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Especial — Reportagem histórica

Missionários presbiterianos envolvidos com genocídio no Brasil?
Frank Arnold



O século 19 tem sido chamado de o grande século do avanço missionário, e com razão. Naquela época, as igrejas da Europa e da América do Norte se despertaram para a dimensão missionária da igreja e passaram a enviar missionários aos quatro cantos da Terra.

Em 1859, o presbiteriano Ashbel Green Simonton chegou ao Brasil e começou o trabalho de implantação de uma igreja evangélica no Rio de Janeiro. Outros se uniram a ele e em poucos anos havia o embrião de uma grande igreja nacional. Com o tempo vieram outros missionários, tanto “evangelísticos”, como também especializados em educação, agricultura e medicina, pois o alvo da obra não era apenas o estabelecimento de uma igreja, mas também o bem-estar dos brasileiros de acordo com os valores do reino de Deus. Duncan Reily, em seu livro que documenta a história do protestantismo no Brasil, comenta: “Os missionários que vieram para o Brasil tinham como meta a transformação total do país e não apenas a salvação de almas individuais do fogo do inferno”.1

Ao longo dos anos, a história da participação missionária estrangeira no Brasil tem sido, embora não sem erros, uma continuação dessa mesma meta. Mas alguns leitores ficaram chocados quando, em maio de 1967, viram em vários jornais que missionários presbiterianos estavam sendo acusados de realizarem esterilização em massa em mulheres que moravam às margens da estrada Belém–Brasília, no Maranhão.2 O jornal Última Hora não hesitou em chamar a suposta ação dos missionários de “genocídio”.3



O programa da missão

Quando a estrada Belém–Brasília foi construída, a Missão do Norte ficou responsável por acompanhar os colonos no trecho da estrada que passava pelos Estados do Maranhão e Pará. As mulheres da Igreja Presbiteriana norte-americana enviavam uma oferta especial para o sustento de missionários e plantação de igrejas na região. Ali já moravam missionários “evangelísticos”, um agrônomo e uma enfermeira. Três clínicas foram construídas, que contavam com a colaboração de missionários brasileiros, além dos americanos. A população era atendida por enfermeiras e médicos brasileiros que visitavam as clínicas ocasionalmente e muitas vezes faziam trabalho voluntário.

Devido ao alto índice de aborto e mortalidade materno-infantil, e aos riscos da prática de esterilização permanente, tornou-se necessário oferecer no programa de saúde o planejamento familiar. Como a pílula anticoncepcional tinha um alto custo na época e a população tinha pouca instrução, optou-se por oferecer o dispositivo intra-uterino (DIU), que não requeria intervenção cirúrgica nem para a colocação nem para a remoção.



“Esterilização em massa”

Como um programa de planejamento familiar na estrada Belém–Brasília tornou-se caso de “genocídio” que despertou atenção nacional? De acordo com uma brasileira que morava em Estreito, no Maranhão, o frei da localidade não agia com honestidade na distribuição do “Alimento para a Paz” que chegava até ele. As autoridades foram informadas sobre o caso e suspenderam o envio da ajuda. Por entender que haviam sido os missionários americanos os autores da denúncia, ele chamou jornalistas e acusou os missionários de praticarem “esterilização em massa” nas mulheres da comunidade.

Um dos artigos que apareceram nos jornais afirmava que 3 mil mulheres haviam sido “esterilizadas”. Mas, quando a imprensa se informou do caso, apenas 100 dispositivos haviam sido introduzidos no programa da missão.

Com poucas exceções, deixava-se a falsa idéia de que o DIU esteriliza, de maneira permanente, a mulher. Na verdade, não ocorria esterilização, pois o dispositivo pode ser removido a qualquer momento, a pedido da mulher, voltando ela a ser perfeitamente capaz de engravidar.



Um “crime”

Quase todos os jornais que comentaram o caso usaram a palavra “crime” para descrever os acontecimentos. O jornal Última Hora citou o líder da oposição dizendo que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) “disporá de recursos para apurar a ação criminosa.”4 Em artigo de primeira página, tachou o uso das “serpentinas” como “sucedâneas das câmaras de gás usadas pelos nazistas no extermínio de judeus.”5 Mas um médico da faculdade de medicina da Universidade da Bahia, que conhecia pessoalmente o trabalho da missão, em carta à enfermeira da missão, disse que o programa estava dentro da lei do país: “Não existe lei contra o planejamento da família aqui no Brasil”.6 E acrescentou: “Você não quebrou nenhuma lei [...]. O que você está fazendo nós fazemos aqui e também em todas as filiais da BEMFAM em todo o Brasil.”7



Uma “conspiração para estrangeiros ocuparem a Amazônia”

Há pouca dúvida de que a motivação por trás das acusações contra a missão americana tivesse um forte ingrediente político. Algumas das forças alinhadas contra a ditadura militar que governava na época eram anti-americanas. E não é surpreendente que logo os jornais que continuaram a enfatizar o aspecto de “crime” do trabalho dos missionários começaram a caracterizar o programa como sendo parte de uma conspiração americana contra o Brasil. O Jornal do Maranhão alegou que a “esterilização” fora feita para “evitar a promoção das classes de trabalhadores e das classes rurais”, a fim de que elas não se multiplicassem: “[Assim,] bastará uns poucos norte-americanos para manter [...] o comportamento e as reações que eles desejam. Então o país nunca se desenvolve porque não produz e além disso a classe operária nunca se liberta porque ela é estrangulada no ventre das mulheres”.8 Uma deputada foi mais específica, chamando a suposta esterilização de “uma campanha com o objetivo de despovoar aquela região para num futuro, não muito longínquo, possibilitar uma penetração alienígena”. Ela tachou tal plano de “diabólico”.9 O Diário da Manhã concordou que existia uma conspiração americana para despovoar a Amazônia, mas com a finalidade de criar um espaço para, no caso quase certo de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, receber americanos atingidos pelos efeitos da irradiação nuclear.10

O próprio jornal Última Hora citou, na edição de 3 de maio de 1967, um deputado que declarou que as acusações tinham o propósito de “desmoralização do povo norte-americano” e correspondiam a uma “manobra visando ao esvaziamento do Concílio Ecumênico, através do estabelecimento de polêmica entre religiões cristãs buscando o favorecimento da causa do comunismo”.11 O Globo entrou na polêmica na sua edição de 9 de maio, reportando: “Todas as informações até agora recebidas pelo Ministério da Saúde, procedentes da Amazônia, dão conta de que são inteiramente infundadas as acusações de “esterilização” em massa procedida por missionários estrangeiros ao longo da Belém–Brasília”. O artigo menciona que foram feitas rigorosas sindicâncias e que “não se constatou nenhum caso de esterilização”. O mesmo artigo disse que o então Ministro da Agricultura, Ivo Arzua, “desmentiu expressamente as declarações que lhe foram atribuídas sobre a constatação da ação de missionários estrangeiros em missão de esterilização na Amazônia”.12 O jornal O Imparcial citou as conclusões das investigações patrocinadas pelo Ministério da Saúde e realizadas pelo dr. Miguel Scaff, que provaram “que aplicações feitas no Norte do país não têm o sentido experimental de pesquisa ou catequese religiosa” e que visaram “ao planejamento da família com completo consentimento de ambos os cônjuges”.13 Em reportagem sobre o mesmo relatório do Ministério da Saúde, o Última Hora admitiu que o relatório indicava que os norte-americanos foram chamados de esterilizadores “com impropriedade”.14



O resultado do episódio

Os que esperavam que os missionários americanos envolvidos fossem processados por genocídio ficaram decepcionados. A CPI estabelecida pelo governo federal não encontrou razão para acusar ninguém de nada. Ao contrário, a publicidade fez com que os brasileiros discutissem abertamente o lugar do planejamento familiar no Brasil. O clima para esse planejamento começou a melhorar rapidamente e, no final de 1967, o dr. Eduardo Lane escreveu: “A publicidade não favorável passou e agora a opinião pública está mudando e muitos pronunciamentos corajosos estão sendo feitos em todo o país”.15

E a situação não ficou só em pronunciamentos! Antes mesmo do final de maio de 1967, o deputado federal Jandui Carneiro apresentou um projeto de lei sobre o planejamento familiar, segundo o qual “é permitida a limitação da natalidade, desde que esse ato decorra da livre e expressa vontade do casal ou da mulher maior de idade que assim o desejar”.16

No final da história, foi reconhecido que a motivação para o estabelecimento das clínicas de saúde às margens da Belém–Brasília por parte da missão presbiteriana era somente o bem-estar da população local, oferecido em nome de Cristo. A luta pela causa dos pobres avançou por meio do trabalho desses missionários, que estavam fazendo o que os missionários cristãos sempre fizeram e ainda fazem — a proclamação das boas novas do reino de Deus e a valorização da vida humana.



Notas

1 REILY, Duncan. História documental do protestantismo no Brasil. vol. 9. São Paulo: ASTE, 1984.

2 Jornal do Maranhão, São Luiz, 7 maio 1967.

3 Última Hora, Rio de Janeiro, 11 maio 1967.

4 Última Hora, Rio de Janeiro, 5 maio 1967.

5 Última Hora,Rio de Janeiro, 11 maio 1967.

6 Carta datada de 11 de maio de 1967. Cópia na possessão do autor.

7 Carta datada de 26 de junho de 1967. Cópia na possessão do autor.

8 O Jornal do Maranhão, 30 abr. 1967.

9 Brazil Herald, 5 maio 1967.

10 Diário da Manhã, 17 maio 1967.

11 Última Hora, 3 maio 1967.

12 O Globo, 9 maio 1967.

13 O Imparcial, 18 maio 1967.

14 Última Hora, 18 maio 1967.

15 Carta datada de 17 de dezembro de 1967. Cópia na possessão do autor.

16 O Imparcial, 23 maio 1967.




Frank Arnold foi missionário no Norte e Nordeste do Brasil por 33 anos. Trabalhou como professor e deão do Seminário Teológico de Fortaleza e hoje desenvolve um ministério entre imigrantes brasileiros e outros nos Estados Unidos.

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