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Seções — Altos papos

Trabalho, fé e desafios

Como jovens cristãos enfrentamos constantemente diversos desafios relacionados ao trabalho: ser aprovado em um processo seletivo; identificar-se com uma área de atuação específica; ganhar o suficiente para manter um novo núcleo familiar; mudar de cidade pelo emprego; suportar afronta de colegas; erguer uma nova empresa; dar conta da sobrecarga de atividades. Diante deles, como permanecer firmes na fé? Faz-se necessário abraçar uma visão bíblica do significado do trabalho para os fiéis em Cristo.

Qual é o sentido do trabalho, apontado pela Bíblia, para os cristãos? Qual é a importância dele para aqueles que, uma vez chamados e justificados, esperam com fé que sua glorificação seja manifesta? Se já têm a garantia de que, quando Cristo voltar, estarão para sempre com o Senhor, para quê enfrentar os desafios de trabalho antes deste tempo chegar?

Alguns dos cristãos de Tessalônica, aparentemente devido à expectativa da volta de Jesus, não mais quiseram trabalhar (2Ts 3.11). A maneira como lidaram com os desafios do trabalho foi simples: supressão. Para eles, não havia nenhum sentido para o trabalho na vida do cristão. A resposta de Paulo a esse comportamento foi categórica: “(...) se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2Ts 3.10). O apóstolo apresenta, nesse contexto (3.6-12), algumas razões pelas quais o cristão deve trabalhar, a despeito dos desafios enfrentados: não se tornar pesado a outros, em termos de sustento; dar exemplo a ser imitado; fazer coisas úteis; e obter o seu próprio pão.

Agregam-se a estas os motivos mencionados na carta anterior: expressar amor a quem recebe, ainda que indiretamente, os benefícios do trabalho (1Ts 2.6-12); evitar a intromissão desordeira na vida alheia (1Ts 4.11; 1Tm 5.13); não dar ocasião para a maledicência por parte dos descrentes no que diz respeito à conduta (1Ts 4.12a); e, novamente, liberar os outros do peso do sustento (4.12b). Na carta aos colossenses, Paulo destaca uma motivação ainda mais fundamental: trabalhar como se servindo a Cristo, pois, de fato, é dele, em última instância, que receberemos o eterno galardão (Cl 3.17, 23, 24). Portanto, negar o trabalho, suprimindo seus desafios, não é uma opção bíblica para o cristão.

O extremo oposto também não é uma alternativa: afirmar irrestritamente o trabalho, acrescentando para si desnecessários desafios. (Basta lembrar a separação instituída por Deus desde a Criação de um a cada seis dias para descanso.) Lidar com o trabalho sem impor limites pode ser o resultado tanto da ansiosa preocupação com o suprimento das necessidades futuras (Mt 6.24-34) quanto do amor pelas coisas supérfluas deste mundo (1Tm 6.7-10). No primeiro caso, o trabalhar desmedido torna-se uma exteriorização da insegurança no cuidado providencial de Deus; no segundo, expressa infidelidade ao Senhor, pelo apego a valores transitórios, como dinheiro, poder e conhecimento (Jr 9.23, 24; Mt 6.19-21).

Devemos, portanto, entender o trabalho como meio de servir a Deus e ao próximo e enfrentar com fé seus desafios, diante dos benefícios que ele proporciona. Contudo, não podemos assumi-lo indiscriminadamente, com a inquietação e a ganância de quem não confia tanto assim na provisão de Deus nem está tão disposto a derrubar os altares idólatras ainda presentes em seu coração. Que ao menos a cada seis dias relembremos a visão bíblica do trabalho e abracemos na semana porvir suas implicações libertadoras!

Jonathan Simões Freitas, 26 anos, casado com Thalita, é doutorando em administração e pesquisador pela UFMG.

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