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Exclusivo On-line — Muito além do ponto sem retorno


Marcos D. Mateus


Durante a década de 70, quando o mundo já enfrentava alguns dos mais difíceis desafios ambientais, o cientista James Lovelock chamou atenção sobre si com uma nova e ousada hipótese que descrevia o planeta Terra como uma entidade viva. As suas idéias que explicavam o comportamento do planeta como um super-organismo foram então compiladas no livro “Gaia – a new look at life on Earth”, publicado em 1979. O professor Lovelock, que se opunha frontalmente a qualquer personificação de Gaia, escolheu este nome como uma metáfora poética. Ainda que a Hipótese de Gaia tenha vindo a ser aceita de uma forma geral pelo público como uma teoria científica, está longe de ser aceita pela comunidade científica como tal. Apesar dos argumentos científicos conferirem à hipótese alguns contornos de seriedade, não é difícil encontrar nela alguns traços de animismo à escala global. A idéia de um superorganismo, defendida pela Hipótese de Gaia, parece ter tanto de ciência como de religião pagã, onde a Terra é vista como a Deusa Mãe. Não é por acaso que muitos pagãos hoje em dia (seguidores da antiga religião) estabeleçam uma ligação entre a deusa Mãe Terra e as preocupações ecológicas. Mas, mesmo que não concordemos totalmente com as visões de Lovelock para o planeta, não é muito difícil ver a Terra como uma entidade que reage às agressões humanas.

Agora, quase 30 anos depois, os cabeçalhos dos jornais voltam a colocar o professor Lovelock num lugar de destaque. Desta vez ele cativa a atenção global com uma afirmação chocante. “Já passamos o ponto sem retorno”, afirma ele, em alusão às alterações climáticas que empurraram o planeta para uma situação da qual é impossível retroceder. O professor Lovelock tem continuado a explorar a as suas idéias sobre a Hipótese de Gaia, e os seus desenvolvimentos serão apresentados num novo livro com o titulo “The Revenge of Gaia”, no qual ele prevê que o sistema regulador Terra irá acelerar sem controle em resposta às atividades humanas nocivas. A voz do professor Lovelock ecoa a preocupação de muitos outros cientistas e investigadores. De acordo com as suas alegações, não há qualquer esperança para a humanidade. Para além de toda a informação científica e estatísticas atuais, somos deixados com uma voz de desespero de mais uma descrição de um cenário apocalíptico não muito longe no futuro.

Sendo um sistema complexo, com uma dinâmica intrincada e que se altera, a Terra está constantemente a responder às atividades humanas ou, como alguns preferem dizer, a adaptar-se. Algumas destas adaptações, no entanto, são prejudiciais porque se manifestam na substituição ou extinção de habitats e espécies. Essas alterações significam frequentemente a perda permanente de fauna e flora a uma escola local, mas também podem implicar o desaparecimento integral de ecossistemas. Com uma frequência crescente, a resposta da Terra está a acontecer a uma escala global, e esta reacção holística acrescenta credibilidade à ideia que defende que todos os sistemas estão interligados e são controlados por mecanismos complexos (e desconhecidos). Se na verdade a Terra se comporta como um superorganismo, então caminha em direcção a uma super falha sistêmica, na qual alguns sistemas estão a entrar em falência, induzindo outros em falência também numa reacção em cadeia imparável.

Segundo dados recentes, a extinção é uma ameaça real para 10-30% de espécies de mamíferos, aves e anfíbios. Para além disso, e como consequência de agressões continuadas, muitos ecossistemas estão agora no limiar do colapso. Os resultados do Millennium Ecosystem Assessment referem que nos últimos 50 anos a humanidade tem alterado os ecossistemas mais rapidamente e extensivamente que em qualquer outro período de igual duração da história humana. Mas quando, mais precisamente, passamos nós o ponto sem retorno? Nos anos mais recentes? Nas últimas décadas? Algures no decorrer do último século? De um ponto de vista prático, é frequentemente apontado o aparecimento do homem à face do planeta como o acontecimento que marca o ponto sem retorno para o ambiente. Mas o homem é também parte deste super-sistema planetário e, por conseguinte, o ponto sem retorno dificilmente pode ser atribuído ao seu aparecimento. Consequentemente, não a humanidade mas as suas acções, são responsáveis pelos efeitos irreversíveis no destino da natureza.

Andando para trás no percurso da história humana e olhando para os principais empreendimentos que tiveram um impacto significativo na natureza, pode-se salientar a revolução industrial iniciada em meados do século XVIII e, andando muito mais para trás, o aparecimento e intensificação da agricultura. Tomando em conta o impacto que ambos os empreendimentos tiveram na natureza, eles marcam de certa forma a passagem de um ponto sem retorno. No entanto, aqueles que acreditam no relato bíblico podem ir buscar o ponto sem retorno mais atrás no passado, no ato de desobediência do homem ou, em termos teológicos, naquilo que se conhece como a queda. Deste momento para a frente, a natureza perdeu o seu estado original, um acontecimento que comprometeu não apenas o seu equilíbrio homeostático, mas também os seus mecanismos de regulação.

O que acontece é que com o passar do tempo estamos a progredir a um ritmo mais acelerado, muito mais acelerado no último século do que em qualquer outra altura. Por conseguinte, o ponto sem retorno está muito atrás de nós, longe demais e fora de vista, perdido algures abaixo da linha do horizonte da história humana como nós a narramos. Ainda assim, o professor Lovelock está certo quando diz que passamos o ponto sem retorno, mas ele falha na cronologia.

Pouco depois de o professor Lovelock fazer as suas afirmações, vozes mais conservadoras fizeram-se ouvir, dizendo não haver motivo para desespero. Estas vozes podem trazer algum alívio, mas não trazem qualquer esperança. O fim de todas as coisas está próximo, mas não tanto, dizem alguns, sugerindo haver ainda tempo para reverter as coisas. Pode ser até que não tenhamos ainda passado o ponto sem retorno. Independente da posição de cada um, existe uma ameaça real e as coisas pioram a cada dia que passa. A Terra parece estar condenada e a natureza é que está a pagar a fatura mais alta. O professor Lovelock sabe-o, assim como muitos outros cientistas, ainda que não estejam dispostos a admiti-lo publicamente. Mas estas não são notícias recentes. Há quase dois milênios atrás, S. Paulo sabia isto e não era um cientista do ambiente. Ele sabia que a natureza tinha os dias contados e, na sua carta dirigida aos cristãos em Roma, ele chegou mesmo a dizer que a natureza estava a gemer na espectativa da redenção, isto é, na reversibilidade da atual situação. Ou, de uma forma mais simples, de voltar ao seu estado anterior ao ponto sem retorno.

No fim, diz o professor Lovelock, a Terra vai exercer a sua vingança tornando a vida insuportável num processo que ele designa de “Vingança de Gaia”, também o titulo do seu novo livro. Aparentemente, tanto a ciência como a crença popular cristã projectam um cenário semelhante para os últimos dias da Terra: a destruição total. Mas há um pormenor... no final, diz S. Paulo, Deus irá redimir toda a criação, conferindo à natureza o seu estado original, antes do ponto sem retorno ter sido atravessado, livre da morte e da deterioração[1]. E livre do abuso humano, poderá ser acrescentado. Numa perspectiva cristã, o destino final da natureza será a re-criação e não a destruição total. A vida será restaurada e não aniquilada. E aqui reside a esperança daqueles que vêem a Terra como um lugar especial na criação de Deus.

Entretanto, se a natureza está numa espiral descendente em direcção à sua destruição, como sugere o professor Lovelock, então não há como voltar atrás, nenhuma mitigação da sua condição fatal, nenhuma cura ao nosso alcance. Qualquer esforço para evitar este desfecho será em vão. Face a esta realidade, a única escolha sábia parece estar na prestação de cuidados paliativos. Parece que não conseguimos reverter o estado atual ou erradicar as suas causas, mas podemos minimizar as suas manifestações e tentar eliminar causas adicionais de stress que poderão agravar a atual situação. De novo, somos chamados a cuidar da Terra, a reduzir o seu sofrimento e promover o seu bem-estar nestes momentos finais da sua existência como a conhecemos.

O cuidado pela criação é um dos valores basilares do judaísmo e do cristianismo, não porque a natureza é uma componente de um super organismo, não por medo das consequências (apesar de poder ser uma escolha inteligente), mas em consequência da admiração, devoção e obediência ao seu Criador. Mesmo face ao agravar do estado de saúde da natureza e sabendo não haver cura ao alcance, temos a missão de estar preocupados com ela e de procurar ativamente o seu manuseio com cuidado.

A natureza não é nossa para que possamos fazer dela aquilo que queremos ou o que nos servir melhor a qualquer dada altura. A incapacidade humana em cuidar da natureza é obvia. A negligência persistente de algumas nações mais desenvolvidas do mundo com os seus esforços persistentes de sobre-exploração dos recursos naturais é, provavelmente, o exemplo mais visível de um vasto rolo de abusos. No entanto, face ao sinais evidentes de fraca saúde, estas mesmas nações têm aumentado os seus esforços de protecção ambiental, têm implementado políticas de gestão de recursos mais rígidas e planeado estratégias de desenvolvimento sustentável. Mas todo este empenho pretende apenas cumprir as exigências do conceito vago de “desenvolvimento sustentável”, que tem sido o mantra amigo do ambiente das últimas décadas. No entanto, atrás de uma fachada de preocupação pelo ambiente, estes esforços não têm qualquer preocupação ecológica. Aparentemente, pouco está a ser feito para evitar mais exploração dos recursos e, como consequência, tentamse curar os sintomas uma e outra vez, mas nunca a doença.

Como nota final, um outro exemplo do status quo dos nossos ecossistemas deve ser mencionado, uma vez mais retirado do Millennium Ecosystem Assessment. Aproximadamente 20% dos recifes de coral do planeta, um dos ecossistemas mais belos e frágeis, perderam-se e 20% foram degradados nas últimas décadas. Para além da destruição causada pelo aquecimento global e pelo aumento de tempestades, a agricultura está a causar elevados danos a estes sistemas. O melhor exemplo desta realidade é provavelmente encontrado na Austrália, onde o cultivo da cana do açúcar está a comprometer a grande barreira de coral. Os nutrientes utilizados como fertilizantes estão a ser transportados para o mar e a despoletar surtos da estrela-do-mar “coroa de espinhos” (Acanthaster planci) na barreira de coral. Elevados números destas estrelas-do-mar têm causado sérios problemas visto que elas se alimentam de coral vivo. Uma vez que a “coroa de espinhos” está a crescer a taxas nunca antes vistas, está a consumir o coral a um taxa mais elevada do que aquela à qual ele consegue crescer. A consequência obvia é que os corais estão a desaparecer a uma velocidade preocupante, ficando para trás esqueletos de coral infestados de estrelas-do-mar “coroa de espinhos”.

Este exemplo pode bem ser um ícone do progresso irresponsável, da sobre exploração, e do excessivo abuso da beleza frágil da Terra por parte do homem. Temos rejeitado a herança de manter e cuidar da natureza e, em lugar disso, passamos a olhar para ela como um bloqueio ao progresso. Com o passar do tempo, mudamos o nosso papel de mordomos para senhores da natureza, de servos para tiranos. Parece que progredimos em direcção à coroação máxima do homem como lider do velho planeta. Estamos a tecer a coroa que está a ser utilizada para dignificar o orgulho do nosso abuso da criação, desrespeito pelos outros habitantes do planeta, e desobediência ao Criador. Mas parece que esta coroa pode bem ser uma coroa de espinhos. E neste momento, já começamos a perceber isso, provavelmente porque os espinhos estão a penetrar mais fundo, não tanto na nossa consciência, mas antes no nosso bem estar e no nosso instinto de auto preservação.

    Links

http://comment.independent.co.uk/commentators/article338830.ece

http://www.energybulletin.net/12126.html

http://www.medialens.org/alerts/06/060116_the_point_of.php

http://www.commondreams.org/headlines06/0116-06.htm

http://www.maweb.org/en/index.aspx


    Nota
1. Romanos 8:18-22

Marcos Mateus é presidente de direcção de A Rocha em Portugal e doutorando em meio ambiente. mmateus.maretec@ist.utl.pt

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