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Colunas — O Caminho do Coração

Desonestidade e autoengano

Ricardo Barbosa

 

Integridade, honestidade e transparência são virtudes que exigimos nos outros, mas nem sempre estamos dispostos a oferecê-las. Esperamos que os políticos, colegas de trabalho e cônjuges sejam íntegros, honestos e transparentes, mas nos recusamos a fazer o mesmo. Vivemos como um viciado que aprendeu a negar seu vício; temos nos iludido por tanto tempo a nosso respeito que a desonestidade e o autoengano se tornaram uma forma necessária de sobrevivência.

 

Os riscos que se encontram por trás do desejo sincero de ser verdadeiro, transparente, íntegro e autêntico são inúmeros. Talvez o maior deles seja o medo terrível da desaprovação e da rejeição. Por isso, escondemos nossos sentimentos, mascaramos nossas emoções, negamos nossos desejos e optamos pela superficialidade. Como resultado deste longo processo em que aprendemos a representar os papéis adequados à aceitação dos outros, tornamo-nos aquilo que não somos.

 

Sustentar um falso ser não é tarefa fácil. O falso ser está sempre adorando e servindo àquilo que alimenta seus desejos egoístas e autocentrados por meio da idolatria da possessão, posição e aceitação. Estes ídolos atuam como feitores e nós, mais cedo que imaginamos, tornamo-nos seus escravos. Somos emocionalmente dependentes, aprendemos desde cedo a usar os outros, incluindo Deus. Tornamo-nos manipuladores porque tudo precisa acontecer dentro dos termos que nossas carências determinam.

Jesus disse que “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Nossa cultura entende a liberdade em termos de “liberdade para” e não de “liberdade de”. Queremos ser livres para fazer o que quisermos, ir aonde quisermos, como também falar o que bem quisermos. Por essa razão, é comum confundir honestidade e transparência com dizer o que se pensa e faze o que se tem vontade, porém não se trata disso. Há uma grande diferença entre ser “livre para” e ser “livre de”. A Verdade nos liberta de nós mesmos, de nossos medos e inseguranças, de nossas necessidades de impressionar e agradar. Ela nos liberta da desonestidade, do autoengano e da ilusão de ser o que não somos.

 

Jesus veio para nos salvar de nosso pecado. Ele é a Verdade que perdoa, reconcilia e re-cria. Descobrir nosso verdadeiro ser requer de nós, antes de tudo, a redescoberta da graça salvadora de Jesus. Por outro lado, requer também a humildade necessária para reconhecermos o engano do falso ser. O processo é lento e, muitas vezes, doloroso. Precisamos orar como Davi: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.

 

Enquanto o orgulho não der lugar à submissão sincera, permaneceremos cheios de nós, usando as pessoas e Deus para obter vantagens e protegendo nosso falso ser daqueles que não dançam de acordo com nossa música. O resultado é um mundo cheio de seres falsos lutando para sobreviver sem a dependência radical de Deus.

 

Sabemos que isso não funciona. Só Deus conhece nosso coração. Só ele pode sondar as profundezas de nossa alma. Só ele nos ama com um amor fiel e eterno. Quando reconhecemos que somos amados por ele, perdoados por sua graça, feitos novas criaturas e participantes de sua natureza divina, abrimo-nos para dar lugar ao verdadeiro ser, redimido e transformado em Cristo. Não é fácil, mas é este o caminho. É possível ser honesto, íntegro e transparente, mas isso só em Cristo. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”

 

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja.

 

 

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