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Pregadores da descrença nos púlpitos evangélicos

William Lacy Lane

 

O sociólogo polonês Zigmunt Bauman define a presente era como uma “sociedade ou modernidade líquida”. É caracterizada pelo abandono da utopia, aquele anseio de transformação com o fim de se alcançar o ideal desejado. Entre outras coisas significa abandonar a ideia de que algo está errado na sociedade e precisa ser mudado. Na modernidade líquida não há valores, verdades, leis, regulamentações fixas. Tudo se define pelos interesses econômicos e de mercado.

 

Estamos habituados a pensar no verdadeiro profeta como aquele que anuncia a palavra de Deus e no falso profeta como o incrédulo, o pagão, o vidente de outra religião. Assim, achamos que qualquer um que abra a Bíblia, leia uma passagem, pregue, ore e faça apelo é um verdadeiro profeta do Senhor. Então, pensamos que as diferenças entre um pregador e outro é apenas uma questão de opinião ou preferência. Gostamos mais desse pregador ou daquela mensagem, mas, se meu irmão gosta de outro pregador e mensagem, é o direito dele. No entanto, nessa modernidade líquida o falso profeta também abre a Bíblia, lê uma passagem, prega, ora e faz apelo!

 

Como saber, então, quem é o verdadeiro profeta?

 

Esse problema não é novo. Já no Antigo Testamento havia a dificuldade de identificar o verdadeiro profeta. Não estamos falando de casos como Elias e Eliseu, no reino do Norte, contra os profetas de Baal. Estamos falando, por exemplo, de Jeremias diante de outros profetas do Senhor que anunciavam mentiras.

 

Em Jeremias 28, Hananias se coloca “no templo do Senhor, diante dos sacerdotes e de todo o povo” (28.1) e anuncia mensagem contrária ao que Jeremias vinha pregando. O próprio Jeremias, “diante dos sacerdotes e de todo o povo que estava no templo do Senhor” (28.5), anuncia outra mensagem. Dois profetas do Senhor, no templo diante dos sacerdotes, pregam duas mensagens distintas. A mensagem de Hananias era animadora: dentro de dois anos o rei da Babilônia seria derrotado e tudo voltaria ao normal (28.3-4). A mensagem de Jeremias era de sofrimento, guerra e sujeição ao domínio babilônio, e foi dramatizada por uma canga que Jeremias carregava no pescoço. Para sua surpresa, Hananias quebra a canga e Jeremias vai embora, talvez confuso e desolado, sem saber se a sua mensagem ou a de Hananias era a verdadeira. Mas Deus fala novamente a Jeremias e ele volta ao templo agora com uma canga de ferro para simbolizar a opressão de Nabucodonosor (28.13-14). Por fim, diz a Hananias: “Escute bem, Hananias! O Senhor Deus não o enviou; você está fazendo esse povo acreditar em mentiras” (28.15, NTLH). A mensagem de Jeremias era a verdadeira.

Temos aqui dois profetas do Senhor, porém, com mensagens distintas. Aparentemente, temos não só duas percepções dos acontecimentos da época, como também duas compreensões teológicas distintas com respeito à promessa de Deus ao povo. Os pregadores de mentiras anunciavam paz, vitória, sucesso (Jr 23.16-17; 28.9), mas esses foram piores do que os profetas que falavam em nome de Baal (Jr 23.13-14). Muito provavelmente se respaldavam na aliança de Deus com Davi e na promessa de estabelecer o seu reino para sempre em Israel (2Sm 7.12, 16). Isso foi entendido pelos contemporâneos de Jeremias como garantia de que nenhum rei estrangeiro seria capaz de tirá-los dali, afinal Deus mesmo protegeria seu nome, seu templo, sua cidade santa (Jr 7.4, 8-11). Isso levou a uma visão triunfalista sem o compromisso com a justiça e a retidão. Jeremias, por outro lado, influenciado pelas reformas promovidas pelo rei Josias e pela descoberta do livro da lei, se respaldava nas promessas da aliança do Sinai e expressas em Deuteronômio. De acordo com essa aliança, viver na terra prometida como povo escolhido de Deus implicava sujeição constante aos termos da aliança (Jr 7.5-7, 12-15; cf. Dt 8.1, 11-20). De um lado, um triunfalismo imediatista; do outro, um compromisso com a justiça e a sujeição à correção de Deus.

 

A modernidade líquida afeta nossas relações religiosas. Isso significa que as pessoas não aderem a uma fé exatamente por compreenderem seus compromissos e normas, mas o fazem pelos benefícios e vantagens que obterão naquele momento. Muitos pregadores se capitalizam (literalmente) desse espírito de nossa época. Anunciam falsas esperanças, iludem as pessoas e deixam de anunciar o verdadeiro evangelho de Cristo. É uma forma de fazer o povo se esquecer de Deus (Jr 23.27), pregar sua própria palavra (23.31) como se fosse de Deus (23.30), levar o povo ao erro (23.32), contar seus sonhos como se fossem de Deus (23.28) e, com isso, não ajudar em nada o povo (23.32).

 

Esses profetas estão nos nossos púlpitos – “no templo do Senhor, diante dos sacerdotes e de todo o povo”. O verdadeiro profeta, porém, é aquele que esteve no conselho do Senhor e prega segundo a sua palavra (Jr 23.18, 22).

 

• William Lacy Lane doutor em Antigo Testamento é diretor acadêmico da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina, PR. Escreve regularmente para o Portal Ultimato. Confira outros artigos do autor.

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