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Colunas — Reflexão

Conflito de símbolos e mandato cultural

Robinson Cavalcanti
 
O panorama religioso do mundo mudou profundamente nas últimas décadas, após o fim da Guerra Fria: de um lado o “mundo livre”, ou a civilização ocidental e cristã, e de outro os “inimigos” do império soviético -- em um esquema maniqueísta. Há sinais de vitalidade religiosa em áreas do antigo regime marxista, bem como de declínio religioso em áreas da antiga “civilização ocidental”. Esta está cada vez mais ex-cristã, pós-cristã e anticristã. Há bolsões de repressão religiosa no que resta de países comunistas, mas o fato novo -- e preocupante -- é o florescimento de partidos e movimentos hinduístas, budistas e islâmicos extremistas advogando o fim da separação entre religião e Estado e afirmando suas nacionalidades pela vinculação à religião. E, ainda, a consequente discriminação contra as demais religiões, notadamente o cristianismo. 
 
Uma revista brasileira de circulação nacional, em recente reportagem, mostrou a crescente perseguição aos cristãos em amplas áreas do globo. A Inglaterra, ex-celeiro de missionários, é o epicentro do secularismo anticristão no Ocidente, que vai rapidamente se espalhando. É considerado normal para um judeu ortodoxo usar um solidéu, para uma islâmica, um véu, para o sikh, um turbante, porém, o uso da cruz vai sendo banido, tido como “ofensivo” para a sociedade secularista (multiculturalismo + politicamente correto + agenda GLSBT). A periodização histórica em “antes de Cristo” e “depois de Cristo” vai sendo substituída pelo antes e depois da “Era Comum”. Ministérios estudantis, como a ABU (Aliança Bíblica Universitária), vão sendo restringidos, por apresentarem apenas um caminho de salvação e um modo de se viver a sexualidade. Nos Estados Unidos se proíbe a Tábua da Lei em tribunais ou o uso da saudação “Feliz Natal” (deve ser dito apenas “boas festas”). E os símbolos cristãos (cruz, peixe, alfa e ômega, cordeiro) vão sendo varridos dos espaços públicos. É proibido, ainda, o uso do argumento religioso na esfera pública. Os cristãos ocidentais vão sendo empurrados para um gueto, com sua fé restrita às suas consciências, lares e templos, sem relevância histórica ou influência social. 
 
O ódio secularista se dirige, prioritariamente, ao monoteísmo de revelação, visto que este afirma conceitos e preceitos morais tidos como preconceitos por uma sociedade relativista, amoral e hedonista. Enquanto isso, o Islã -- financiado pelos “petrodólares” 
-- vai construindo enormes e visíveis mesquitas no Ocidente, para onde emigraram, e em países periféricos onde atuam, com a torre de seus minaretes nos lugares mais altos, em uma afirmação de influência e de poder. 
 
O conflito político-ideológico-econômico vai sendo substituído por um conflito de símbolos religiosos, como expressão mais tangível do que já foi denominado de “choque de civilizações”, pois por trás dos símbolos há valores e estilos de vida com profundos desdobramentos para os povos. Enquanto isso, nós cristãos somos ensinados que a humanidade tem um mandato cultural que foi maculado pelo pecado original e que é dever da Igreja recuperá-lo segundo o ideal do Criador, ao promover os valores do reino de Deus, o direito natural e o bem comum. Também aprendemos que devemos fazer isto como mensageiros, missionários, evangelistas, embaixadores, sal e luz, não de uma cristandade político-militar ou teocrática, mas como uma comunidade afirmadora da soberania de Deus sobre a história e do reinado do singular Jesus Cristo sobre as nações -- o que implica uma evangelização das culturas chamadas à transformação segundo o projeto do Senhor e o caráter de Cristo. Todas elas estarão um dia diante do Cordeiro. O próximo momento da história será, sem dúvida, um conflito de símbolos (hoje já proibidos ou restringidos). 
 
O bispo anglicano Julian Dobbs tem mostrado a necessidade urgente e imperiosa de uma ampla campanha para que o povo cristão use uma cruz ou outro símbolo cristão como adereço (cordões, lapelas), e os clérigos, o seu colarinho ou outra expressão exterior da sua condição, como forma de identificação, afirmação, resistência e testemunho. Nesse sentido, o protestantismo latino-americano, com sua radical iconoclastia, rejeitando toda beleza, arte plástica e símbolos na adoração (arquitetura e decoração de templos, vestes clericais etc.) -- associando-os equivocadamente com a idolatria ou com a Igreja Romana --, dá um tiro no pé, tornando-se “inocente útil” dos adversários, despreparado e fazendo gol contra. 
 
O secularismo, que quer varrer os nossos símbolos para varrer nossa presença e influência, e o Islã, que quer afirmar os deles -- bem como sua hegemonia mundial --, agradecem. Ou o protestantismo latino-americano (e brasileiro) iconoclasta -- presentista e informalista -- permite que Deus o cure dessa enfermidade espiritual imatura, para ir além do discurso ou do show, resgatando uma rica herança, um patrimônio de toda a cristandade, ou vamos ter uma ausência de protagonismo, ou um protagonismo negativo no próximo capítulo da história da civilização e na história da igreja. A Bíblia, a história, a antropologia cultural e a psicologia social ajudariam neste salto de qualidade.
 
• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica, A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada e “Anglicanismo -- identidade, relevância, desafios”. www.dar.org.br

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