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Cinco lições de Lausanne 3

1. Não dá para cumprir o chamado missionário sem o árduo esforço da unidade

Uma igreja desunida é uma igreja com pouca relevância, que não sente profundamente a dor do outro, não enxerga as chagas do próximo. Seu ensino sobre a vida parece frio e superficial, porque seu olhar é fechado em si mesmo. Essa verdade é relevante tanto para as igrejas locais -- que precisam desenvolver ações em parceria que proclamem com mais consistência o evangelho da reconciliação --, quanto para a chamada “igreja global” -- que precisa, por exemplo, olhar com mais compaixão para os cristãos que vivem em contextos de evidente perseguição religiosa.

Lausanne 3 dedicou o último dia à temática “parcerias”. Porém, foi nos momentos mais espontâneos, como as discussões nas mesas e as conversas nos corredores, que o tema da unidade da igreja foi visto, não como uma simples questão de estratégia, de firmar parcerias, mas como uma expressão da riqueza teológica do trabalho em conjunto e da união em Cristo. Nesses espaços, a unidade foi vista como um verdadeiro anseio dos presentes e como o elo que pode ligar os grandes desafios da igreja.

Mas por que é tão difícil manter a unidade? Lausanne 3 não respondeu a essa pergunta; porém, nos deu algumas pistas. Como diz Vaughan Roberts, “a unidade de Cristo não pode ser criada, é uma ação do Espírito. Por meio da verdade do evangelho, do Espírito, somos o Corpo de Cristo. Deus pede que vivamos de maneira digna da vocação a que fomos chamados. As divisões não são por diferenças teológicas, mas por orgulho”. Outra pista foi dada pelo teólogo Ronald Sider em uma conversa informal: “O que eu gostaria de ver como resultado deste congresso é um equilíbrio maior de cooperação financeira entre todos nós”.

Ao olharmos para a igreja brasileira, a necessidade de unidade parece ainda mais gritante. Alguns brasileiros afirmaram que a comitiva nacional foi uma amostra do que é a igreja: alegre e numerosa, mas pouco organizada e meio sem rumo (cerca de cem brasileiros participaram do congresso). Ao refletir sobre a crise de liderança cristã no país, Robinson Cavalcanti norteou o caminho: “Precisamos de um choque de humildade”. Não podemos considerar a questão da unidade cristã sem refletir sobre o papel dos nossos líderes. Sendo assim, o conselho do “choque de humildade” é um passo igualmente relevante para termos uma igreja mais unida. Não é à toa que no penúltimo dia, dedicado ao tema “integridade”, o britânico Chris Wright exortou os presentes a um autoexame sincero diante das idolatrias atuais: o poder (orgulho), a popularidade (sucesso) e a prosperidade (ganância). “Precisamos de um retorno radical ao Senhor. Precisamos ouvir a voz dos profetas, dos apóstolos e de Jesus Cristo. Quem precisa se arrepender primeiro não são os de fora, mas os de dentro.”

2. A verdade é importante e não anda sozinha
Assim como um náufrago precisa de terra firme, é ingênuo achar que nossa geração não precisa de -- e não clama por -- referências claras e absolutas. No entanto, em um mundo relativista, pluralista e indiferente a questões dogmáticas, como defender a verdade única do evangelho sem perder a dimensão pessoal, amorosa e humilde daquele que é a própria verdade, Jesus Cristo?

Lausanne 3 foi ousado ao nos provocar com esse tema logo no primeiro dia, diante de um cenário tão diversificado e do risco concreto de ressuscitar fundamentalismos e simplismos. As primeiras palavras do escritor Os Guinness foram fortes: “Oro para que não haja dúvidas de que a verdade é uma questão fundamental e decisiva para este congresso e para nós, como evangélicos. A verdade não é essencialmente uma questão filosófica, mas teológica. Deus é verdade, o seu Espírito é o Espírito da verdade; sua Palavra é verdade, nossa fé é verdade, e, a menos que sejamos seguros e firmes quanto à verdade, este congresso pode terminar agora”.

À medida que o congresso acontecia, o clamor por clareza na defesa da verdade (com referências seguras e norteadoras) foi sendo entendido também como a necessidade de uma verdade integradora, que reúna histórias de vida e esforço acadêmico. Daí a agradável surpresa de ouvir tantos testemunhos de pessoas simples de diversos lugares do mundo. As histórias de vida são tão importantes quanto as dissertações acadêmicas. Não que uma substitua a outra, mas elas podem se fortalecer mutuamente. Uma história de vida pode resgatar o academicismo de gabinete, sem amor e sem dor. A teologia pode dar luz às histórias de vida, trazendo-lhes um sentido histórico. Tudo isso, no entanto, não excluiu a justa crítica de alguns intelectuais brasileiros de que faltou profundidade e tempo para as discussões acadêmicas.

Por último, é importante assumir o desafio de refletir sobre a unidade à luz da verdade (e vice-versa). Mais do que defender uma ou outra com unhas e dentes, a igreja cristã precisa dispor-se a fazer sérias reflexões sobre como conjugá-las harmoniosamente. Uma precisa da outra. Assim o evangelho será compreendido e digno de confiança e também amado e seguido.

3. A igreja é global e as antigas categorias para delimitá-la precisam ser atualizadas à luz da globalização
O fenômeno da globalização ficou evidente em vários aspectos do congresso. O evento foi mundial; a tecnologia permitiu que 100 mil pessoas o acompanhassem pela internet. Ouvimos experiências de igrejas europeias que já não são tão homogêneas, mas têm nos bancos gente de diversas nacionalidades e provenientes de países pobres. Além desses aspectos, Lausanne 3 nos ajudou a pensar que a igreja cristã não pode mais ser desenhada simplesmente em termos geográficos. Como lembra o pastor e cientista social Orivaldo Pimentel, “não se pode pensar a igreja com as mesmas categorias de antes. Não mais em termos de Norte, Sul, Leste e Oeste, mas sim da presença global num mundo globalizado”. Isso exige de nós novas formas de pensar a presença da igreja. O que significa ser uma comunidade global, mas que constrói a identidade localmente? Como devemos comunicar o evangelho nesse contexto? Como deve ser o nosso testemunho? Quais as oportunidades de serviço? Os efeitos desse fenômeno devem ser analisados a longo prazo, já que eles não são tão óbvios quanto seus sintomas.

Outra dimensão importante da globalização, lembrada mais claramente pelos teólogos René Padilla e Samuel Escobar no quarto dia do congresso, é a econômica. Padilla considerou a pobreza gerada pela globalização como um dos grandes desafios da igreja e achou que o assunto foi pouco abordado por Lausanne 3. Ele já havia aprofundado a mesma ideia no artigo “From Lausanne 1 to Lausanne 3”, publicado no “Journal of Latin American Theology”, a revista da Fraternidade Teológica Latino-Americana, distribuída durante o evento. “Cristãos conscientes não podem ignorar a extrema pobreza de milhões de pessoas, gerada pelo atual sistema econômico global controlado, em grande medida, por uma classe corrupta transnacional.”

4. O texto bíblico e a oração são riquezas incalculáveis
Esses dois recursos nos renovam quando as circunstâncias exigem algo mais do que argumentos humanos. São fonte de poder, de arrependimento, de amor e de sabedoria; são canais da obra do Espírito Santo no espírito humano. Abandonar essas duas práticas ou deixá-las em segundo plano é perder-se na caminhada. Dois momentos no congresso foram simbólicos quanto a isso:

- Perdão regado a oração -- no último dia a comissão brasileira, liderada pelo pastor Key Yuasa, tomou a iniciativa de escrever uma carta pedindo perdão à igreja africana pela triste história de escravidão no Brasil. Um dos momentos mais emocionantes foi quando, após a leitura da carta, durante a reunião regional da África, os líderes africanos pediram ao grupo de sete brasileiros que representava a comissão que ficassem de joelhos. Em meio a lágrimas, os irmãos da África oraram longamente anunciando o perdão aos brasileiros; enquanto oravam, lembravam o sofrimento vivido por mulheres e filhos, sem maridos e pais, que foram trazidos cativos para o Brasil. Espontaneamente, um grupo de africanos foi até a reunião da comissão brasileira e orou novamente por nós. Nada poderia traduzir melhor e reunir os sentimentos de todos do que a oração. O perdão foi regado pela beleza da oração.

- Estudos bíblicos indutivos -- todas as manhãs, nos reuníamos em grupos de sete pessoas e estudávamos juntos a carta de Paulo aos Efésios. Por diversas vezes, nos vimos desarmados pela riqueza da Palavra de Deus. Apesar do pouco tempo, cada momento de estudo indutivo nos fazia assumir novamente a responsabilidade para com o evangelho e o mundo, e nos permitia conhecer histórias de irmãos de diversos países. Experimentamos uma unidade misteriosa, movida pela Palavra, baseada nos relacionamentos, que gera alegria, respeito e amor pelo outro. Como disse o teólogo Samuel Escobar, “foi o momento mais rico do congresso”.

O texto bíblico e a oração são pilares para a compreensão orgânica da igreja de Cristo.

5. Os jovens são a grande força missionária
Coragem, idealismo, paixão por Cristo e pelas pessoas -- esses são os recursos necessários para a mudança de geração, sem perder a herança histórica. Valorizar e reconhecer a juventude nos ajuda a celebrar o Corpo de Cristo, de tantas idades, e a discernir melhor as muitas faces e a velocidade do nosso tempo.

Além disso, por sua grandiosidade e relevância, Lausanne 3 não pode ser assimilado a curto prazo. Os jovens são personagens fundamentais para que as mais significativas mudanças aconteçam dentro e fora da igreja de Cristo. Não é à toa que 40% dos participantes eram pessoas com idade entre 20 e 40 anos. O esforço dos organizadores para que houvesse, de fato, uma representatividade de jovens líderes reforça a esperança de que o evangelho continuará sendo anunciado em todos os lugares, sem deixar de enfrentar as principais questões contemporâneas.

Ao mesmo tempo, essa evidência aumenta a responsabilidade dos mais velhos. É preciso apoiar e pastorear nossos jovens nos mais desafiadores contextos: nas periferias das grandes cidades, nas igrejas, nas escolas, nas universidades e outros lugares. Juntos, jovens e velhos precisam caminhar em alegria e em confiança. Enquanto os jovens devem honrar a sabedoria dos mais velhos, estes devem permitir que aqueles liderem projetos e comunidades até então sob suas responsabilidades.



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