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Colunas — O Caminho do Coração

A fé cristã é sempre contracultural

Ricardo Barbosa

 

Escrevo este artigo no início da semana em que celebramos a Paixão de Cristo. Um período do ano em que sempre me dedico a pensar e refletir sobre a cruz de Cristo, seu sofrimento, morte e ressurreição. Escrevo também em meio a uma das maiores crises políticas, sociais e econômicas de nossa história recente. Sou levado a refletir sobre as duas realidades e a relação entre elas.

 

Estive lendo, recentemente, um artigo do pregador inglês não conformista John Angell James (1785-1859). Para ele, os cristãos não deveriam se preocupar em se ajustarem ao seu mundo, nem mesmo em serem considerados ultrapassados. O cristianismo, para ele, é sempre autoconsciente de ser contracultural, fiel ao evangelho e ao caminho estreito. Ele disse: “Jamais se deve esquecer de que o tempo em que os apóstolos exerceram seu ministério foi logo após a Era de Augusto no mundo antigo. A poesia havia recentemente presenteado o mundo das letras com as obras de Virgílio e Horácio. A luz da filosofia, embora evanescente, ainda derramava seu brilho sobre a Grécia. As artes ainda exibiam suas mais esplêndidas criações, embora tivessem parado de evoluir. Foi nesse tempo, e em meio a tais cenários, que o evangelho iniciou seu curso. As vozes dos apóstolos eram ouvidas por sábios que se aqueciam sob o sol da sabedoria ateniense, e reverberavam um eco surpreendente dos templos e estátuas que haviam sido abalados pelos trovões de Cícero e Demóstenes. Mesmo assim, não fizeram concessões às exigências da filosofia, mas apegaram-se à cruz como o único objeto que sentiam ter o direito de exibir. Nenhuma vez se entretiveram na degradante noção de que deveriam se acomodar à filosofia ou aos gostos da época em que viviam, ou aos lugares onde ministravam [...] Quer o apóstolo se dirigisse aos filósofos no Areópago, ou aos bárbaros na ilha de Malta; quer arrazoasse com os judeus em suas sinagogas, ou com os gregos na escola de Tirano; tinha apenas um único tema, e esse era Cristo, e o Cristo crucificado”.

 

Jesus, no início da Páscoa, logo após sua entrada em Jerusalém, afirma: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Ele estava referindo-se à sua morte na cruz. O que atrai os homens a Cristo é sua cruz, nada além dela. Que direito temos nós de nos desviarmos desse imperativo? Se vivemos numa era tecnológica ou se nos deparamos com conflitos sociais e políticos com polarizações apaixonadas, seria isso uma razão para julgarmos que a necessidade humana poderia ser suprida por alguma outra fonte? Deveríamos amar alguma outra coisa, seja ela uma nova tecnologia ou uma forma de ideologia mais do que a cruz de nosso Senhor?

 

John Angell James segue dizendo: “A suposição de que é um requisito, para uma época como a atual, de que outra coisa qualquer além do puro cristianismo seja tema para nossa ministração no púlpito, ou que este deva ser apresentado em roupagem filosófica, parece-me ser o sentimento mais perigoso, um descrédito para o evangelho em si, uma hipótese audaz de sabedoria superior à de Deus, e contendo um germe de infidelidade”. Qual o papel da Igreja num tempo como este? Qual deve ser sua palavra profética diante da crise que se coloca diante de nós? O que o sofrimento, a morte e a ressurreição de Cristo têm a nos dizer em dias como estes? Se nos deixarmos levar pelo ímpeto de nossas paixões e julgarmos nossa sabedoria superior à de Deus, corremos o risco de perder o sabor do sal e o brilho da luz. Nestes dias tensos, lembremo-nos do apóstolo que disse: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”.

 

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas.

 

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