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Colunas — Ética

Paris: Cidade do Terrorismo e do Clima

Paul Freston e Raphael Freston

 

 

Como superar a dupla idolatria do mercado e do Estado?

 

Escrevemos este artigo num momento em que a cidade de Paris ocupa o noticiário: como palco de terríveis atentados que acabaram de acontecer e como sede da COP 21, a “Conferência do Clima”. Sintetizam talvez as duas questões globais mais prementes da nossa época.

 

Após os ataques terroristas de janeiro em Paris, publicamos o artigo Os atentados na França em quatro princípios bíblicos. Após os ataques de novembro, queremos insistir nesses mesmos princípios, sobretudo o primeiro deles, que trata da culpabilidade.

 

O chamado Estado Islâmico (EI), pressionado em sua capacidade de expandir-se territorialmente (expansão essa que faz parte da justificativa de sua reivindicação ao califado), decidiu adotar uma tática mais comumente associada à Al Qaeda: atacar o “inimigo distante”, ou seja, o Ocidente.

 

O objetivo principal do EI, ao lançar esse ataque, era provocar reações impensadas dos governos e sociedades ocidentais, confirmando as duas meta-narrativas da visão de mundo do EI: a de um inevitável “choque de civilizações” e a do apocalipticismo islâmico que prevê a derrota de um exército ocidental na Síria no contexto de “fim dos tempos”.

 

Uma das reações ocidentais impensadas que desejaram provocar foi a generalização da culpa, ou pelo menos da suspeita, prejudicando assim a vida diária das minorias muçulmanas no Ocidente e a recepção de refugiados vindos dos países de maioria islâmica.

 

Ainda não está claro se alguns dos terroristas de Paris chegaram à França no imenso fluxo de refugiados. Mas tudo indica que a maioria dos terroristas nasceu na Europa. Portanto, querer punir todos os mais de 750 mil refugiados que chegaram à Europa em 2015 por causa de um, ou dois, ou três no meio deles que porventura tenham cometido atos terroristas é tão ilógico quanto querer expulsar os milhões de cidadãos muçulmanos nascidos na Europa por causa de seis ou sete terroristas entre eles. Os políticos que fizeram comentários hostis aos refugiados, como alguns europeus e governadores de Estado americanos e candidatos à presidência, pelo menos têm a desculpa do pragmatismo eleitoral. Uma desculpa que não se estende aos cristãos que defendem tais medidas antirrefugiados, as quais são tão ilógicas e desumanas quanto anticristãs.

 

Falaremos em outra ocasião sobre as outras reações impensadas aos ataques do EI. Mas, por enquanto, Paris está no noticiário por outro motivo: a conferência sobre a mudança climática. A gritante necessidade de agir nessa área (de novo, lamentavelmente negada por alguns cristãos em outra demonstração de falta de lógica e de valores bíblicos) nos leva à revalorização de um grande pensador esquecido do século 20, Karl Polanyi.

 

O grande livro do húngaro Polanyi, “A Grande Transformação”, foi uma poderosa crítica da crença de que a economia pode e deve ser organizada por meio de mercados autorregulados. Ironicamente, seu livro foi publicado em 1944, o mesmo ano de “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, o grande defensor austríaco do neoliberalismo. A obra de Polanyi tem recebido redobrada atenção depois da crise financeira de 2008.

 

O livro de Polanyi é uma descrição da grande transformação das sociedades ocidentais do mundo pré-industrial para a era industrializada e das mudanças ideológicas e políticas que a acompanharam. Uma das principais teses de Polanyi é que os mercados autorreguláveis nunca funcionam e que suas deficiências são tantas que a intervenção estatal se torna necessária.

 

O cerne dessa ideia é que as economias nunca são verdadeiramente autônomas, mas sempre sujeitas à política e à sociedade. Polanyi argumenta que, para criar uma economia de mercado puramente autorregulável, as pessoas e o meio ambiente necessitam se tornar mercadorias puras, o que garante a destruição tanto da sociedade quanto do meio ambiente. Este argumento repousa numa importante distinção que Polanyi faz entre mercadorias reais e fictícias. Uma mercadoria é algo produzido para a venda no mercado. Por essa definição, a terra, o trabalho e o dinheiro são mercadorias fictícias porque não são originalmente produzidas para serem vendidas no mercado. Mas a economia moderna parte da premissa de que essas mercadorias fictícias se comportarão da mesma forma que as mercadorias reais. Esse golpe de mágica, insiste Polanyi, tem consequências fatais.

 

 

“A Grande Transformação”, porém, não é uma defesa do socialismo de Estado, o qual também destrói a autonomia da cultura cívica e a liberdade da sociedade civil, e historicamente (no bloco soviético) teve consequências desastrosas para o meio ambiente. Polanyi demonstra que a tendência moderna de colocar Estado e mercado em oposição um ao outro é uma ilusão.

 

Polanyi também traça uma crítica moral: é impossível conciliar as dimensões transcendentais do ser humano e da natureza com a subordinação do trabalho e da natureza ao mercado. Nisso, Polanyi antecipa muitos dos argumentos dos ambientalistas contemporâneos.

 

Ao escrever estas linhas, não sabemos o que vai sair da conferência de Paris. O que muitos “experts” afirmam é que não conseguiremos mudar substancialmente o “clima” sem uma mudança substancial de “mentalidade”, de “visão de mundo”. A mudança climática não será resolvida sem perturbar o “status quo”, porque ela é, em si, um produto do “status quo”. É preciso desafiar um problema estrutural: nossa economia é construída na promessa do crescimento ilimitado, o que é incompatível com a preservação do meio ambiente e com a dignidade do ser humano.

Em linguagem teológica, isso significa superar a dupla idolatria: do mercado e do Estado. Significa aplicar o grande princípio de Marcos 2.27: “O sábado [mercado/Estado] foi feito para o ser humano, não o ser humano para o sábado [mercado/Estado]”. As decisões a respeito de “quanto Estado e quanto mercado” não devem ficar reféns de preferências ideológicas, mas devem ser medidas pelo único “fim em si mesmo”, que é o ser humano. E não haverá ser humano sem meio ambiente saudável!

 

• Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na “Balsillie School of International Affairs” e na “Wilfrid Laurier University”, em Waterloo, Ontário, Canadá.

 

• Raphael Freston é mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo e foi membro da diretoria nacional da ABUB (Aliança Bíblica Universitária do Brasil).

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