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Seções — Abertura

Presidente Lula, precisamos de comida!

Ora, o povo pobre, homens e mulheres, crianças e velhos, da zona rural e das favelas urbanas, começou a reclamar muito do governo, dos poderosos e de seus patrícios que não passavam fome.

Alguns diziam: “Nós, nossos filhos e nossas filhas somos numerosos e precisamos de comida para comer e continuar vivos”.

Outros diziam: “Tivemos de penhorar nossas terras, nossas lavouras e nossas casas para conseguir comida para matar a fome”.

E havia ainda outros que diziam: “Tivemos de tomar dinheiro emprestado não para comprar arroz, feijão e farinha, mas para pagar o imposto cobrado sobre as nossas terras e as nossas lavouras. Apesar de sermos do mesmo sangue de nossos compatriotas, e de nossos filhos serem tão bons quanto os deles, ainda assim temos de sujeitar os nossos filhos e as nossas filhas ao trabalho escravo no campo ou deixá-los abandonados nas ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte. De fato, algumas de nossas filhas já foram entregues à prostituição infantil e nada podemos fazer, pois nossas terras e nossas lavouras pertencem a outros”.

Quando o presidente Lula ouviu essas reclamações e acusações, ficou furioso. Fez uma avaliação de tudo e então repreendeu os ministros e as demais autoridades, dizendo-lhes: “Vocês estão cobrando juros dos seus compatriotas!”

Então Lula convocou uma reunião em Brasília contra a exploração organizada e contra a exploração desorganizada. O presidente tirou do baú das promessas e do esquecimento o Programa Fome Zero, internacionalmente conhecido, e tomou as dores do povo pobre dos jequitinhonhas e dos barracos das periferias das grandes cidades. E lhes disse: “O que vocês estão fazendo e o que vocês estão deixando de fazer não está certo. Vocês devem andar no temor do nosso Deus para evitar a zombaria dos outros povos que nos vêem como nação injusta e que oprime os próprios filhos que não têm terra, nem teto, nem pão”.

Em seguida, Lula confessou à multidão de famintos: “Eu, os meus ministros e os meus homens de confiança também estamos em falta com vocês. Prometemos muito e não fizemos nada. Temos atendido antes os que têm muito e nos esquecido dos que nada têm. A pressão dos ricos tem sido mais forte do que o clamor dos pobres. Mas vamos acabar com essa situação apressando a conclusão da reforma agrária. Vamos dar a vocês terra, teto, pão, educação e saúde. Ouviremos todas as suas reclamações. Tiraremos seus meninos da rua e suas meninas da prostituição, mas já não os colocaremos na FEBEM.”

No final da histórica reunião, Lula convocou o alto escalão do governo e o fez declarar sob juramento que cumpriria as promessas feitas. Ele mesmo, num gesto simbólico, tirou a faixa presidencial que usava no peito e a sacudiu, proclamando: “É assim que Deus vai sacudir qualquer um de nós que não cumprir a promessa que acabamos de fazer. Deus tirará de nós a nossa casa e tudo o que temos, e nos deixará sem nada”.

E todos os que estavam defronte ao Palácio da Alvorada, os famintos e os não-famintos, disseram a uma voz: “Amém! Que assim seja!”




(Paráfrase do texto bíblico de Neemias, capítulo cinco, que narra a história da reforma sociorreligiosa ocorrida em Jerusalém, logo após o exílio babilônico, por volta do ano 450 antes de Cristo.)



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