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Reflexão — Robinson Cavalcanti

Viventes e (sobre)viventes

Há cristãos que passam a vida na igreja, em uma rotina, como santos anônimos, ou como meros “igrejeiros”, e que parecem não ter “crises”. Outros nascem na igreja, dão uma “voltinha” pelo mundo e, mais tarde, regressam. Outros nascem, vivem e morrem fora da igreja: são os “nominais”, cuja religiosidade se restringe a batismos, casamentos e funerais (até o próprio). Outros são ex-delinqüentes, convertidos, que têm-se transformado em “profissionais de testemunho” (quanto piores os pecados, maior o “ibope”). Outros fazem o tipo “sobrevivente”: passaram maus bocados na igreja durante a infância e a adolescência, revoltaram-se, mas sobreviveram na fé, apesar dos traumas e das cicatrizes.

Integro outra categoria: aqueles que tiveram uma experiência positiva na igreja durante a infância e a adolescência, sem traumas ou revoltas, com uma “grata memória”, mas que tiveram tensões ou decepções na maturidade.

Nos primeiros dezoito anos de vida fui membro ativo da Igreja Romana. Minha avó materna, a primeira professora primária, um primo seminarista e o pároco foram influências marcantes. Ia às aulas de catecismo com prazer. Fui crismado e fiz primeira comunhão com idade de entendimento. Enturmei-me com os acólitos, aspirei ao sacerdócio, brincava de padre (a hóstia era pastilha de hortelã), ia à missa todos os domingos (nas férias todos os dias) e era um entusiasta das aulas de religião no colégio. Um dos meus primos era cônego da catedral e símbolo familiar.

Fui um cristocêntrico — apesar das procissões, do peso cultural da padroeira da cidade, Santa Maria Madalena, e de ser São Luiz de Gonzaga, santo do meu dia, patrono da juventude. Ainda me lembro do cântico A nós descei divina luz. Uma exceção era a oração Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador. A leitura da história por autores diversos, o estudo das Sagradas Escrituras, a leitura do que me caía às mãos e o diálogo com os protestantes foram mudando minha forma de pensar e me fazendo descrer dos dogmas e das disciplinas extrabíblicos. Destaco minha experiência de conversão em um colégio presbiteriano.

No final do colegial deixei a Igreja Romana em “separação amigável”. A ruptura se deu quando eu era aluno dos jesuítas (curso de ciências sociais durante o Concílio Vaticano II), onde viria a lecionar durante seis anos. A distância doutrinária não afetou as relações pessoais ou o interesse intelectual, particularmente pelos documentos sociais pontifícios e pela filosofia solidarista.

Dos 18 aos 30 anos fui membro da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), onde tive várias funções. Cresci no conhecimento das Sagradas Escrituras e da Teologia Protestante; trabalhei como assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB); preguei em igrejas de várias denominações, especialmente na cidade do interior onde meus pais moravam. Nos dois anos que passei em Niterói, congreguei na carinhosamente chamada “igrejinha” Batista de Icaraí, foco de estudantes da ABU. Depois de anos de “namoro”, aos 32 anos, me filiei à Igreja Anglicana, com um projeto evangélico para o Nordeste. Desvinculei-me da Igreja Luterana em outra “separação amigável”, sem frustrações ou amarguras, mas por divergências periféricas e pela atração que o anglicanismo exercia em mim, particularmente pela influência de John Sttot.

Continuei protestante e evangélico, apenas com um novo sabor. Aos 40 anos fui ordenado ministro anglicano.

Minha infância, adolescência e juventude foram tranqüilas na vida religiosa, idílica, idealista, ingênua, até. Denominei-as de “fase do encantamento”.

Sair dos bancos para o púlpito e o altar, e envolver-se com as máquinas denominacionais fazem diferença. Vai-se descobrindo o “velho homem” nos cristãos e nas igrejas. Vi o crescimento do fundamentalismo durante a ditadura militar; a alienação, o adesismo, o fisiologismo e a falta de ética na cidadania; a insensibilidade quanto ao social; a distância em relação à cultura; o legalismo, a importação de teologias exóticas e a fogueira de vaidade das lideranças; e o divisionismo. Tudo isso provocou uma crise de “desencantamento”, que me fez balançar, desanimar, arrefecer um pouco, e depender mais do Senhor.

O lançamento de Uma Bênção Chamada Sexo e Libertação e Sexualidade, a candidatura a deputado pela oposição ao regime militar, a filiação ao PT e à CUT, e as participações nas campanhas de Lula em 1989 e 1994 (quando ele era de esquerda) resultaram em um afastamento de setores mais conservadores (diminuição de convites, distanciamento...). Descobre-se a dificuldade de se ter vínculos afetivos na igreja quando há divergências teológicas, ideológicas e éticas.

Um aspecto importante na época era a vida profissional na universidade e a vida social em entidades, que traziam um sentido de realização e “missão no mundo”, de que o intra-eclesiástico não era tudo. A memória e o acervo dos longos anos de tranqüilidade e bênçãos do passado funcionavam como elementos estabilizadores.

Não tendo sido um sobrevivente (mas um vivente) de experiências religiosas negativas, tendo conseguido superar posteriores dificuldades, venho a me defrontar com os anos mais difíceis para a militância cristã quando inicio o “outono da vida” e o exercício do episcopado: cismas — fruto de megalomania; narcisismo; insubmissão e falta de ética de líderes que têm uma relação patrimonial com a igreja; a percepção da violência e da intolerância do fundamentalismo da esquerda religiosa (liberais, revisionistas); a troca do evangelicalismo pelo liberalismo, por parte de líderes então “acima de qualquer suspeita”; e a debilidade do conhecimento bíblico e da identidade denominacional.

Não tem sido fácil viver em um anglicanismo de maioria mundial ortodoxa, de maioria nacional liberal e de maioria regional (o Nordeste) ortodoxa, em uma crise da civilização que está afetando o cristianismo — a negação da autoridade das Escrituras (e das doutrinas e princípios éticos delas emanados), com o poder eclesiástico institucional arbitrário, que atropela as normas vigentes.

O sofrimento maior é o ser objeto de calúnias e difamações, a solidão e a falta de solidariedade de cristãos intimidados pelo “espírito do século”. A fé na providência do Senhor da história e da igreja, contudo, me faz prosseguir na esperança de que haverá, mais uma vez, oásis após os desertos.




Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br


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