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Assembléia do CMI: tudo muito bonito e muito complicado

O Mineiro com Cara de Matuto em Porto Alegre

Se não fosse a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado da esposa e dos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil da Presidência da República), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), Olívio Dutra (Cidades) e Tarso Genro (Educação), no dia 14 de fevereiro, o país pouco saberia sobre a realização da 9ª Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), em Porto Alegre, na segunda quinzena de fevereiro de 2006. Entre os 3.838 delegados, observadores e visitantes, estavam o cardeal Walter Kasper (enviado pelo papa Bento XVI), o pastor Geoff Tunnicliffe (diretor da Aliança Evangélica Mundial) e o pastor pentecostal Roberto Saracco, além do escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel (Nobel da Paz de 1980) e o bispo anglicano Desmond Tutu (Nobel da Paz de 1984). 

Tudo muito bonito
O Mineiro com Cara de Matuto compareceu à assembléia a convite da Visão Mundial. Chegou uma hora antes do início da celebração do dia 21 de fevereiro. Uma enorme tenda de lona, com cadeiras para 4.500 pessoas, estava armada no estacionamento da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre. No palco havia dois púlpitos, um de cada lado de uma cruz colocada bem no centro. O lado esquerdo do palco estava reservado para um coro de muitas vozes, com cantores de várias nacionalidades e faixas etárias.

Homens de pele negra e barba branca, outros de pele branca e barba negra; mulheres gordas, mulheres magras; usando trajes típicos e coloridos, foram entrando e tomando seus lugares. Clérigos de ambos os sexos usando longas batinas de diversos modelos e cores, com pesadas cruzes dependuradas no peito, enfeitavam ainda mais o auditório. Lá estavam, por exemplo, o padre Jean Kawak (do Patriarcado Ortodoxo da Síria), o reverendo Filibus Kumba Gwana (de uma igreja protestante da Nigéria), o frei Ettore Marangi (da Ordem de Frades Menores, da Itália), o presbiteriano Rolney Petersen (diretor do Boston Theological Institute) e o padre Shale Ananyan (da Igreja Ortodoxa da Armênia).

Às 8h30min. deu-se início ao culto. Naquele dia, a ênfase era Deus, em tua graça, transforma as nossas vidas. E o símbolo escolhido para marcar a celebração daquela manhã foi a água. Uma jovem atravessou solenemente o corredor com uma Bíblia aberta e a colocou no púlpito à esquerda. Um homem e uma mulher trouxeram dois cântaros cheios de água e a derramaram numa vasilha de barro. O cenário estava completo e atraente: a cruz, a Palavra e a água viva.

Não houve exposição bíblica. Uma pastora leu o belo texto de Ezequiel sobre as águas que saíam do templo e transformavam o deserto e até o mar Morto (Ez 47). Um pastor leu a história da mulher samaritana que bebeu a água viva oferecida por Jesus (Jo 4.7-15). Tudo entremeado com lindos cânticos de diversas procedências (havia letras disponíveis em português, inglês, espanhol, francês e alemão) e belas orações lidas. Depois do Pai-Nosso cantado em português, uma pastora negra impetrou a bênção apostólica. (Veja Todos os continentes diante do trono; e Em tua graça.)

A seguir, houve um pequeno intervalo, e boa parte dos participantes ocupou 82 salas de três prédios da PUC para o estudo bíblico.

Depois de visitar a sala da imprensa e alguns estandes e de se encontrar com o rabino Henry Sobel e a argentina Alicia Vasquez, diretora geral adjunta de cultos do Governo da cidade de Buenos Aires, o Mineiro voltou para o hotel. Sobel brincou com ele: “Eis aqui um judeu no meio de muitos cristãos”.

No estande da Livraria e Editora Padre Reus o Mineiro comprou o Dicionário do Movimento Ecumênico (Editora Vozes, 2005). Trata-se da tradução da segunda edição da obra lançada em 1991 pela WCC Publications, em Genebra.

Tudo muito estranho
O motorista de táxi que levou o Mineiro ao hotel contou-lhe que havia lido no jornal Zero Hora que certo pastor gay iria casar-se no início de março com seu companheiro. Com receio de que isso tivesse alguma relação com a Assembléia do CMI, o Mineiro comprou o jornal (edição de 21 de fevereiro de 2006) e leu a manchete: Igreja gay celebra culto na capital. A reportagem não somente confirmava a informação (o pastor chama-se Gelson Piber, um gaúcho que mora em Niterói), como também mencionava o culto realizado na capela da PUC na manhã do dia anterior pela ICM (Igrejas da Comunidade Metropolitana), uma denominação protestante que abriga bispos, pastores e fiéis homossexuais, fundada em Los Angeles em 1968.

Alarmado, o Mineiro se perguntou: Como é possível tratar a Bíblia com tanto respeito, colocá-la aberta solenemente no púlpito e, depois, não levá-la em consideração? Melhor seria, pensou, acabar com esta história de sola Scriptura (só a Bíblia como regra de fé e prática) e dar livre vazão a quaisquer nova doutrina e nova prática que não contrariem os desejos da carne.

No dia seguinte, 22 de fevereiro, logo após a celebração matutina, cuja ênfase não poderia ser mais apropriada (Deus, em tua graça, transforma as nossas igrejas), e a repetição do cerimonial de colocação das Escrituras no púlpito, o Mineiro foi visitar dezenas de estandes de ministérios e organizações não-governamentais cristãos internacionais, recolhendo prospectos, revistas e outros materiais que estavam disponíveis. Não é que, de repente, ele deu de cara com o estande da ICM? Quem o atendeu não foi outro senão o próprio Gelson Piber, o pastor que introduziu a ICM no Brasil, cujo casamento com outro homem estava marcado para março. O diálogo que se seguiu foi fácil, porque Gelson havia sido assinante e leitor da revista Ultimato, inclusive dos artigos sobre homossexualidade e o movimento gay. Ele admitiu que, embora contrária à prática homossexual, a revista não é homofóbica.

Dizendo-se impossibilitado de controlar a sua homossexualidade, descoberta na adolescência, Gelson, 43 anos, citou a passagem das Escrituras mais querida do movimento gay: “Este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados. Eram altivas e cometeram práticas repugnantes diante de mim. Por isso eu me desfiz delas, conforme você viu” (Ez 16.49-50). Não foi difícil ao Mineiro mostrar ao pastor da ICM de Niterói que, de fato, a injustiça social de Sodoma e Gomorra foi apenas um dos motivos da destruição daquelas cidades. O outro foi a prática generalizada da sodomia (palavra derivada do nome da principal das cidades da planície), conforme se lê no capítulo 19 de Gênesis. O interlocutor não negou, mas explicou que, no caso histórico de Sodoma e Gomorra, o problema moral não foi o homossexualismo em si, mas o abuso sexual (os homens da cidade, dos mais jovens aos mais velhos, queriam ter relações sexuais com os dois anjos que estavam sob a proteção de Ló). Em outras palavras, na leitura dos homossexuais, a prática homossexual sem abuso sexual não é pecado — uma conclusão muito simplista, retrucou o Mineiro. Não é assim que as Cartas de Pedro e de Judas tratam o problema de Sodoma e Gomorra. O primeiro se refere ao “procedimento libertino” dos habitantes de ambas as cidades, que “não tinham princípios morais” (2 Pe 2.7) e seguiam “os desejos impuros da carne e desprezavam a autoridade” (2.10). Judas, o irmão de Tiago, afirma que os conterrâneos de Ló “se entregaram à imoralidade e a relações sexuais antinaturais” (Jd 7, NVI), ou “à imoralidade sexual e à perversão” (na tradução das Cartas às Novas Igrejas), ou à prática de “desenfreada prostituição e vícios contra a natureza” (CNBB). Muito antes dessa tentativa de abuso sexual contra os dois anjos, já se dizia que “os homens de Sodoma eram extremamente perversos e pecadores contra o Senhor” (Gn 13.13). A decisão irrevogável de destruir a cidade é anterior ao cerco da casa de Ló e foi provocada porque havia “terríveis acusações contra Sodoma e Gomorra” e porque o pecado dos seus moradores era “muito grave” (Gn 18.20, NTLH). (Veja A Metropolitana por ela mesma.)

Por coincidência, no mesmo dia da realização do culto da ICM na capela da PUC (20 de fevereiro), o Vaticano lançava uma ofensiva contra a cultura gay e organizava conferências com teólogos e psicanalistas com o objetivo de frear, em vários países, a legalização do casamento entre homossexuais e a adoção de filhos por casais do mesmo sexo (Zero Hora, 21/02/2006, p. 31; Folha de São Paulo, 21/02/2006, p. A10).
O programa da assembléia incluía um Bate-papo com a ICM, para o início da tarde do dia 22, em três salas diferentes, mas no mesmo horário. Na primeira, o diálogo aconteceu com as bispas Nancy Wilson e Dianne Fisher; na segunda, com a bispa Darlene Garner (do México) e a reverenda Araceli Ezzatt (do Uruguai); e na terceira, com o pastor Gelson Piber.

A tendência hoje é libertar os homossexuais dos antigos armários e colocar em seu lugar os chamados homofóbicos (designação imprópria, pois pode se referir tanto aos que mandam gays e lésbicas para campos de concentração, como aos que, por razões bíblicas, se opõem à prática homossexual). 

Tudo muito social
O Mineiro ficou estupefato com a quantidade e abrangência dos ministérios especializados que se dedicam a aliviar o sofrimento humano, representados nos muitos estandes armados no local da assembléia. É possível que o maior sucesso do CMI seja gerar e encorajar a responsabilidade social da Igreja. O discurso dessa ala ecumênica não fica só na palavra. Ele é acompanhado de ação ao redor do mundo.
As preocupações vão desde o cuidado com a sobrevivência de grupos minoritários do Kalahari, o segundo maior deserto do planeta, até os intricados problemas políticos e sociais do Haiti, o país mais pobre da América. E englobam também o caso dos cinco jovens cubanos que estão presos nos Estados Unidos desde 1998. Não seria exagero dizer que as igrejas membros do CMI e o próprio CMI estão enxergando todos os buracos da humilhação humana cavados tanto nos países em desenvolvimento como nos países abastados.

Poderíamos dizer que eles se metem em tudo; nas questões mais variadas, mais complexas, mais remotas e mais recentes. A julgar pelo que o Mineiro viu nos estandes e leu nos prospectos de várias ONG’s, é possível fazer uma lista ainda que incompleta das diferentes preocupações: o público alvo deles são os sem-terra, os sem-teto, os sem-água, os sem-saneamento, os deficientes físicos, os refugiados de guerra (nunca houve tantos nativos fora de sua própria terra como atualmente), os meninos de rua, as meninas exploradas pelo turismo sexual, as vítimas de catástrofes naturais, os imigrantes etc. Eles trabalham com a questão ambiental, com o problema palestino, com a eliminação da pobreza, com a questão da engenharia genética, com o combate à aids, com a dramática separação entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte, com a questão do microcrédito, com a violência urbana, com o problema da violência contra as mulheres, com os povos indígenas e assim por diante. Só sobre o problema da aids houve cerca de quarenta seminários ou oficinas durante a assembléia.

Parece que os países nórdicos da Europa (todos de maioria luterana) e a Alemanha (luterana e católica) têm maior destaque nesse tipo de ministério.

O Mineiro não encontrou estande algum voltado para evangelização e missões. Aí as coisas complicam bastante, porque não se pode substituir reconciliação com Deus por reconciliação com o homem, evangelização por ação social nem salvação por libertação política.

As palavras de Jesus aos fariseus — “Vocês devem praticar estas coisas [a justiça, a misericórdia e a fidelidade] sem omitir aquelas [o dízimo da hortelã, do endro e do cominho]” — se aplicam tanto aos cristãos preocupados exclusivamente com a justiça social como aos cristãos preocupados exclusivamente com a salvação da alma (Mt 23.33). Um dos mais sérios documentos do cristianismo do século passado — o Pacto de Lausanne — é um esforço para equilibrar ambas as coisas. 

Tudo muito sincrético
O CMI já realizou oito assembléias em cinco continentes no correr de sua história de quase 58 anos. É a primeira vez que a reunião acontece na América Latina, fato que deveria ter chamado a atenção da mídia nacional, o que não aconteceu. O Brasil foi escolhido por causa da “riqueza de experiência ecumênica do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC)”. Aconteceu em Porto Alegre, e não no Rio de Janeiro, São Paulo ou Brasília, por causa da fama internacional que a capital gaúcha alcançou por ter hospedado duas vezes o Fórum Social Mundial. Curiosamente o Rio Grande do Sul é um dos Estados mais apáticos e secularizados do país, de maior pobreza evangélica e de maior riqueza espírita e umbandista. (O Mineiro, que morou em Porto Alegre em 1969, observou que quase nenhuma janela de apartamento se abriu por ocasião da Caminhada da Paz, realizada pelo CMI na noite do dia 22 de fevereiro, apesar de ela ter sido precedida pela bateria de uma escola de samba e apesar de o Zero Hora ter anunciado que dois ganhadores do Prêmio Nobel da Paz participariam dela.)

Antes da caminhada, houve uma concentração no largo Glênio Peres, no centro de Porto Alegre, com apresentações artísticas multirraciais e multiculturais — crianças e adolescentes guaranis, grupo afro, moças de ascendência palestina etc. O serviço de som, cedido pela Prefeitura, estava péssimo. Quem mais se demorou no palco e mais chamou a atenção tanto no programa da praça como no da caminhada foi um grupo de jovens da Legião da Boa Vontade. Eles carregavam faixas e um andor com uma enorme figura de Jesus Cristo. Outro grupo muito visível, por vestir roupas e turbantes brancos, era formado de umbandistas e africanistas. Dois meninos de rua, sem camisa nem sapato, subiram no palco e fizeram piruetas, enquanto a americana Bernice Powell Jackson, uma dos presidentes do CMI, dirigia uma solenidade. Repórteres estrangeiros não perderam a oportunidade de fotografar o problema social.

Ali no largo Glênio Peres, o Mineiro bateu um papo com um homem que estava envolto na bandeira do Vaticano e carregava um quadro com a fotografia do papa João Paulo II. Ele é ex-seminarista, torce pela canonização do papa recém-falecido e mora em Guaíba, RS, onde “há 87 igrejas cristãs”. Conversou também com dois jovens que portavam uma bandeira de Cuba para tentar localizar alguns participantes cubanos do CMI que eles hospedavam. Os dois cursaram medicina em Havana, de 1998 a 2005.
A cena final realizada no largo foi o ato de passagem do foco na Ásia em 2005 para a América Latina em 2006 e a cerimônia da Bênção da Luz. Esta última foi dirigida pelo grupo de diálogo inter-religioso de Porto Alegre, formado por religiosos islâmicos, zen-budistas, africanistas, hinduístas, espíritas, católicos, luteranos e episcopais. Do alto do palco, eles se voltavam para o Norte, para o Sul, para o Ocidente e para o Oriente, diziam algumas palavras e abençoavam cada um dos pontos cardeais. Então, dom Dadeu Grings, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, acendeu uma grossa vela de mais de um metro de altura, na qual estava escrita a palavra paz em diversas línguas; a bateria de uma escola de samba começou a tocar e deu-se início à Caminhada da Paz, em direção à praça da Matriz.

Mais ou menos no meio da caminhada, na Esquina Democrática, Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, declamou um pequeno poema. A partir daí, a bateria da escola de samba cessou e o povo acompanhou os cânticos e os mantras que dois ou três cantores entoavam ao microfone.

O ponto final da caminhada foi a praça da Matriz, onde o arcebispo Desmond Tutu, Nobel da Paz de 1984, pregou sobre a célebre promessa de paz contida em Miquéias: “[Deus] julgará entre muitos povos e resolverá contendas entre nações poderosas e distantes. Das suas espadas farão arados, e das suas lanças, foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra outra, e não aprenderão mais a guerra” (Mq 4.3).

O coral da assembléia cantou, o povo fez a leitura conjunta da Oração Universal pela Paz, e cada um foi para sua casa. Faltava pouco para a meia-noite. (Ver O caldeirão religioso da América Latina.)

Tudo muito complicado
O Mineiro gastou umas duas horas no estande da WCC Books (editora do Conselho Mundial de Igrejas). Escolheu e comprou vários livros, e folheou o volumoso Growth and Agreement II (941 páginas), que relata os diálogos e as conversações (o autor faz diferença entre uma coisa e outra) ocorridos entre vários grupos cristãos no período de 1982 a 1998.

A primeira parte ocupa 293 páginas e trata dos diálogos entre anglicanos e luteranos, metodistas, reformados e ortodoxos; entre luteranos e batistas, metodistas, ortodoxos e discípulos de Cristo; entre ortodoxos do Oriente e ortodoxos do Ocidente e veterocatólicos. A segunda parte ocupa a metade do livro (458 páginas) e trata dos diálogos entre católicos e anglicanos, batistas, evangelicais, luteranos, metodistas, reformados, discípulos de Cristo, pentecostais, ortodoxos orientais e entre a Igreja Católica do Ocidente e a Igreja Assíria. A terceira parte ocupa 114 páginas e trata do relacionamento do CMI com a Igreja Católica Romana. A última parte traz um pequeno resumo da história do CMI.

O Mineiro não conseguiu imaginar quantas reuniões foram realizadas, quantas pessoas foram envolvidas, quantas horas foram gastas, quanto dinheiro foi desembolsado e quantos resultados práticos foram obtidos. Naturalmente alguma coisa positiva aconteceu. O denominacionalismo deve ter diminuído e a preocupação com a unidade deve ter aumentado. Porém, é também certo que o esforço ecumênico provocou novas divisões no seio das igrejas. Os cristãos apaixonados pelo anúncio do evangelho, principalmente entre os povos não alcançados, bem que gostariam de ver pelo menos parte desse dinheiro canalizado na evangelização dos perdidos (palavra que deve causar arrepios nos meios liberais).

O Mineiro leu o relatório de dezesseis páginas apresentado à assembléia de Porto Alegre por seu moderador, Aran I, residente em Antelias, no Líbano. Apesar de todo o esforço feito a partir de 1948, ano da fundação do CMI, na Assembléia de Amsterdã, e apesar de a organização ecumênica reunir hoje 348 igrejas protestantes, anglicanas, ortodoxas e outras, representando mais de 560 milhões de cristãos em 110 países, “o movimento ecumênico enfrenta uma crise de credibilidade e de relevância”. O relatório do moderador afirma que o ecumenismo hoje “oscila entre integração e desintegração, parceria e fragmentação, ‘defensoria’ e comunhão, bilateralismo e multilateralismo”.

Ao assumir a responsabilidade de moderador em 1991, Aran I afirmou: “O mar está agitado e nós somos chamados por Deus a navegar o barco ecumênico, pelo poder do Espírito Santo, através desse mar agitado”. Agora em Porto Alegre, passados quinze anos, o moderador manteve a figura do mar agitado: “Ao navegar através das tempestades, o barco ecumênico pode estar fazendo água. Alguns dirão que está naufragando. Creio intimamente que nossa coragem espiritual de buscar novos horizontes, nossa profunda fé e esperança por um novo futuro, nosso inabalável comprometimento na causa ecumênica, guardarão o barco ecumênico firme e bem norteado em meio às terríveis turbulências do mundo”. As perguntas estão no ar e nas ondas: O barco vai afundar? Quando? Por quê?

O editorial do Jornal do Brasil de 15 de março de 2006 diz que o diálogo “é o melhor atalho para mediar conflitos entre vozes discordantes e aplacar a fúria dos fundamentalismos mais dementes”. O jornal se refere aos conflitos entre israelenses e palestinos. Mas pode referir-se também aos conflitos religiosos. O dominicano Juan Bosch Navarro, professor de ecumenismo e teologia protestante na Faculdade de Teologia San Vicente Ferrer, em Valença, na Espanha, explica que “o diálogo é o fio condutor que percorre todo o movimento ecumênico”. E o diálogo sério, avisa Navarro, “exclui, por definição, a busca fácil da unidade quando se subestima a própria verdade” (Para Compreender o Ecumenismo, pp. 41 e 49).

A maior parte dos cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes, confessa honestamente, como Karl Barth, que “toda divisão, enquanto tal, é um profundo enigma, um escândalo”. Mas o mesmo teólogo suíço, morto em 1968, também afirma que “podem existir boas razões para se estabelecer essas divisões [e] pode haver sérios obstáculos para chegar a eliminá-las” (Idem, p. 84).

Só Deus sabe quantas divisões são produtos não do zelo doutrinário nem do amor apaixonado por Jesus Cristo, mas da estreita ligação delas com a falta de amor, a intolerância, o radicalismo, a preservação do patrimônio histórico e material, o poder temporal, a política, os nacionalismos, a vaidade humana.

Se na prática ecumênica não houver o verdadeiro equilíbrio, a situação da igreja vai piorar. A abertura não pode diluir nem sacrificar “o evangelho da glória do Deus bendito” (1 Tm 1.11) nem a “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A abertura ecumênica sempre é um risco para o mandato missionário. Se não houver fronteiras, principalmente no diálogo inter-religioso, o cristão se vê na obrigação de não abordar certas questões que aborrecem o seu interlocutor. O movimento ecumênico demasiadamente amplo é obrigado a abandonar palavras-chave como pecado, salvação e condenação. Na tentativa de resolver o problema do legalismo, da hipocrisia moral, da ditadura dos usos e costumes, o esforço ecumênico não pode destruir a culpa terapêutica produzida pela pesada mão de Deus nem proclamar o perdão fácil, sem arrependimento e conversão, e a liberdade total (quando sinônimo de licenciosidade).

O barco ecumênico vai naufragar mais cedo ou mais tarde “se o CMI persistir em tentar unir as igrejas em torno das idéias liberais em vez de em torno da ortodoxia bíblica”, declarou Alan Wislom, presidente interino do Instituto de Religião e de Democracia. Se isso está acontecendo e continuar a acontecer, a liderança ecumênica será obrigada a ouvir a denúncia de Russel Moore, do Seminário Teológico Batista do Sudoeste dos Estados Unidos: “O Conselho Mundial de Igrejas tem sido uma butique de uniformes do cristianismo”!

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