Apoie com um cafezinho
Olá visitante!
Cadastre-se

Esqueci minha senha

  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.
Seja bem-vindo Visitante!
  • sacola de compras

    sacola de compras

    Sua sacola de compras está vazia.

Reflexão — Robinson Cavalcanti

Um país sem alternativas?

Uma revista semanal tendenciosa e neoliberal de grande circulação expressou contentamento pelo fato de os dois principais candidatos à Presidência da República terem praticamente o mesmo programa macroeconômico — juros altos, superávit primário alto, baixo investimento social —, chamado de moderno, civilizado, trazendo tranqüilidade ao “mercado” (os donos do capital nacional e estrangeiro). Atacando um e promovendo o outro, a revista sentiu-se segura, pela convergência da mesmice.

Li o novo e relevante livro do dominicano Frei Betto, A Mosca Azul – reflexões sobre o poder (Editora Rocco, 2006). É um testemunho pessoal de quem militou toda a vida em movimentos sociais, foi preso político, ajudou a construir o Partido dos Trabalhadores, privou com seus líderes, foi assessor da Presidência da República para programas sociais por vinte meses. A Mosca Azul é mais do que desapontamento com uma central sindical que deixou de ser independente e combativa, para se transformar em “correia de transmissão”, ou com um partido mais preocupado em sustentar um governo do que em representar a sociedade que nele depositou a sua confiança, que desmontou os seus núcleos de base e se burocratizou. Aponta para a perigosa mordida da “mosca azul” naqueles que chegam ao poder, esquecem ideais, abandonam amigos, aderem ao sistema e acabam tendo como alvo a própria manutenção no poder. Há uma análise desse fato a partir da teoria das elites, especialmente de Robert Michells, com sua obra Os Partidos Políticos. Partidos de esquerda e base operária que chegam ao poder no capitalismo rompem com o passado e se tornam uma “nova classe” — nas palavras de Milovan Djilas —, conservadora, no aparelho do Estado. No nosso caso, funcionários públicos, classe média, aposentados, intelectuais e religiosos progressistas, foram deixados para trás, juntamente com ideologias e programas de governo. Optou-se por um realismo sem ética, e por um assistencialismo às massas carentes, sensíveis ao sebastianismo messiânico. Frei Betto reafirma conceitos como reino de Deus, procura infundir esperanças e luta para uma “purificação” do partido, temendo os riscos da apatia e da revolta; mais um desejo sincero do que algo com base na realidade. A Mosca Azul torna-se leitura obrigatória para cristãos comprometidos.

Em conversa com empresário evangélico de outro Estado do Nordeste, de outro partido, ele me relatou pesquisa qualitativa realizada por assessoria especializada, que constatou o desânimo, a frustração e a descrença dos eleitores, particularmente os jovens, com tendência à abstenção ou à anulação do voto; decepção com a falta de ética, coerência e eficiência dos três poderes e de todos os partidos. Outras pesquisas indicam a decepção dos latino-americanos com a democracia formal, que substituiu as ditaduras militares, e não trouxe reformas que diminuíssem a pobreza e a exclusão. Esse eleitorado tem votado em candidatos com retórica de mudanças. Se estes o decepcionam — como no Brasil —, resta-lhes o arriscado apelo ao populismo ou o risco de golpes militares.

Participei com palestra e debate do VII Congresso Nacional do Movimento Evangélico Progressista, que ajudei a criar dezesseis anos atrás. O documento final, Conclamação de Guarulhos, reafirma a identidade evangélica, interdenominacional e não-partidária do movimento, o compromisso com a democracia, a soberania nacional e a justiça social, e com um modo de produção solidário pós-capitalista. Enfatiza a ética nas igrejas, na sociedade civil e no Estado. Condena as manipulações e as “candidaturas oficiais” eclesiásticas, bem como candidatos com aparência de “modernos” que, no fundo, representam o poder concentrador de sempre. Indica o apoio a candidaturas comprometidas com programas democrático-populares. Destaco a frase: “Nenhum governo é responsável pela totalidade do mal, ou é capaz de realizar a totalidade do bem”.

O “campeonato de corrupção” governamental está empatado desde Cabral. O atual governo errou duas vezes: 1) ao permitir a própria corrupção, que maculou sua aura de honestidade, levando às CPI’s — espetáculo com mocinhos e bandidos de vários partidos; 2) quando, como resultado de acordo, não apurou as irregularidades do governo anterior, como as nebulosas privatizações e os “argumentos” usados para emendas instituindo a possibilidade de reeleição.

Os positivistas, Vargas, Juscelino, os militares — com erros e acertos —já tiveram projetos nacionais a propor e buscar realizar. Centros de pensamento como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, ou a Escola Superior de Guerra, já trabalharam em projeto, no passado. Hoje não temos um projeto nacional claro e exeqüível, proposto à nação por algum grupo, partido ou candidato. Isso é muito preocupante. Com os presidentes meros “gerentes regionais do império”; os governadores, senadores e deputados, em grande maioria, sem conteúdo, ética, programa, compromisso ou fidelidade partidária, para os cristãos este é um momento para pano de saco e cinzas, jejum e oração, arrependimento e clamor. Resta-nos, órfãos cívicos, o árduo caminho da reorganização dos setores progressistas da sociedade — onde os discípulos de Jesus Cristo devem estar como sal e luz —, que passa inclusive por candidaturas presidenciais alternativas, que viabilizem canais para a expressão do descontentamento e da crítica, a busca de alternativas, a devolução da esperança, o profetismo, enfim.

Oremos e, com discernimento, participemos, sob a Providência que prega peças na história.

Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada. http://www.dar.org.br/

QUE BOM QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI.

Ultimato quer falar com você.

A cada dia, mais de dez mil usuários navegam pelo Portal Ultimato. Leem e compartilham gratuitamente dezenas de blogs e hotsites, além do acervo digital da revista Ultimato, centenas de estudos bíblicos, devocionais diárias de autores como John Stott, Eugene Peterson, C. S. Lewis, entre outros, além de artigos, notícias e serviços que são atualizados diariamente nas diferentes plataformas e redes sociais.

PARA CONTINUAR, precisamos do seu apoio. Compartilhe conosco um cafezinho.


Opinião do leitor

Para comentar é necessário estar logado no site. Clique aqui para fazer o login ou o seu cadastro.
Escreva um artigo em resposta

Ainda não há artigos publicados na seção "Palavra do leitor" em resposta a este texto.