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Especiais — Especial

Carta de um pastor ao papa sobre o seu pedido de perdão aos protestantes e outros cristãos

Key Yuasa

Os recentes pedidos de perdão dos papas surpreendem e dizem algo sobre a difícil relação entre católicos e protestantes

 

São Paulo, 10 de fevereiro de 2016

 

Caro papa Francisco,

 

Com um sentimento de surpresa, contentamento e esperança, recebemos as suas palavras de pedido de perdão a representantes de outras religiões, incluindo cristãos protestantes e evangélicos, numa oração pronunciada na Basílica de São Paulo, em Roma, no dia de São Paulo, que corresponde aqui no Brasil ao aniversário de nossa cidade.

 

Na verdade vários sinais do seu pontificado têm chamado nossa atenção. Um exemplo é a escolha do nome Francisco, homenageando um dos grandes santos da igreja cristã, que lutou por uma vida mais simples, evangélica e santa não só ao povo cristão, mas também aos líderes, príncipes e ao próprio papa daquela geração. O seu modo de chegar às pessoas, vencendo a distância que através dos tempos se criou entre o povo e os líderes da igreja, honra o nome daquele que se sentia irmanado a toda criação de Deus. O senhor tem demonstrado em suas andanças pelo mundo, em seus encontros e em seus pronunciamentos que não há ser humano “estranho” e fora da alçada dos cuidados de Deus. E nós temos apreciado esse dom que Deus lhe tem dado. O senhor disse: “Como bispo de Roma e pastor da Igreja Católica, quero pedir por misericórdia e perdão por uma conduta não evangélica por parte dos católicos contra cristãos de outras igrejas.”

 

Estamos conscientes de que pedidos de perdão por parte do sumo pontífice da Igreja Católica Romana são fenômenos recentes em sua igreja e datam a partir do Concílio do Vaticano II, ao qual tiveram a amabilidade de convidar muitos observadores não católicos. Naquele Concílio, quatro eram os objetivos: a) melhor conhecimento da Igreja; b) reforma da Igreja; c) unidade dos cristãos; d) diálogo da Igreja com o mundo moderno.

 

Dentro desses objetivos, o seu predecessor o papa Paulo VI incluiu em sua homilia de reabertura do Conclave, em 29 de setembro de 1963, dirigindo-se especificamente aos mais de cinquenta observadores não católicos que estavam bem próximos do altar na Basílica de São Pedro, as seguintes palavras: “Naquilo em que nós temos a culpa pela separação, nós humildemente pedimos perdão de Deus, e também pedimos perdão aos nossos irmãos que se sentiram injuriados por nós”. E acrescentou: “De nossa parte, de coração perdoamos as injúrias que a Igreja Católica sofreu, e esquecemos as agonias sofridas durante as séries de dissenções e separações. Que o Pai celestial possa ouvir nossas orações e nos conceda uma paz fraternal verdadeira”.

 

Essas palavras surpreenderam não só os observadores ali presentes, mas também cristãos no mundo inteiro que tiveram acesso a essa informação. Era a primeira vez que ouvíamos palavras desse teor provindas do Vaticano. Mencionemos mais um antecedente.

 

O papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica Tertio Millenio Adveniente (25 de maio de 1995), em preparação para o Jubileu do ano 2000, pede aos líderes e aos povos da igreja que façam um exame de consciência e uma purificação da memória, confessando os erros que os filhos da igreja em outros séculos possam ter cometido.

Serviu de base bíblica, teológica e pastoral o trabalho encomendado pelo Cardeal Ratzinger a uma comissão internacional de teologia sobre o tema “A Igreja e as culpas do passado” em 1994. O resultado desse trabalho, um excelente documento intitulado Memória e Reconciliação: A Igreja e as culpas do passado”, é um verdadeiro tratado sobre por que pedir perdão, do que pedir perdão, a quem pedir perdão e como pedir perdão.

 

Voltando agora às suas palavras do dia 25 de janeiro de 2016, caro papa Francisco, o senhor disse: “Como bispo de Roma e pastor da Igreja Católica, quero pedir por misericórdia e perdão por uma conduta não evangélica por parte dos católicos contra cristãos de outras igrejas.”

 

Ao usar a expressão “cristãos de outras igrejas”, o senhor está reconhecendo a existência de cristãos e de igrejas além dos católicos romanos. A expressão “os irmãos separados”, ou mesmo “cristãos de comunidades cristãs”, reafirmaria o fato de que estaríamos sendo definidos a partir de um ponto de vista “da igreja verdadeira” (sede da verdade plena e da graça verdadeira de Deus).

 

“Por misericórdia e perdão por uma conduta não evangélica por parte dos católicos.” Ao utilizar essas palavras, o senhor está tratando outros cristãos e outras igrejas como sede também da graça, misericórdia e perdão de Deus. O senhor está dizendo: “Por favor, transmitam-nos a nós da Igreja Católica a graça, a misericórdia e o perdão de Deus, pois pecamos contra vocês”. Nisso sentimos autenticidade do seu pedido de perdão.

 

Pela expressão “condutas não evangélicas”, entendemos que o senhor está dizendo que a Igreja Católica pecou, por não ser mais evangélica. Entendemos que isso se refere a métodos, usados por vezes pela Inquisição, de violência física para extirpação da idolatria em comunidades não cristãs ou de heresias em pessoas das sociedades cristãs. Cremos que os protestantes e evangélicos podem unir-se à sua oração para pedir que todas as igrejas possam ser mais evangélicas na doutrina, na vivência de fé e na presença no mundo.

 

Ficamos muito felizes que dentro dos decretos do Vaticano II, no documento “De Ecumenismo -- Unitatis Redintegratio”, haja afirmações como as do parágrafo 6: “Toda renovação da Igreja consiste essencialmente em maior fidelidade à própria vocação. Esta é, sem dúvida, a razão do movimento para a unidade. A Igreja peregrina é chamada por Cristo a essa reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma”.

 

Essa expressão é paralela da expressão muito querida das igrejas oriundas da Reforma do Século 16, como o senhor bem sabe: “Ecclesia reformata, semper reformanda”.

Também nos agrada muito o fato de que esse documento incentiva os católicos a conhecerem melhor os cristãos protestantes e evangélicos, o seu amor e forte apego pelas Escrituras Sagradas, o seu batismo e a Santa Ceia, e a Cristo -- centralidade de sua espiritualidade e prática.

 

Nós também ansiamos por “um só rebanho e um só pastor”, como atesta o hino muito querido entre nós:


Um só rebanho, um só pastor

Uma só fé em um Salvador

É teu amor que nos une aqui

E num só Espírito adoramos a ti

 

Um só rebanho, um só pastor

Fruto, ó Senhor, desse teu grande amor

Só nos gloriamos na tua cruz

Louvado sejas, bendito Jesus

 

Um só rebanho, um só pastor

Sim, esperamos por ti, ó Senhor

É face a face que vamos ver

 

Quem nos amou e por nós quis morrer.


Papa Francisco, nós também ansiamos por ser um só povo, sob um só pastor. Mas temos dificuldade de acompanhar o ecumenismo católico romano, quando os senhores identificam esse pastor como o bispo de Roma. Para nós, esse pastor é Cristo Jesus, ressuscitado e presente entre nós até o final dos tempos.       

 

Muito obrigado pelo seu pedido de perdão. De nossa parte, o que pudermos perdoar já perdoamos de coração. Entendemos que o senhor estará presente na inauguração da celebração dos quinhentos anos da Reforma na Suécia, no dia 31 de dezembro de 2016 -- celebração essa que acontecerá no mundo inteiro até 31 de dezembro de 2017.

Agradecemos pelo seu esforço de chegar perto de nós. Rogamos a Deus que o senhor seja abençoado ricamente neste ministério irênico e de busca de comunhão fraternal em Cristo.

 

Com respeito e fraternal carinho,

 

Key Yuasa

 

• Key Yuasa é teólogo e pastor da Igreja Evangélica Holiness, em São Paulo, SP.

 

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