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Colunas — Cidade em foco

Templo urbano: lugar e não lugar

Jorge Henrique Barro
 
É comum ouvirmos que, se alguém deseja matar a missão, deve construir templos. De fato, temos exemplos no Brasil de igrejas que abriram mão dos templos tradicionais e se estabeleceram em outros lugares (tendas, hotéis, escolas), ganhando assim uma “cara” de peregrinas. 
 
É a igreja que define a missão ou a missão que define a igreja? Os templos hoje, em sua vasta maioria, estão a serviço da missão ou a missão está a serviço dos templos? A ênfase maior é de fora para dentro ou de dentro para fora? Espera-se que a igreja vá até as pessoas ou que as pessoas venham até a igreja? As respostas a essas perguntas passam pelo entendimento do papel e da função do templo. 
 
Segundo o etnólogo francês Marc Augé, criador do importante conceito sociológico de “não lugar”, o “lugar” possui três dimensões: identitária, histórica e relacional. Diferentemente dos “não lugares”, os “lugares” são caminhos e não estradas. Os “lugares” são ambientes de pertencimento, enquanto que os “não lugares” são espaços de acesso, movimento, trânsito, passagem, como aeroportos, bancos, shoppings e supermercados. Nestes, a pessoa é cliente, consumidor, passageiro, ouvinte. Trata-se de uma relação individual. Para Augé, o “lugar antropológico simbólico” é marcado pela identidade (sua pessoalidade), pela relação (seu grupo social) e pela história comum (seu destino). O “não lugar”, por sua vez, caracteriza-se pela ausência desses símbolos. Negar o lugar é negar esses símbolos.
 
Ao pensarmos nos templos urbanos, como caracterizaríamos esse espaço? Ao longo dos séculos, a igreja de Cristo se distinguiu pela ênfase pessoal, comunitária e missionária, ou seja, a identidade dela estava voltada para a pessoa, a relação com o próximo e o compromisso com a missão no mundo. Em nossos dias, pastores e líderes não enfatizam mais a relação de membro, mas de cliente; não mais de serviço, mas de consumo; não mais de missão, mas de prosperidade; não mais de corpo de Cristo, mas de indivíduos sedentos por bênçãos. Essas inversões simbólicas podem acelerar o processo de transformação da igreja de lugar em “não lugar”. A igreja “não lugar” deixa de ser caminho para se transformar em autopista de indivíduos que querem sair de um ponto a outro. Ela corre o risco de se tornar um espaço de passagem impessoal, individual, “marketeiro”, vendedor de bens e consumos espirituais. Que diferença faz para uma pessoa entrar em uma igreja ou em um supermercado, se em ambos ela é um cliente?
 
É notório que alguns templos estão se modernizando, se remodelando, criando novas fachadas, e que outros estão sendo construídos com “novas caras” e alta tecnologia. Quanto mais luxuosos e requintados eles se tornam, mais proibições e regras aparecem quanto ao modo de utilizá-los. Alguns pensam no templo mais como lugar de se fazer casamentos, celebrações, que como local para se receber os pobres, destituídos e miseráveis. Como é fácil deturparmos os propósitos de Deus para nossos templos: “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Mas vocês fizeram dela um covil de ladrões” (Mc 11.17). De casa de oração para casa de malandros -- que tragédia! E como há ladrões e mercadores eclesiásticos hoje. 
 
Qual a finalidade de um templo no meio da cidade? A missão força o templo a abrir suas portas; a omissão, a fechá-las. O tempo todo, Jesus tentou mostrar aos discípulos as pessoas e suas necessidades. Certa vez, quando ele saía do templo, os discípulos se aproximaram dele para lhe mostrar as construções do templo (Mt 24.1). Do que os fazia ficar admirados, em breve não restaria pedra sobre pedra (Mt 24.2). Ele lhes disse: “Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei” (Jo 2.19). Um novo templo estava emergindo na cidade: o “santuário do seu corpo” (Jo 2.21). A missão sai de uma geografia estática para vidas dinâmicas. Será que, como os coríntios, nos esquecemos ou ainda não nos conscientizamos de que somos “santuário [templo] de Deus e que o Espírito de Deus habita em nós? (1Co 3.16-17). Quando o Espírito Santo desce, ele enche de poder esse novo santuário sagrado, que somos nós. O templo se fez povo. Este é o templo que o mundo urbano precisa ver e admirar -- as pedras vivas (1Pe 2.5). E é melhor nos acostumarmos, pois após o city tour que João fez na Nova Jerusalém, ele relatou: “Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo” (Ap 21.22). Se somos santuário sagrado no meio da cidade e para a cidade, certamente seremos sempre lugar para que a graça e o amor de Deus possam ser manifestados. 
 
Jorge Henrique Barro • é professor da Faculdade Teológica Sul Americana e presidente da Fraternidade Teológica Latino Americana (continental).

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