elas no futuro. Como e o que fariam para reconstruir suas vidas. E que tipo de recursos teriam à sua disposição.

Os advogados queriam que o pastor João fosse com eles para a reunião e os ajudasse a apaziguar os ânimos e gerar no povo boa vontade para ouvirem as propostas e promessas da empresa. Chegaram inclusive a oferecer uma boa recompensa financeira em troca dos “serviços de diplomacia”, como chamaram. “Afinal, o senhor é um homem de paz, um homem de Deus”, argumentaram.

O pastor João recusou a oferta e disse que sabia qual era o lugar dele naquele jogo de interesses, disputas e debates por direitos e justiça. Disse que estaria, sim, na reunião do dia seguinte, mas sentado entre seu povo e sua gente. E deixou claro que Deus estaria lá também, para ouvir o que seria oferecido para aquela gente sofrida e quase sem defesa. Disse que Deus tinha um lado, o lado dos órfãos, das crianças, dos enlutados e dos pobres. Daquele dia em diante o pastor João deixou de ser considerado cristão. Passou a ser chamado de marxista e comunista.

• Ed René Kivitz
é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, SP. É mestre em ciências da religião e autor de, entre outros, O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia.
facebook.com/edrenekivitz

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