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Colunas — Ética

Jejum não é (apenas) deixar de comer

Paul Freston

 

 

 

O jejum quebra a rotina de satisfação dos nossos apetites e faz-nos desligar as antenas ocupadas com os cuidados diários e sintonizá-las na voz de Deus

  

 

  

 

Nada comeu naqueles dias, ao fim dos quais teve fome.

Lucas 4.2

 

Jesus não só passa quarenta dias longe das pessoas, em silêncio; ele também jejua (Lc 4.2). Um jejum de quarenta dias! Provavelmente bebendo apenas água. É uma espiritualidade bem distante da nossa, pelo grau de ascetismo. Afinal, Jesus é uma figura bem oriental.

 

O que podemos tirar disso? Em primeiro lugar, o reconhecimento da estranheza. Olhar a vida de Jesus é uma experiência transcultural. É pelo confronto com o estranho que chegamos a questionar a “naturalidade” da nossa própria maneira de viver. Se Deus realmente se encarnou, ele o fez num determinado contexto cultural. Esse contexto não é o nosso e não devemos tentar imitá-lo artificialmente. Mas devemos -- isso sim -- ser contraculturais em nosso próprio contexto (Rm 12.2). Não significa cercear a vida com uma lista de proibições, mas elaborar um estilo de vida regido pelos critérios do reino de Deus. Assim, entre outras coisas, daremos valor a certas práticas que a nossa sociedade e -- possivelmente a nossa igreja -- não costumam valorizar. Uma dessa práticas é a da “renúncia ascética”.

 

A palavra “ascese” (ou “ascetismo”) vem do grego “askesis”, que significatreinamento”. Como cristãos modernos, desconfiamos do ascetismo por várias razões. Primeiro, alguns ascetas na história da igreja realmente agiram como se o mal estivesse no corpo e nas coisas materiais em si. Porém, não precisamos de um ascetismo motivado pela desconfiança diante da boa criação de Deus, mas pelo chamado e exemplo de Jesus. Segundo, achamos que o ascetismo é uma tentativa de merecer a própria salvação. Não é; é apenas o esforço de levar o discipulado a sério. Terceiro, e mais importante, evitamos o ascetismo porque ele vai contra tudo que a nossa sociedade frenética e consumista nos recomenda. Por isso, apesar de crermos teoricamente que o homem é um ser integral e nos opormos ao dualismo de corpo e alma que os cristãos mais legalistas demonstram, somos também dualistas práticos porque achamos que aquilo que fazemos com o corpo não tem influência fundamental em nossa vida espiritual. Antes de mais nada, a comida, o sono, o sexo, o trabalho, o silêncio, o luxo são questões espirituais. Na religião bíblica, tudo passa pela matéria e pelo corpo: Deus, a Bíblia, a santidade, a oração.

 

O ascetismo, na concepção cristã, é “positivo”.

 

[Para os monges do deserto, era um] meio para libertar-se de suas servidões interiores a fim de estarem totalmente disponíveis para Deus e para os outros.

[Não imitamos os excessos ascéticos de alguns daqueles monges, mas o importante são os valores que os motivavam.] A ascese realça sobretudo a renúncia corporal e exterior. Sua intenção fundamental é assumir um estilo de vida radicalmente diverso do mundano [...]. Hoje também necessitamos de ascese se não quisermos ser engolidos pela “mundanidade”.1

 

Nosso combate ascético é contra a carne, não contra o corpo em si. “Carne” não é o mesmo que “corpo”. A palavra carne [no Novo Testamento] [...] significa tudo em nós que é pecaminoso e contrário a Deus; por isso não é só o corpo mas também a alma do homem caído que se tornaram carnais [...]. A negação ascética de si mesmo [...] não é uma luta contra o corpo, mas pelo corpo [...]. Mate a carne para adquirir um corpo.2

Uma das armas nessa aquisição de um corpo, de um estilo de vida radicalmente diverso do mundano, é o jejum. Em geral, vivemos numa rotina impensada de satisfação dos nossos apetites. O jejum quebra essa rotina, interrompe o ciclo automático, e coloca uma espécie de muro à nossa frente pela interdição do impulso de comer. As energias assim bloqueadas podem voltar-se para Deus. Desligamos as antenas ocupadas com os cuidados diários e tentamos sintonizá-las na voz de Deus.

 

O jejum não é, como alguns pensam hoje, uma armacontra Deus” (no sentido de manipulá-lo), mas uma arma a favor de “nós mesmos”, um meio de revelar aquilo que nos controla e de lembrar-nos de que a vida é um dom divino.

 

O jejum e a parcimônia no comer e no beber fortalecem o domínio de si mesmo e o desenvolvimento das faculdades espirituais [...]. É também um caminho de penitência e purificação, e uma forma de oração pela qual nos dispomos à misericórdia de Deus [...]. Além disso, [para os monges do deserto] o jejum esteve muito ligado à solidariedade: era uma maneira de economizar a fim de compartilhar seu alimento com os pobres [...].

[Ao contrário do jejum político, a greve de fome] o jejum religioso tem em vista, em primeiro lugar, os próprios pecados e não os pecados dos outros, e está motivado na conversão para crescer no amor [...].3

 

O princípio do jejum se estende ao ato de comer em geral. Hoje em dia, até nos espantamos com a ideia de que a gula seja um dos tradicionais “sete pecados capitais”.

Aqueles que vão ao culto depois de haver comido pesadamente se impõem um fardo prejudicial; insensibilizam o coração na oração, e obstruem o acesso de pensamentos e sentimentos santos.4

 

Frases como essa nos parecem extremamente exageradas. Cheiram a uma espiritualidade antiga, doentia, até legalista. Mas será que eles, pelo menos em alguns casos, não tinham uma visão mais integral do homem do que nós?

 

O princípio do jejum também se estende para além da questão de comida e de bebida. Richard Foster, autor quacre do livro “Celebração da Disciplina”, escreveu um artigo intitulado “Jejum: estilo século vinte”.5 Segundo ele, a ideia central no jejum é “a negação voluntária de uma função normal por causa de uma atividade espiritual intensa”. Essa ideia pode ser estendida a outros tipos de “jejum”. Foster sugere seis:

 

1) “Jejum de pessoas”. Não para ser antissocial, mas para poder amá-las mais e deixar de “consumi-las” para o nosso próprio proveito. A disciplina da solidão complementa a disciplina da comunidade. Para quem não aprendeu a estar com as pessoas, a solidão será perigosa, porque o separará da humanidade sofredora. Mas quem não aprendeu a estar só, não terá condições de ajudar as pessoas, porque trará sempre a seus relacionamentos a sua própria desintegração interior, divisão e multiplicidade. Não saberá ouvir e estar realmente presente para a outra pessoa.

 

2) “Jejum da mídia”. Por que Deus nos fala tanto em retiros e acampamentos, mas raramente no dia a dia? É ele quem deixa de falar, ou nós que deixamos de ouvir? Necessitamos de períodos de tempo sem distrações.

 

3) “Jejum do telefone”. Para atender ao telefone, interrompemos os momentos preciosos com a família e até as nossas orações! Tudo porque “pode ser importante”.

4) “Jejum de conversas”. Principalmente pastores, políticos e professores, que vivem pela sua facilidade com as palavras, precisam ter tempos de silêncio. No silêncio, ficamos desamparados e impossibilitados de justificar os nossos atos. Gandhi, no auge de sua atividade política pela independência da Índia, praticava um dia de silêncio por semana.

 

5) “Jejum dos anúncios comerciais”. O efeito deles é principalmente subliminar. Quando não é possível deixar de ver, que eles sejam para nós sinais de outra realidade, na qual o consumismo cede lugar ao serviço e à simplicidade de vida.

 

6) “Jejum do consumo”. Deixar de consumir para poder enxergar a realidade de um mundo de desigualdades quase inimagináveis. Para deixar de nos comparar sempre com os de cima, atiçando o desejo de adquirir, e nos comparar com os de baixo, colocando as coisas em suas devidas proporções.

 

Notas

1. GALILEA, Segundo. A sabedoria do deserto. São Paulo: Paulinas, 1985. p. 56.

2. WARE, Kallistos. The orthodox way. Oxford: Mowbray, 1979. p. 56.

3. GALILEA, Segundo. Op. cit., p. 57.

4. GRISBROOKE, W. Jardine, org. The spiritual counsels of father John of Kronstadt. Londres: James Clarke, 1966. p. 57.

5. FOSTER, Richard. Fasting: twentieth century style. TSF Bulletin, p. 14-16, nov./dez. 1983.

 

Texto retirado do livro Nem Monge, Nem Executivo (Editora Ultimato).

 

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá.

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