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Colunas — Ponto final

Justificando a existência

Rubem Amorese

Conheci um diácono que atrapalhava os cultos. Ele circulava no salão, atarefado, carregando uma criança perdida, levando um recado ou um alerta de farol ligado no estacionamento. Fazia tudo com seriedade e zelo, talvez em demasia.

Na mesma igreja havia um presbítero que não permitia que a reunião do conselho terminasse sem polêmica. Era necessário “aprofundar o tema”. Era com indisfarçável alívio que se registravam suas ausências. Nesse caso, todos já sabiam que a reunião seria menos complicada e terminaria mais cedo.

Certa senhora não parecia ter grandes problemas financeiros nem familiares. Era bem de vida e com os filhos já criados. O mal dela era o cansaço. Ela olhava com uma expressão que parecia querer dizer: “Ufa, veja como estou cansada, mas estou firme”. Não se sabe de onde vinha tanta fadiga, mas parecia que “precisava” que todos validassem seu cansaço. Talvez isso justificasse sua existência.

Isso me lembra um colega de trabalho que costumava andar apressado pelos corredores, olhando para baixo, falando sozinho, carregado de documentos. Ele parecia sempre atarefado com missões de alta importância. Aconteceu que ele teve um infarto. No hospital, percebia-se excitação em seu semblante, quando falava das tarefas que estariam se acumulando com sua ausência e da sobrecarga terrível que teria para tirar o atraso, quando voltasse. Mas todos sabiam que o chefe redistribuiria suas tarefas, até que ele voltasse.

Estranhamente, aquele infarto fora uma glória. Como que a coroar toda uma vida de dedicação ao trabalho. Sim, o seu corpo atestava que ele estava dando mais do que podia. Talvez ele acreditasse que, depois daquele hospital, jamais perderia o cargo.

Há momentos em que, para não admitirmos que nossa existência é menos relevante do que gostaríamos que fosse, dedicamos tempo e conversa a reparar como conhecidos e irmãos “vivem mal”. Oramos por eles e nos sentimos bem. Na verdade, não tanto por termos orado por irmãos, mas por termos fixado um desnível que nos favorece. E esse algo mais não-verbalizado que somos ou temos em relação aos irmãos nos traz certo conforto; justifica nossa existência.

Entre cristãos, creio que isso ocorre quando perdemos de vista os desafios concretos do reino e permitimos, por algum motivo, que nossa missão se reduza a contribuir financeiramente, ou com oração, para as atividades daqueles que estão na linha de frente. Quando nossa vida de crente se distancia dos filhos, dos necessitados, do trabalho, passamos a elaborar, inconscientemente, justificativas para nossa existência. A tal ponto que até pequenos acidentes, como um corte de faca na cozinha ou o carro levemente amassado no trânsito, vêm a calhar, pois nos permitem contar como Deus está conosco e nos livra de uma possível tragédia.

Minha convicção é que não precisaremos mais inventar razões para existir quando crermos verdadeiramente que o amor incondicional de Deus traz segurança e significado à nossa vida: “Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.22). E que o seu serviço há de validar toda a nossa existência: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4.34).

Rubem Amorese é consultor legislativo no Senado Federal e presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Icabode — da mente de Cristo à consciência moderna.
rubem@amorese.com.br

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