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Colunas — Da linha de frente

Onde está o missionário ideal?

Bráulia Ribeiro

O telefonema veio de um lugar remoto, na fronteira do Acre com o Peru. A voz da mulher tinha um tom resoluto. Ela sabia o que queria fazer e não parecia amedrontada. Ao mesmo tempo em que falava, se supria de uma consciência mais intensa de que não podia deixar as coisas como estavam.

“Ah, Bráulia, ore por nós; presenciamos muito sofrimento. Os políticos da região, para se eleger, levaram caixas de cachaça e até álcool puro para as aldeias, embebedando os índios, brigando, espancando homens e mulheres. Um deles se amasiou com duas irmãs e engravidou as duas. Bate constantemente nelas, e ontem derrubou uma das grávidas de um barranco cinco vezes. Ela se levantava e subia, e ele a derrubava novamente lá embaixo. Ele é grosseiro e domina o pai das moças com álcool e os irmãos com violência. Temos que denunciá-lo, mas ele está nos ameaçando. Já falou para a vila inteira que vai nos matar. Nos seguiu quando viemos até a vila, mas mesmo assim conseguimos marcar um encontro hoje à noite com a Polícia Federal para falar sobre o que essa corja política local faz na aldeia.”

Uma denúncia como esta, num mundo onde dominam as armas e a falta de lei, é como “água fria para o sedento”. O reino de Deus que aquela família leva para aquele lugar significa justiça, respeito e dignidade para os indígenas e para as vilas ao redor.

O jovem casal tem menos de 30 anos e está conosco há uns cinco. Com dois filhos pequenos, enfrentam, além de tudo, dificuldade financeira. Ainda que a Jocum tivesse condição de pagar altos salários, nada compensaria a insegurança e o medo que eles estavam enfrentando agora e com os quais teriam de conviver depois da denúncia.

Lembrei-me de como esta moça chegou à Jocum. Ainda “não era crente direito”. Nunca tinha vivido uma vida limpa, nem mesmo na infância. Vestia-se no dia-a-dia como quem sai para fazer um programa na noite. Movia-se com um gingado de dançarina de cabaré. Várias vezes ouvi os líderes do curso de discipulado confabularem sobre ela, desesperados, pensando se haveria jeito para alguém assim.

Hoje, ela e o marido são missionários que qualquer missão gostaria de ter reforçando suas trincheiras. Abnegados, dedicados, amorosos, íntegros e, mais do que isto, a mulher tem garra de guerrilheira.

Infelizmente, houve uma época em nossa comunidade missionária que nos cansamos de jovens e dos “problemas” que chegavam a cada nova leva de alunos. Começamos a pensar em fazer um escrutínio apurado de todos os formulários, na tentativa de evitar que recebêssemos jovens “problemáticos”, que têm o potencial de consumir toda a nossa energia e produzir muito pouco ou quase nada para missões. Queríamos maturidade, e não juventude. Pela misericórdia de Deus, o plano não deu certo, e já nos curamos deste pensamento doente. Redescobrimos nosso DNA, e ele está diretamente ligado à responsabilidade de transferir destino àquele que não o tem. Significa mobilizar os que “não são”, os loucos, garimpar tesouros na lama.

Apaixonei-me novamente pelos jovens. O Reinaldo, meu marido, começou o primeiro curso desta nossa nova fase com uma palavra que ele acredita ter ouvido de Deus: “Aquele que vem a mim, não o lançarei fora”. Recebemos de uma só vez quase trinta malucos, góticos, satanistas, neo-hippies, patrícias e maurícios, alguns sexualmente definidos de maneira errada e outros indefinidos propositalmente, jovens de classe média ou quase favelados. Nunca aprendi tanto em minha vida.

Nenhum destes novos candidatos a missões seria considerado apto por nossos padrões religiosos. Em missões temos de ter a nata espiritual de nossas igrejas.

Entendi, naquele tempo, que para Deus todos são “nata”, como a mulher que me ligou, ontem perdida, hoje representando justiça e dignidade. Todos gente comum, gente especial sem o ser, trazidos pelo Senhor, seja de um garimpo distante, da seita do chá ou da Assembléia de Deus, para passar pela máquina de redimir destinos chamada reino de Deus.


Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical. braulia_ribeiro@yahoo.com

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