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Exclusivo Online — A Conferência do Nordeste e o Movimento Igreja e Sociedade

A Conferência do Nordeste e o Movimento Igreja e Sociedade

Raimundo César Barreto Jr.

Uma das características que marcam o povo brasileiro é a falta de memória. Algo cultivado não por acidente, mas por uma cultura política que se mantém graças à curta memória do povo. A falta de memória histórica, coletiva, marca também o protestantismo brasileiro. Por isso são poucos os que se lembram sequer sabem que houve uma conferência importante para a história do protestantismo brasileiro realizada em Recife, em 1962, por iniciativa do Setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil. Esta conferência histórica reuniu alguns dos principais intelectuais brasileiros da época, como Celso Furtado, Paul Singer e Gilberto Freyre, para, juntamente com vários pastores e teólogos protestantes, discutir o processo revolucionário pelo qual o Brasil passava, bem como a participação cristã no mesmo. O título da consulta, então, foi “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. Nunca, nem antes nem depois desta conferência se viu o protestantismo brasileiro tão engajado na discussão da realidade social do país e tão consciente da necessidade de participação na construção de tal realidade. 

Se poucos sabem disso, menos ainda sabem que esta conferência não foi a única, nem tampouco surgiu do nada. Ela foi a quarta de uma série de consultas que o Setor de Responsabilidade Social da Igreja começou a realizar a partir de 1955. Quando a Conferência do Nordeste, ápice do movimento, completa 45 anos, torna-se imperativo para o protestantismo brasileiro o resgate desta memória empurrada para debaixo do tapete da história por aqueles que a acham perigosa e subversiva. 

Uma das coisas mais importantes que precisamos entender sobre a Conferência do Nordeste é que ela é o resultado do aprofundamento do pensamento e da ação de um grupo de cristãos que descobriram a necessidade de participar da construção da nacionalidade brasileira. Em minha opinião, o movimento, que se tornou conhecido como Igreja e Sociedade, é uma das mais interessantes iniciativas já vistas no seio do protestantismo brasileiro. Antes de tudo, tinha um caráter leigo em sua origem. Não nasceu por iniciativa de pastores, mas pela inquietação de estudantes, seminaristas e universitários, cansados da falta de participação da igreja nas lutas sociais do nosso povo. Eles deram início à União de Estudantes Cristãos do Brasil (UCEB), uma das mais vigorosas e atuantes organizações evangélicas na década de 50. Em 1952, realizaram no Sítio das Figueiras, em São Paulo, a Primeira Conferência Latino-Americana de Estudantes Cristãos, que se tornaria um marco fundamental na construção do movimento igreja e sociedade, primeiramente no Brasil, e depois na América Latina.

Neste encontro, Richard Shaull — missionário norte-americano, expulso da Colômbia por assumir algumas posturas ousadas, que incomodaram as elites colombianas —, foi convidado para discutir a questão da Vocação Cristã. Ali, pela primeira vez no protestantismo brasileiro foram abordadas seriamente as questões postas pelo marxismo para a teologia cristã, e Shaull era alguém que vinha trabalhando estas questões já por alguns anos. O diálogo com ele foi elucidativo para os estudantes presentes, que queriam entender melhor as possibilidades de relacionamento entre o cristianismo e o marxismo. A conferência deu um novo impulso ao movimento evangélico estudantil no Brasil, e muitos dos participantes voltaram para suas comunidades dispostos a compartilhar as experiências vividas ali. 

Richard Shaull, numa tentativa de aprofundar as questões ali discutidas, publicou um livreto chamado “O Cristianismo e a Revolução Social”, que se tornaria um importante guia, não somente para o movimento de estudantes cristãos, mas para todos os cristãos interessados em participar das importantes transformações sociais que estavam acontecendo no país. A partir de então, Shaull se tornaria uma espécie de intelectual orgânico do movimento. 

Paralelamente ao Movimento de Estudantes Cristãos, surge, em 1955, o Setor de Responsabilidade Social da Igreja, através de uma iniciativa de Richard Shaull e Waldo César, um dos mais ativos líderes da juventude presbiteriana, e do movimento de estudantes cristãos na época. A princípio, a idéia de Shaull e César foi uma comissão autônoma de Igreja e Sociedade. Mas, ainda no primeiro ano de existência, a comissão se tornou parte da Confederação Evangélica do Brasil (CEB), órgão interdenominacional constituído de seis das principais igrejas protestantes do país, passando a se chamar Setor de Responsabilidade Social da Igreja. 

Um dos objetivos do SRSI foi promover reuniões nacionais para discutir tópicos de relevância para a sociedade brasileira. Entre 1955 e 1962, o SRSI promoveu quatro consultas, que aprofundaram as discussões sobre a responsabilidade social da igreja e a participação da igreja na sociedade brasileira. É nesse contexto, e tendo em vista o aprofundamento da discussão, que a Conferência do Nordeste pode ser mais bem compreendida. 

O tema da primeira consulta, realizada em São Paulo, em 1955, foi “A Responsabilidade Social da Igreja”. Foi discutido de forma genérica, como um programa de estudo e ação. A preocupação básica era estudar as bases bíblicas e teológicas da responsabilidade cristã na esfera sociopolítica. A consulta concluiu que como cristãos é necessário testemunharmos a fé cristã nos espaços que se constituem os centros de influência e de poder sociopolítico. Tal percepção desafiava os cristãos a desenvolverem uma nova linguagem e uma compreensão mais ampla do sentido da tarefa da evangelização. 

Em 1957, foi realizada uma segunda consulta, dessa vez em Campinas, cujo tema já se tornava mais específico: “A Igreja e as Rápidas Transformações Sociais no Brasil”. Sem necessidade de continuar remoendo as bases bíblicas e teológicas para a responsabilidade social da igreja, sentia-se agora a necessidade de compreensão mais profunda dos processos sociais que estavam acontecendo no país e no mundo naquele momento, a fim de que a igreja pudesse participar deles. A grande preocupação era que a ausência da comunidade de fé nos processos de mudança os deixasse sem qualquer orientação teológica. 

Em 1960, aconteceu a terceira consulta, com o título “A Presença da Igreja na Evolução da Nacionalidade”. Chegava-se ao fim de uma década marcada pelo desenvolvimentalismo, na qual o povo brasileiro tinha oscilado entre o entusiasmo diante das promessas de um futuro brilhante e a frustração trazida pelas terríveis conseqüências dos processos de urbanização e industrialização que estavam acontecendo no país. Esta consulta foi uma convocação cristã para a participação, de forma solidária, nas diversas áreas que estavam experimentando profundas transformações no Brasil: social, econômica, política e cultural. Havia naqueles jovens a convicção de que as igrejas protestantes não poderiam continuar distantes do processo de formação da nacionalidade brasileira. Sem ilusões, deveriam participar ativamente das lutas do povo; em última instância, uma luta por justiça social. 

A quarta consulta tornou-se a mais polêmica e mais importante de todas. Aconteceu em Recife, em 1962. Por isso, ficou conhecida como a Conferência do Nordeste, e teve como tema “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. O otimismo da década anterior havia definitivamente passado. As estruturas da sociedade brasileira estavam abaladas, e o país lutava agora com o subdesenvolvimento e a pobreza. Vários grupos oprimidos começavam a se articular na busca de transformações mais radicais. Faltava, porém, a presença da igreja evangélica naquele cenário. A escolha do tema, portanto, visava expressar a ousadia e o realismo do encontro entre a mensagem cristã e a realidade social brasileira naquele momento. A mudança geográfica da consulta do Sudeste para o Nordeste era significativa. O Nordeste brasileiro, a região mais empobrecida do país, era onde o escândalo da injustiça social reinante era mais visível. A consulta pretendia levar o movimento igreja e sociedade a outro nível de participação nas lutas sociais que estavam acontecendo no país. Não bastava falar de solidariedade e participação. Os participantes da consulta precisavam ver face a face uma das mais escandalosas realidades sociais do país. Ali, eles também iriam ter contato com a luta diária do povo pela sobrevivência, e sua mobilização não apenas no espaço urbano, mas também na esquecida e ignorada realidade rural, por meio de movimentos como as Ligas Camponesas. Waldo César, um dos principais organizadores da conferência disse que, uma das marcas mais importantes do evento foi o diálogo, tanto por meio do encontro direto com estas realidades, como pela oportunidade de ouvir outras vozes pensando estas questões. 

A Conferência do Nordeste levava o diálogo a níveis ainda não experimentados antes pelo protestantismo brasileiro. Havia uma preocupação de que tais consultas se tornassem um espaço onde os evangélicos estariam falando apenas consigo mesmos. Historicamente, o protestantismo brasileiro sempre teve dificuldade de se integrar à realidade nacional. As consultas anteriores tinham acontecido a portas fechadas, com pequenos grupos de teólogos e líderes eclesiásticos protestantes tentando entender a realidade brasileira e discernir a participação da igreja nela. Na Conferência do Nordeste, porém, os protestantes convidaram a sociedade brasileira para uma conversa. Primeiro, dispuseram a ir ao local onde os movimentos populares pareciam mais efervescentes. Em segundo lugar, convidaram alguns dos mais respeitados pensadores brasileiros — sociólogos e economistas — para participarem da discussão. Essa conferência trouxe uma visibilidade para os protestantes brasileiros que eles nunca experimentaram antes. O governador do Estado de Pernambuco participou de algumas reuniões e o presidente João Goulart enviou um representante a Recife. Jornais em Recife e São Paulo noticiaram o evento, alguns com manchetes em primeira página. 

Mas, se esta conferência representou o mais interessante momento de um movimento que se desenvolveu no protestantismo brasileiro desde meados da década de 1950, ela representou também o começo do fim deste movimento. Pressões vindas tanto do Estado quanto dos setores mais conservadores da igreja contribuíram para o fim do movimento. Em 1962, o Brasil começava a experimentar uma certa convulsão social, que culminaria com o Golpe Militar de 64. Nos anos que antecederam o golpe de estado, Departamento de Ordem Política e Social, já vinha observando as ações do SRSI. Em 1960, Waldo César já havia recebido a visita de um agente do DOPS levantando questões sobre a terceira consulta do SRSI. Em 1963, um coronel do Exército visitou a sede da CEB fazendo perguntas sobre a Conferência do Nordeste. Nessa época, a CEB resolveu suspender as atividades do SRSI e demitiu quatro de seus secretários, incluindo Waldo César. As pressões dos setores mais conservadores da igreja contra a ação do SRSI já vinham acontecendo havia alguns anos, sendo notada em vários níveis. Richard Shaull teve de se afastar do Seminário Presbiteriano de Campinas e retornar aos Estados Unidos em 1962. Por isso, mesmo tendo participado da organização da Conferência do Nordeste, não esteve presente nela. Ele seria proibido pelo governo militar brasileiro de pisar em solo brasileiro durante todo o período de ditadura militar. Alguns líderes do movimento Igreja e Sociedade foram expulsos de suas igrejas e denunciados como subversivos ao governo militar. Vários tiveram de se exilar; alguns, como o próprio Waldo, chegaram a ser presos antes de sair. Um dos jovens estudantes que fizeram parte do movimento de estudantes cristãos, Paulo Wright, acabou preso, torturado e assassinado pelo governo militar. Sem espaço na igreja, alguns dos jovens líderes evangélicos migraram para o que Shaull chamou de igreja na diáspora, participando de diversos movimentos que resistiram à opressão do regime ditatorial no decorrer das duas décadas seguintes. O movimento que aconteceu no Brasil foi fundamental para o surgimento de um movimento semelhante na esfera continental: Igreja e Sociedade na América Latina.
 
As igrejas evangélicas, por meio de lideranças conservadoras, comprometidas com os interesses ideológicos do regime militar, preferiram apagar essa memória. Assim, a maioria dos evangélicos hoje nem sequer ouviu falar nesse movimento tão significativo para a história protestante no Brasil. Desde 1986, no chamado período de redemocratização, os evangélicos abandonaram o discurso que nutriram nos 21 anos de ditadura (“crente não se mete em política”) para se envolverem de novo no cenário político. Tal envolvimento, porém, que tem crescido vertiginosamente desde então, não foi acompanhado do trabalho de reflexão teológica que foi fundamental para o movimento Igreja e Sociedade. Pior ainda, muitos evangélicos que participam da vida política hoje, mesmo os de orientação mais progressista, pensam que estão inventando a roda. Desconhecem e negligenciam um legado importante de ao menos dez anos de ação e reflexão, que ainda tem muito a contribuir para aqueles que estão preocupados em discernir a responsabilidade cristã no contexto da realidade brasileira, 45 anos depois da Conferência do Nordeste. Com este breve relato, que busca resgatar uma memória perdida, espero contribuir não para um saudosismo em torno de um tempo que nunca vai se repetir, mas sim para um engajamento social na nossa realidade contemporânea. Que não nos furtemos a convidar esses personagens de um passado não muito distante para um diálogo crítico que, certamente, tem muito a nos oferecer na elaboração de uma teologia que tenha algo de significativo a dizer à realidade sociopolítica da nossa nação hoje. 


Raimundo César Barreto Jr. é pastor da Igreja Batista Esperança, em Salvador, BA, e coordenador geral do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. rcbarretojr@gmail.com

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