Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Reflexão — Robinson Cavalcanti

Lausanne: o olhar de um veterano

Chego para o Congresso Lausanne 3 e percebo que sou o único remanescente da delegação brasileira presente em Lausanne 1 (1974), na Suíça: uma parte da bancada já está na glória e a outra veste merecido pijama... Alguns poucos estiveram em Lausanne 2 (1989), em Manila, Filipinas. A cada congresso foi aumentando a nossa representação dos ministérios da “base” e escasseando os presidentes de denominações ou secretários de missões, pois o casamento do modelo de “superstar” norte-americano com o velho caudilhismo latino-americano tem, cada vez mais, fragilizado as instituições e fortalecido os líderes movidos a holofotes, que aparecem somente para pontificar e “brilhar”, nunca para compartilhar e aprender, pois humildade é uma virtude cada vez mais escassa. O Movimento Lausanne foi precedido pelo Congresso de Berlim (1966) e pelos congressos continentais de evangelização, como o CLADE 1 (1969), em Bogotá, Colômbia, motivados pela revista “Christianity Today”, dirigida por Carl Henry, e a Associação Evangelística Billy Graham. Havia então um mal-estar generalizado entre as lideranças mais lúcidas com a herança das polarizações “liberalismo” versus “fundamentalismo”, “evangelho social” versus “evangelho individual”, que infelicitaram os Estados Unidos no início do século 20, rasgando e parcializando o todo da mensagem bíblica, com efeitos deletérios no campo missionário, e pelo aparente triunfo do liberalismo e do evangelho social no Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em um desvio dos sonhos originais do movimento ecumênico representado pela Conferência de Edimburgo (1910), na Escócia. O que se pretendeu foi uma retomada da prioridade à Grande Comissão, aos postulados históricos do evangelicalismo: autoridade das Escrituras, centralidade do sacrifício na cruz, conversão e imperativo missionário. O evangelho em sua totalidade deveria se dirigir ao todo da pessoa humana, e “de todas as nações para todas as nações”. Lausanne 1 foi denominado pela revista “Time” “o Concílio Vaticano dos evangélicos”, e o seu documento final, o Pacto de Lausanne, deliberado soberanamente pelo plenário, após várias redações por uma comissão do mais alto nível, presidida pelo teólogo anglicano John Stott, foi tido como o mais importante documento confessional da Igreja após o Credo dos Apóstolos e a Confissão de Westminster. O evento alcançou êxito porque foi transformado em um movimento de reflexão teológica e de mobilização missionária, mudando o curso da história da igreja desde então, com um acervo notável de encontros, textos e projetos. Os evangélicos readquiriram autoestima, iniciativa e hegemonia no cristianismo reformado internacional. O Congresso Lausanne 2, em Manila, por sua vez, foi por mim denominado “um passo atrás e um passo à direita”, em virtude do esvaziamento de uma liderança multinacional compartilhada pelo comando centralizado anglo-saxão (desde o Congresso de Amsterdã, em 1983), em que uma ala mais “conservadora” do evangelicalismo fazia fronteira com o fundamentalismo, era influenciada pela Guerra Fria, refletia as ideologias e os interesses do centro do poder mundial, tinha barreiras com o uso instrumental das ciências humanas e com um compromisso social a partir do evangelho. No Brasil, o Movimento Lausanne não foi inicialmente bem recebido, tido como “moderado” pelos mais extremados e como “extremado” pelos mais moderados, sinalizando o lamentável grau de polarização teológica/ideológica que vivíamos após o Golpe Militar. Porém, desde 1970 que, em âmbito continental, fora organizada a Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), celeiro do evangelicalismo progressista, que muito influenciara o Movimento Lausanne e por ele seria influenciado. O Pacto de Lausanne continuou a ser valorizado e o “espírito de Lausanne” nunca morreu, embora o Movimento tenha sofrido certo esvaziamento nas décadas finais do século passado e início do presente. O Congresso Lausanne 3, com as suas limitações, como a escassa presença latino-americana, ou a ausência de conferências de peso sobre novos desafios (como a questão ecológica, por exemplo), foi, em muitos sentidos, uma encorajadora retomada das propostas originais. O número de países representados foi o maior. A nova geopolítica internacional afetou favoravelmente a geopolítica eclesiástica, com a disseminação do cristianismo por novas áreas do globo, a despeito de restrições e perseguições. O cristianismo é hoje uma religião mundial e ascendente, apesar da crise do espaço euro-ocidental. O envio de missionários não é mais monopólio dos países anglo-saxões, mas uma responsabilidade de todos, inclusive do Brasil. A Reforma Protestante está viva, o evangelicalismo (malgrado seus muitos “senões”) pulsa em dinamismo. Como um veterano de 36 anos de militância, volto de Lausanne 3 atualizado, motivado e encorajado para prosseguir com as velhas (e eternas) bandeiras, até o pijama e até a glória...

Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo -- desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br



Assine Ultimato. Receba a sua revista em casa e leia primeiro também a edição online.

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.