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Colunas — Caminhos da Missão

Caminhando rumo à África, fomos parar na Amazônia

Cácio Silva

 

 

Parece que foi ontem, mas já se passaram vinte anos no caminho da missão. Foram exatos dez anos de preparação pré-campo, envolvendo estudos e paralelamente exercício pastoral, ministério de misericórdia, mobilização, ensino e experiências interculturais de curto prazo. Eu tinha certeza absoluta de que iríamos para a África e por seis anos sonhamos com esse campo. Tínhamos o povo não alcançado, o projeto bem traçado, uma equipe nos esperando e uma igreja pronta a nos enviar, porém nas últimas de finais fomos parar entre indígenas da Amazônia e lá estamos há dez anos, com plena segurança quanto à direção de Deus. Concluí que nessa fase três fatores devem ser sincronizados: chamado, direção e tempo. O chamado tem a ver com ministério, dons, quem somos no corpo de Cristo, nossa identidade, e é irrevogável. A direção tem a ver com lugar, povo, país, e é variável. O tempo tem a ver com o momento de dar o passo, envolvendo geralmente preparação, teste, amadurecimento, e é pontual.

 

Nesses rápidos dez anos de campo, permitiu o Senhor nos envolvermos em diferentes ações. Análise linguística e educação intercultural bilíngue, indo desde a grafia de uma língua e produção de materiais didáticos à organização de escolas e assessoria a professores indígenas. Evangelização e plantio de igrejas, tanto no interior da floresta quanto entre indígenas em urbanização, indo desde a análise de uma cultura e evangelização à formação de liderança e tradução de porções bíblicas. Por fim, nos envolvemos também com coordenação de equipe missionária, indo desde recepção de novos e introdução ao campo à elaboração de estratégias e supervisão ministerial. Cheguei a algumas conclusões preliminares.

 

Antropológica: indígenas são mais parecidos conosco do que imaginamos e o suprassumo de muitas de suas exóticas culturas é surpreendentemente similar às culturas mais secularizadas. Se carecemos da redenção, eles igualmente carecem, pois somos todos iguais.

 

Missiológica: missão sem proclamação efetiva será sempre parcial. Bons projetos humanitários promovem justiça social e sustentabilidade, no entanto somente Jesus transforma o coração do homem.

 

Estratégica: essa geração missionária carece no campo de comunhão, pois temos forte necessidade de interação, troca de ideias e encorajamento mútuo. De acompanhamento pastoral, pois somos mais vulneráveis a adoecimentos emocionais e profundamente testados pelos relacionamentos interpessoais. E de supervisão ministerial, pois somos multifocais e marcados por descontinuidades, facilmente perdemos o foco e ficamos nas periferias do ministério, somos autônomos e com isso trabalhamos muito ou pouco, podendo ser muito produtivos, mas pouco efetivos.

 

Por fim, uma conclusão pessoal: o maior desafio no campo não é aprender línguas complexas, compreender culturas estranhas, adaptar-se ao meio, enfrentar restrições políticas e lidar com pessoas difíceis. O maior desafio é enfrentar as mazelas do próprio coração. Por isso, o campo missionário é um desafio, pois é onde ficamos mais vulneráveis, expostos. Mas também, um privilégio, pois Deus poderia fazer tudo sem qualquer um de nós, porém ele quis nos envolver nesse fantástico projeto de redenção começando em nós mesmos.

 

Cácio Silva é pastor presbiteriano e missionário da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) e da Missão WEC entre indígenas da Amazônia.

 

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