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Colunas — Da linha de frente

Sem família

Bráulia Ribeiro

No meio da festa que foi a conferência do Conselho de Pastores Indígenas, literalmente no quintal da minha casa, aqui na nossa base missionária, nos chegou uma notícia de São Paulo: “A LaVera morreu nesta madrugada. Será que podemos mencioná-la durante a reunião?”

Era o seu Alan, diretor do centro da Wycliffe, nosso vizinho de cerca. LaVera era uma missionária americana de quase 80 anos que morou no Brasil mais da metade de sua vida. Ela tinha sofrido um derrame poucas semanas antes da conferência e estava há vários dias em uma UTI em São Paulo lutando para sobreviver.

Solteira, LaVera não deixou parentes próximos; todos já haviam morrido. Em poucos meses ela teria se aposentado num asilo para anciãos em algum lugar dos Estados Unidos, entre estranhos. Segundo Hellen, sua querida companheira de trabalho de muitos anos, LaVera estava apavorada com essa possibilidade.

“Morreu, e o corpo?” Uma outra missionária se aproximou de mim: “Bráulia, é tão triste! Onde ela será enterrada?” Essa pergunta trazia mais do que um questionamento sobre o corpo. LaVera dedicou quase toda a sua vida ao povo Tenharim da Amazônia. Morava em uma casa simples de madeira sem usufruir de confortos maiores do que um chuveiro elétrico e um ventilador quando vinha à cidade. Agora seria enterrada num cemitério desconhecido em São Paulo, onde depois que Hellen voltasse aos seus parentes no Canadá, ninguém jamais lhe levaria uma flor ou lhe recitaria um poema à beira do túmulo.

Sem dificuldades poderíamos juntar dinheiro suficiente para transportar o corpo para ser enterrado em solo amazônico. Seria mais apropriado, e pelo menos daria às pessoas que a amaram a chance de se recordar dela. Mas Hellen me informou que LaVera deixara claro que, se morresse em São Paulo, não queria ser transportada de volta; seria enterrada ali. Não queria dar trabalho a ninguém. Aquela praticidade fria assustou-me um pouco, mas veio de alguém que sempre soube o que era e o que queria. LaVera era filha de Deus e cidadã do reino. Não tinha parentesco terreno, nem pertencia a povo algum. Quando pela primeira vez aceitou o chamado missionário sabia que Deus a havia chamado para abandonar tudo e dedicar-se somente a ele. E assim fez. Era por amor ao Senhor, e não aos brasileiros, que ela morava no Brasil; e por amor a ele, e não aos Tenharim, que gastara milhares de horas intermináveis e cansativas traduzindo o Novo Testamento para a língua deles.

Cremos na vida eterna, cremos na perenidade da vida terrena, mas a solidão sempre nos assusta. Solidão na vida e solidão na morte, era o que teria LaVera.

Caminhei triste para a reunião na tenda e, pouco antes do final do culto, me chamaram para prestar a LaVera uma homenagem junto com os índios Tenharim, por quem ela tinha vivido. Eu não a conhecia bem, mas os irmãos americanos estavam emocionados demais para dizer alguma coisa. Então fiquei de pé no tablado da tenda semi-vazia, junto com o Zelito, pastor Tenharim, e muitos outros jovens índios emocionados, para prestar-lhe uma homenagem póstuma. Os Tenharim cantaram em sua língua algo que ela entenderia se estivesse entre nós, e eu falei embolado sei lá o quê, pensando que ser cristão é isto afinal de contas: não somos daqui, não temos nada, nem nunca vamos ter. Nosso único bem é Deus.

LaVera Betts
1928 - 2006
Sem terra
Sem povo
Sem família
Único Legado: Jesus.


Bráulia Ribeiro é missionária em Porto Velho, RO, e presidente da JOCUM — Jovens com Uma Missão. braulia_ribeiro@yahoo.com
Os pontos de vista da autora são pessoais, e não da organização.

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