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Exclusivo On-line especial — 488 Anos de Reforma Protestante — Paulo versus Tiago

Fé ou obras?

Paulo versus Tiago: fé ou obras?

Ricardo Gondim

O ar condicionado não vencia o calor. Éramos um bom número de universitários amontoados em uma minúscula sala, debatendo fervorosamente. O clima já quente aquecia ainda mais. Estávamos em uma reunião da Aliança Bíblica Universitária e eu me iniciava no mundo das controvérsias religiosas. “O crente perde ou não a salvação? Ela é condicional ou incondicional? A graça nos alcança antes do arrependimento ou depois que demonstramos contrição?” Rapidamente nos entrincheirávamos em nossas posições e nos delongávamos à cata de versículos bíblicos que nos ajudassem no próximo encontro. Jocosamente apelidamos os defensores da salvação incondicional de “crentes da eternona”. Os defensores da salvação condicional receberam o rótulo de “cristãos da borracha”, já que Deus precisaria de uma borracha para apagar seus nomes no livro da vida todas as vezes que pecassem.

Naqueles dias, não compreendíamos a extensão de nossos debates. Sem saber, perpetuávamos um dos mais controversos temas do cristianismo. Discórdia que, segundo alguns, começou com os escritos de Paulo e de Tiago. Paulo, defensor da graça irrestrita, estaria em oposição teológica a Tiago, que insistia que a fé sem obras é morta.

Os defensores da “eternona” têm munição: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9); “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1.17). Em nossas tertúlias alguns vociferavam: — Estes versículos e mais centenas de outros comprovam a doutrina paulina que somente a graça é capaz de salvar. O grupo da “borracha” não hesitava: — Por que então Tiago pergunta enfaticamente: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou” (Tg 2.21-22)?

Quem estaria certo? Qual posição mais se aproximava dos ensinos de Jesus? Os da “eternona” defendiam seus pontos de vista com textos paulinos, os da “borracha” buscavam nos evangelhos as parábolas das virgens néscias e dos servos negligentes; na carta aos Hebreus, nas epístolas universais de Pedro e de Judas, textos que lhes provassem mais apostólicos.

Mal sabíamos que nossas diferenças nos dividiam como evangélicos bem como sinalizavam uma divisão ainda mais profunda no cristianismo: católicos romanos e protestantes.

Desde que o monge agostiniano Martinho Lutero, subindo as escadarias de seu mosteiro entendeu o texto de Romanos que o justo viverá pela fé, aprofundou-se o enorme abismo da compreensão de salvação. Lutero resgatava o ensino do mentor e fundador de sua ordem no catolicismo: Santo Agostinho, que certamente foi quem mais influenciou o cristianismo depois de Jesus Cristo e do apóstolo Paulo. Monge no norte da África no século V, herdeiro de um passado fortemente enraizado na filosofia neoplatônica e egresso de um sistema religioso herético chamado de maniqueísmo, Agostinho escreveu e refletiu sobre assuntos como a trindade, a graça irresistível, livre arbítrio e predestinação. Seus livros foram duramente criticados por Pelágio, um monge inglês que tentava refutar a doutrina da predestinação. Ele insistia que as pessoas têm livre arbítrio para obedecer a Deus. Agostinho mantinha que o pecado de Adão acorrentava a vontade dos homens e os obrigava a escolher sempre o mal. Pelágio afirmava o contrário. Se Deus ordena que as pessoas pratiquem o bem é porque sabe que é possível optar entre a virtude e o vício. Um Concílio o condenou como herético. Sua afirmação que o ser humano é naturalmente bom e capaz de fazer o bem, sem a ajuda do Espírito Santo, contradizia o ensino da igreja. Pelágio acabou desacreditado. Agostinho fortaleceu-se e hoje é reconhecido como um dos maiores teólogos da igreja.

Lentamente a teologia católica romana foi se afastando desse conceito agostiniano. Os místicos da Idade Média e, principalmente, Tomás de Aquino re-elaboraram sobre o livre arbítrio. Em sua Suma Teológica, Aquino dizia que a liberdade da vontade é uma das exigências mais elementares da filosofia e, portanto, ela não pode ser negada: “Se não houvesse vontade livre, os nossos atos careceriam ipso facto daquele caráter que os torna dignos de louvor ou de repreensão: já não poderia haver questão da moralidade.”

O veredito de Lutero foi taxativo: “Portanto, as palavras de Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o ‘livre-arbítrio’ seja total e completamente inexistente.”

Quando o famoso teólogo de Genebra, João Calvino, sistematizou a teologia reformada de seus dias, tornou-se o mais influente pensador do mundo protestante. Calvino, assim como Agostinho, definiu que Deus, sendo soberano, onisciente, eternamente justo e bom, decidia o destino eterno de todas as pessoas. Nas suas Institutas, assim descreveu o que entendia por predestinação: “Chamamos predestinação ao eterno decreto de Deus, pelo qual determinou em si mesmo o que ele quis que todo o indivíduo do gênero humano viesse a ser. Porque eles não são criados todos com o mesmo destino; mas para alguns é pré-ordenada a vida eterna e, para outros, a condenação eterna. Portanto, sendo criada cada pessoa para um ou outro destes fins, dizemos que é predestinada ou para a vida ou para a morte.”

Logo sua posição foi contestada dentro dos círculos protestantes. Assim, Jacobus Armínio seria o seu opositor. Renascia o debate sobre a fé e as obras, o livre arbítrio e a graça irresistível de Deus. Sempre com radicalizações.

Parece estranho que exatamente um assunto sem consenso tenha contribuído para agravar a divisão entre católicos e protestantes. A teologia católica solidificou-se pregando a penitência e o espírito contrito para que a graça alcance as pessoas. Por outro lado, os protestantes (sem um mínimo de unidade) insistiram na teologia da graça.

Há de se reconhecer que tanto as posições do agostinianismo reformado como as do catolicismo penitente geraram expressões de fé bonitas. Somente conscientes da graça, homens e mulheres podem celebrar a certeza da salvação ainda neste lado da vida. A graça acaba com a culpa, já que a redenção é uma conquista de Cristo e não do crente. Por outro lado, a penitência gera um esforço em buscar a santificação. A seriedade com que alguns católicos, no estilo de S. Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá, buscam penitentemente se arrepender de seus pecados e como se disciplinam querendo agradar a Deus demonstra a profunda honestidade de seus corações.

As radicalizações também desembocaram em religiosidades adoecidas. Monges se flagelavam buscando demonstrar um coração contrito e assim se tornarem alvos da graça. Filas de penitentes que “pagam” promessas nas escadarias das igrejas de romarias ressaltam a descaracterização dos textos que nos admoestam a “operar nossa salvação com temor e tremor”. Por outro lado, o calvinismo já serviu de pano de fundo para legitimar o racismo e sistemas totalitários.

Se o pomo da discórdia é tão sutil, por que tanta briga? A graça nos alcança antes de nos arrependermos. Ele nos amou primeiro. Sim, o mérito da salvação é todo de Deus (“que opera em nós tanto o querer quanto o efetuar”). Contudo, nós atendemos ao apelo do Espírito, quando poderíamos resisti-lo. Católicos precisam aprender mais sobre os dons imerecidos de Deus e protestantes não devem se esquecer que fé não é apenas um fato — fé se concretiza com atos.

Se permitirmos o diálogo, veremos que tanto católicos como protestantes podemos contribuir para o mistério da salvação. Há muitas questões que ainda nos dividem. Entretanto, alcançando algum consenso na doutrina da redenção humana, já teremos caminhado bastante.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico – por que continuar na igreja e Artesãos de Uma Nova História. <www.ricardogondim.com.br>

(Reflexão retirada da edição 255 de Ultimato, nov/dez de 1998.)

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