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Colunas — Ponto Final

Fala comigo!

Rubem Amorese


O irmão assentou-se ao meu lado e notou que eu fazia apontamentos do sermão. Perguntou-me, baixinho: “E você ainda tem o que anotar?”. Com certeza, ele se referia ao meu “tempo de estrada”, a contrastar com a idade do pregador. Não era hora de conversa, portanto a observação ficou entendida como uma simpática saudação.

 

Já em casa, lembrei-me de outro episódio, mais antigo. Acho que um puxou o outro. Foi assim: um irmão, de igual modo “sênior” na igreja, revelava que não gostava de ouvir jovens pregadores porque eles eram muito insipientes e pouco ou nada tinham a lhe acrescentar. Essa era a razão por que, ao saber quem seria o pregador da noite, algumas vezes se retirava. Agia assim também em relação a pregadores mais tarimbados, mas de cuja doutrina discordava, ou àqueles por quem nutria “antipatia teológica”. Levantava-se e saía porque não gostava do modo de pregar daquele irmão. Uma conversa incômoda, recordo bem.

 

Sugeri ao irmão que, talvez, um ambiente estimulante fosse a escola dominical, por causa das oportunidades de diálogo ou de participação. Salas de aula costumam ser mais acolhedoras. Eu tentava aliviar o clima da conversa. Para minha surpresa, ele retrucou que, embora nunca tivesse recebido diploma, naquela escola ele já era formado. Tinha, inclusive, o curso completo de teologia em um bom seminário da cidade, com foco em Novo Testamento.

 

E a conversa foi por aí: grego koinê, hebraico, hermenêutica etc. Na verdade, não foi exatamente uma conversa, pois o irmão, de forma coerente, ouvia pouco.

Bem, a vida seguiu, mas aquela conversa me alarmou, ao contemplar um irmão impermeável ao ensino. Como se, em sua alma, a Palavra de Deus tivesse produzido anticorpos.

 

O susto, no entanto, vinha da pergunta: seria eu diferente dele? Para ser verdadeiro, eu não tinha dificuldade em enumerar as vezes em que desanimei com pregações e pregadores, jovens e experientes, antes mesmo de começarem. Por quê? Hoje, penso que Deus não me deixou esquecer ou menosprezar o episódio do irmão preparado. E fez-me olhar para mim mesmo.

 

Com o tempo, compreendi que essa impermeabilidade ocorre quando chego à casa do Senhor como quem chega para um show, para algum entretenimento. Há dias em que me esqueço de fazer a oração mais básica de todas: “Fala comigo, Senhor”. Assim, não predisponho meu coração a ouvir a voz de Deus. Talvez nem tenha ido à igreja para isso.

 

Entretanto, ao perceber essa frivolidade do meu coração, decidi impor-me a disciplina dessa singela oração. Fosse apenas dizendo amém ao celebrante, fosse proferindo-a eu mesmo. E as coisas mudaram. Quando você se abre ao milagre da “palavra”, acaba ouvindo coisas inefáveis. Sejam elas exortações, sejam palavras de ensino, de consolo ou ânimo. Ao orar “fala comigo”, já não importa tanto quem vai subir ao púlpito, pois sabemos e cremos que Deus fala.

 

Quando o irmão que se assentou ao meu lado perguntou-me baixinho, em tom de gracejo: “E você ainda tem o que anotar?”, ele não podia imaginar quanto eu estava feliz e excitado com a perspectiva de poder ouvir, mais uma vez, a Palavra de Deus sendo proferida ao meu coração. Sim, eu já havia orado: “Fala comigo, Senhor!”, e estava de bloco de notas na mão.

 

Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e também consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final. Acompanhe seu blog pessoal.

 

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Abre os meus olhos, Senhor!
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Versão ampliada do artigo “Fala comigo!”

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