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Colunas — Da linha de frente

Livres como Sacis

Bráulia Ribeiro

Volto ao tema da cultura brasileira e peço licença para “dar um pulinho” no território dos mitos e das lendas. Eles nos ensinam muito sobre nós mesmos. O ser humano precisa de metanarrativas. O dia a dia com sua pequenez não nos é suficiente. Precisamos do grande “por quê?”, do “o que?” ou do “quem?”, além de mim mesmo. Mitos funcionam provendo para a sociedade essas narrativas que completam a realidade com os ideais e os sonhos.

O Brasil tem muitos mitos, lendas, histórias de visagens e assombrações que alimentam nossa alma cultural. Quem não conhece a lenda do Saci? Quando vivi na Amazônia, o Saci se transformou no Matintapereira e até no Mapinguarí, maior e mais apavorante que o sacizinho mineiro.

O Saci serviu a vários propósitos na sociedade do Brasil escravagista. Ele simboliza o brasileiro, negro, livre, saltitando pelas matas. Ele proveu para o escravo, o mazombo, o mulato, o cafuzo -- todos oprimidos por um sistema que lhes deixava ocupar apenas as margens --, uma metanarrativa de alforria, de domínio do que devia pertencer-lhes. O Saci é livre, mas a liberdade lhe custou uma perna. Usa piléu romano, gorro vermelho semelhante ao frígio, presente em muitas lendas de Duendes na Europa. O piléu quando colocado na cabeça de um escravo significa que ele está liberto. A cor vermelha se refere ao sangue. O interessante é que o mito pagão assimila um simbolismo cristão: debaixo do sangue o escravo é livre.

O Saci nos transmite a ideia que o brasileiro criou sobre o que seja a liberdade. Ele aparece e some num redemoinho, se transforma em ave, em bicho, não obedece a ordem alguma, prega peças em todo mundo divertindo-se à custa de atormentar os outros. Porém, como diz Ruth Botelho, a pesquisadora que se autodenominou “caipira” profissional, o Saci pratica um “tormento” benéfico, brincalhão, que não destrói nem mata ninguém. Por que entes míticos, duendes e anjos? É que Deus Pai não apela ao coração do Brasil colonial. O pai não é nem presente nem amoroso. Portanto estes seres paralelos -- duendes, santos e demônios -- dominam o universo metafísico e norteiam os sonhos e a moral do colono.

Que liberdade é essa escondida na filosofia perene do mito do Saci? O Saci quer a liberdade no sentido absoluto. A mágoa do desamor e do abandono cria o desejo da liberdade total. Se não me amam, não me nutrem e não me respeitam, eu quero distância, desapego. Liberdade absoluta só existe no contexto da solidão. E tudo na alma do brasileiro colonial o levava a desejá-la. Ele não conhecia o conceito de família, nem de comunidade. Nas propriedades rurais quem não era senhor era escravo. Companheirismo e construção de uma sociedade de iguais não eram parte de sua perspectiva de vida. Assim nasce nossa alma, sufocada de solidão, desprezada, desesperada por ser como o Saci, livre de responsabilidades, de vínculos, desaparecendo como um pássaro, num redemoinho, mas se fazendo presente aqui e ali, pregando peças, causando desconforto para que alguém talvez se lembre de nós.

As passeatas e manifestações do Brasil de hoje me lembram dessa liberdade do Saci, gravada a ferro e fogo no nosso inconsciente. Descobrimos que somos livres para ditar nosso futuro político, para mostrar ao “maldito” governo que estamos insatisfeitos. Porém, queremos a liberdade absoluta e burra que se autossabota. Quebramos os ônibus dos quais precisamos, as lojas que sofremos para construir, saqueamos os supermercados onde fazemos nossa compra da semana. Alcançamos a “liberdade” irrestrita de “cidadãos” que todos sentem que têm de defender em nome da democracia. Democracia nada. A liberdade verdadeira é responsável. A quebradeira indiscriminada é anárquica, doente, e no fundo espera uma resposta tirânica.

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona no Havaí com sua família, e está envolvida em projetos de tradução da Bíblia nas ilhas do Pacífico. É autora de Chamado Radical e Tem Alguém Aí em Cima?. Acompanhe seu blog pessoal.

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