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Colunas — Da linha de frente

O rei está nu

Bráulia Ribeiro

O Ocidente está adoecido pelo ódio a si mesmo. Olhamos para nossa história, para o produto de nosso progresso, para nossa sociedade, e não gostamos do que vemos. O rei está nu. A utopia política do início do século passado se tornou uma experiência vergonhosa de domínio de poucos sobre as massas. As mentiras sobre superioridade racial em que acreditamos se transformaram em sangrentos genocídios. O capitalismo que iria permitir ao proletariado qualidade de vida se tornou um monstro de produzir riquezas, que nos engole sem piedade. As propostas religiosas se emaranharam promiscuamente a qualquer ideia que pagasse mais. Enfim, demos com os burros n’água vez após vez. Desiludimo-nos e nos odiamos. Precisamos de uma nova gênese.

Por causa disso, olhamos para os índios isolados com uma esperança “rousseauniana”. Serão eles nosso renascimento? No Google você encontra nas referências sobre a tribo Zoé, que vive entre o Pará e o Amazonas, esse tom religioso. Pesquisadores e cineastas franceses veem neles a esperança de um renascimento para a humanidade. Porém, como todas as outras, os Zoé são apenas uma tribo brasileira pequena tentando sobreviver. Foram contatados pela Missão Novas Tribos do Brasil na década de 80. Foram conduzidos com cuidado do isolamento a um estágio intermediário, em que recebiam ajuda da Missão para as necessidades básicas.

O isolamento por si só não garante a sobrevivência de nenhuma tribo, ao contrário do que dizem os sertanistas. Massacres de tribos isoladas inteiras, causados por contaminações de doenças, por seringueiros, madeireiros ou outros predadores amazônicos, ou até por guerras entre tribos ou clãs, acontecem com frequência.

Voltando à história dos Zoé, a Missão acabou sendo expulsa da área. Os Zoé eram bonitos e puros demais para ficarem em contato com uma missão. Afinal, ela institucionaliza tudo o que mais odiamos no Ocidente: sua religião. A religião cristã continua pregando o que mais queremos esquecer, continua representando no mundo acadêmico moderno a cristalização dos valores que nos tornaram (entenda aqui a ironia) capazes de criticar aquilo que somos. Fora com eles.

A missão deu lugar aos “humanistas” da Funai. Verbas internacionais vieram e o projeto Zoé se tornou modelo. Um hotel de selva foi construído em frente à aldeia. Tudo o que dava acesso a outro mundo foi retirado. Eles passaram a viver numa ilha de selva virgem vigiada apenas por observadores bem-acomodados. Os vídeos na internet que retratam a tribo são lindos, feitos com equipamento de alta qualidade só possível devido ao conforto e à tecnologia oferecidos pelo hotel/observatório. A tribo “virgem” agora se torna entretenimento de turistas de alta classe, uma espécie de zoológico humano servindo ao voyerismo de antropólogos e cineastas estrangeiros.

Suprema ironia. Os selvagens são mantidos escravos por causa de sua pureza. Vistos de longe, os Zoé são “na’vi” azuis andando por Pandora com rabos longos, etéreos, perfeitos. De perto, são um povo escravo de um idealismo que não inventaram. Presos a um paleolítico circunstancial, são impedidos de mudar. Não são humanos, não são cidadãos, não são nem índios brasileiros. São uma metáfora internacionalizada do ódio de nossa cultura por si mesma.

O problema é que, não sabendo disso, eles fugiram de seu paraíso terrestre. Em outubro de 2010, os Zoé fugiram para pedir ajuda aos castanheiros locais e ao mundo. Num vídeo tosco filmado por um dono de castanhal, os índios se expressam em português fluente: “A gente quer coisa. A gente quer panela, faca, anzol. A gente quer ter o que os Tirió tem. Funai não dá nada pra nós não, mas a gente quer”.
Tradução? Os Zoé estão dizendo: “A gente quer parar de ser uma coisa, a gente quer ser gente, vocês vão permitir?”.

Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.
braulia.ribeiro@uol.com.br




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